Articulistas

Pudim

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Cuidado, companheiro, a vida é pra valer. E tem mais, é uma só. Foi o Vinícius quem disse. E, como se sabe, ele tinha toda autoridade para dizê-lo. O "poetinha" viveu intensamente tudo e mais um pouco, não deixou nada pra depois. Mas, se alguém discordar, ele faz rigorosa exigência: "certidão passada em cartório do céu e assinado em baixo: Deus." Perfeitamente compreensível, considerando-se os muitos e falsos deuses que habitam as não poucas igrejas de cada esquina.

Se a vida é mesmo pra valer, o que temos feito? Correndo. Correndo muito e loucamente. Mas correndo atrás do quê? De dinheiro? Nenhuma dúvida. De saúde? Alguns sim, outros nem tanto. De sucesso, aplausos e plateia? Praticamente, todos. De paz de espírito? Claro, a barra tá pesando. De roupa justa em corpo magro? Certamente, culpa do vaidoso espelho. De amor e de sexo? Sempre, fome eterna, alimento escasso.

E daí, somos felizes? Ou, desgraçadamente estamos deixando a vida, feito água, escapar-nos por entre os dedos? Se a felicidade resulta das escolhas que fazemos, a que temos dado valor e prioridade? Sendo tantas as placas indicativas - muitas perigosas e traiçoeiras - que caminho temos seguido?

Mais água se vende, quanto maior a sede é. Num mundo de tanta apatia, depressão e desesperança, parece razoável que a sede de felicidade seja maior. E o mercado, sequioso de faturamento, vai publicando e empilhando livros. Nas capas, o título chamativo exibe a isca piscante: "felicidade". Anzol certo pra quem sabe pescar.

Muitos desses livros não passam de receituário de autoajuda. Prescrevem, milagrosas pílulas diárias, sem nenhum efeito central ou colateral; outros nada prometem, tampouco receitam, mas nos obrigam a refletir sobre o que temos feito com a nossa vida, a cada dia que da cama saímos.

Refletir é bom, mas complicado. É que, bem no meio do caminho, a pedra drummondiana nos aguarda. Pedra esfíngica por ser conceitual: o que entender por felicidade? Difícil dizer. Se algo de bom de repetente nos acontece, isso é alegria. Se um determinado momento nos extasia, isso é prazer. Alegria e prazer, bem diferentes de felicidade, são apenas momentos, morrem depressa porque, sendo gozo, não sabem durar.

Agora, se avaliarmos a nossa vida como um todo e, ao final, nos sentirmos satisfeitos com as nossas escolhas e conquistas, daí sim poderemos dizer que, de certa forma, somos felizes. De certa forma, claro. Com tantas bombas explodindo sobre crianças desprotegidas, fica impossível desejar felicidade maior do que a possível.

No livro "Felicidade foi se embora?", Frei Betto traduz, em uma única frase, o que é fundamental para uma pessoa se sentir feliz: "imprimir sentido à própria vida". Bem lógico, a vida tem que ter um sentido, mas que fique bem claro: sentido hu-ma-no. E isso só acontece se incluirmos o outro na nossa agenda. Viver é compartilhar. Ninguém pode ser feliz sozinho.

Não há de ser apenas acordar, comer, beber, gozar, dormir e morrer. Isso é vegetativo, não é humano. Diz o frei pouco importar onde a pessoa esteja, desde que cumprindo o sentido estabelecido: "seja enfiada em um laboratório, pesquisando células de formigas, seja como militante de um partido político que busca a transformação da sociedade."

Triste saber que muitas pessoas não imprimem sentido algum à vida que levam. Vivem salivando, com a cara no espelho, como se a vida fosse apenas pudim. Nenhuma outra finalidade veem na vida, senão a de lhes banquetear prazer e gozo. "Imprimir sentido à vida" é bem diferente dessa autofagia. Ao contrário do que tem feito o nosso umbigo individualista, a vida só ganha sentido quando existe amor e compromisso para com o próximo.

Por isso, louvemos a nobreza da vassoura que varre nossas ruas. Louvemos, igualmente, a perseverança do giz que, apesar dos pesares, continua educando nossas crianças. Também a caneta que - doa a quem doer - informa e denuncia nas manchetes de cada manhã. Louvemos as máquinas e os donos das máquinas que cumprem a responsabilidade social que lhes cabe. Louvemos, todo profissional que se põe a bem servir. Louvemos, até mesmo, aqueles políticos que, em meio a tanta lama, nela recusam-se a apodrecer. Enfim, a todos que mão têm a estender.

Viver a vida assim, compartilhada, faz sentido, porque nos tornamos mais humanos. Consequentemente, mais felizes.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras curso_romag@uol.com.br

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