Estação da luz, gente que chega, gente que sai, a bela estação de trem lotada, o fim de ano que se aproxima, as festas de final de ano, o Natal.
Ali sentado em um banco, Rodolpho Spielmann, o homem de meia idade, tira do bolso interno do paletó do terno de grife, porém, mal cuidado, um recipiente próprio para bebidas e dá um breve gole do whisky que ainda restou dos bons e prósperos tempos de advogado e industrial do ramo têxtil.
Rodolpho, judeu que se fixou no Brasil fugindo da perseguição nazista na Alemanha, ainda bebê com os pais e prosperando na capital do Estado de São Paulo.
Hoje, ao inverso das pessoas que vão do interior à capital em busca de trabalho e prosperidade, Rodolpho, depois de ver seu império quase acabar devido ao jogo, a bebida e o fracasso no casamento, combinação mortal, para, de qualquer maneira, de se dar bem na vida. Deixou na bela casa que já fora reduto de felicidade a ex-mulher Ana Teresa, ainda bela, e as duas filhas do casal, Trixie e Terlise, com sete e oito anos, respectivamente.
Nem a bebida ardente tirava-lhe o nó que parecia-lhe fechar a garganta, procura sem sucesso esquecer tudo que ia deixando para trás. Talvez, no interior do estado, exatamente na cidade de Brotas, onde encontraria com o amigo português Evaristo Madeira, que fizera o mesmo caminho que ele iria trilhar agora, conseguisse se reorganizar e deixar de lado a bebida e o jogo, quem sabe assim descubra o que causou o fim da sua prosperidade, o que foi a causa e o que foi a consequência da traição feita pela exemplar esposa, até então.
No sacolejo agradável do trem de passageiros da Cia Paulistas de Trem (CP), alternava os cochilos com a bela paisagem que passava na janela, fazendo com que tivesse um esboço de paz. Já vinha o chefe do trem anunciar, depois de quatro horas e cinquenta minutos, que a próxima parada seria a cidade de Brotas, onde desembarcou com outros passageiros e ali mesmo, na praça da estação, avistou o bar e restaurante "Trás-os-montes", como descreverá em carta o amigo português Evaristo Brandão Madeira.
Bem recebido no estabelecimento do amigo português, Rodolpho dispensou a comida, ficando apenas no antepasto e a cerveja amiga. O tempo passou rápido, já estabelecido por ali há mais de dez anos, em um cômodo antigo, porém simpático, a vitrola com seus discos de música clássica onde não faltavam Vagner, Bethoven, Tchaikovsky, além do brasileiro Villa Lobos.
Mais um Natal se aproximava, o que deixa Rodolpho mais depressivo e a beber mais, fragilizando também a mal cuidada saúde. Na véspera do Natal, depois de recusar o convite para cear com Evaristo, pois já conhecia bem Maria Odete, sua mulher, sabia muito bem que por ela ele não era bem-vindo do salão do bar e restaurante para dentro de casa, sabendo bem de sua condição de bêbado chato e decadente. Tomou mais uma cerveja e se foi para sua casa-cômodo, ali não tão bêbado no caminho ainda se lembrou pai Franz Ernest sisudo e da bondosa e fina mãe sempre ao piano. Os sinos da catedral chamava os fiéis para missa do galo, chegou em casa e deitou-se acordou com os primeiros raios de sol e viu belíssimos raios de sol entrando pelas frestas da porta e janela.
Enquanto isso, na cidade de Brotas, um belo carro com duas belas e bem sucedidas bela louras, cada uma com um casal de filhos pequenos, procuravam pelo endereço do pai e, ao encontrar, foi uma alegria indescritível para o velho alemão. Ali no carro, além da belas e alegres crianças, uma ceia completa, choros e risos se misturavam. O milagre do natal realmente existe. Notícias boas e outras não, pois a mãe da Trixie e Terlise vivia agora em Frankffurt com o padrasto das filhas.
Mas seus netos deram-lhe uma alegria com seus rostos, olhos, cabelos e cheiro de vida, que nada poderia tirar-lhe o gosto e o prazer de poder assim voltar a viver.
De repente, batidas na porta de madeira do velho cômodo, Rodolpho sente uma dor muito aguda no lado esquerdo do peito e numa paz indescritível, embarca em um trem dourado de sol e luz, adormece para sempre. Enquanto isso, no lado de fora, as batidas de mãos tremulas de medo e emoção se intensificam, sem poderem ser ouvidas.
- Trixie, diz Terlize! "Tem certeza que é este mesmo o endereço? O sr. Evaristo pode ter se enganado!" - Não! É este mesmo!
Pressentido algo, as duas se abraçam e choram ante os olhares atendo das quatro crianças dentro do carro estacionado, para a surpresa do outro lado da rua.