O consumo da vez é a compra de aparelho portátil de choque e de spray de gengibre. Os objetos são de fácil acesso em estabelecimentos do comércio informal e formal em Bauru. Lojistas confirmam que, em galerias e lojas de pequeno e grande porte da cidade, o spray e a "maquininha" de choque são, disparados, os produtos mais vendidos há pelo menos um mês.
Para se ter uma ideia, em bancas do comércio informal no Centro de Bauru, os itens estão em falta em alguns locais. Insegurança, medo, expectativa de "proteção" e possibilidade de reação imediata a ameaça e roubo são os principais motivadores dessa nova "febre".
Ambos podem ser também adquiridos pela Internet. Os preços variam de acordo com a procedência. No comércio formal, um aparelho de choque está R$ 90,00. Em barracas de camelô, ele é oferecido a R$ 35,00. Há em formato parecido ao de um telefone celular, outro maior e um terceiro que vem embutido em uma lanterna.
O spray tem a mesma variação de preço, coincidentemente. O frasco traz informação de capacidade de 20 disparos do jato para alcance de até dois metros de distância do alvo. A validade do spray é de dois anos. O aparelho de choque é recarregável à energia elétrica.
| Malavolta Jr. |
![]() |
| O aparelho de choque é encontrado a R$ 90,00 no comércio formal e a R$ 35,00 no informal; para se ter uma ideia da procura, em várias lojas visitadas pela reportagem, a arma está em falta |
Em todas as visitas que a reportagem realizou no comércio, foi constatada s elevada procura pelos itens. "O que tiver no estoque vende. É muito procurado. O choque ainda mais que o spray. O que eu tinha, vendi. Tive que encomendar mais e leva três dias para chegar", contou um camelô no Centro.
No Calçadão, em uma galeria, a informação se repete: "Acabou tudo. Todo mundo quer. Tem adulto comprando para criança. Os clientes falam que querem se proteger, que estão com medo", contou um comerciário. Em uma magazine, o aparelho estava em falta, mas podia ser adquirido pela página na Internet.
Outras lojas do comércio formal oferecem os produtos perfilados em gôndola, em mais de um formato. Os vendedores orientam quanto ao uso. Faz parte da exibição disparar o choque. O susto com a força do descarga ajuda na estratégia de venda.
Os comerciários apontam que não há restrição para a venda. Contudo, Polícia Militar (PM) informa que não é permitida a comercialização dos produtos. O porte é contravenção penal e o item é apreendido em caso de abordagem, com o cidadão sendo conduzido à unidade policial para registro da ocorrência (leia na página ao lado).
'CHOQUE MENTAL'
Para o psicólogo especialista em cognição comportamental, Arnaldo Vicente, o aumento da demanda por "objetos de defesa" é contrassenso. "O paradoxo é que quanto mais a pessoa procura essas saídas para justificar essa falsa sensação de segurança, mais ela aciona a ansiedade. E essa busca amplia a fragilidade em relação ao meio em que se vive. Antes, era no carro blindado, na cerca elétrica, no alarme e na arma de fogo, que, depois, ficou ilegal. E, agora, isso também se dá no plano físico nas ruas, pessoal. Como se a saída fosse portar esses objetos. A questão é que há a falsa ideia de gerar proteção. Passam a achar que a máquina protege. E isso, no plano real, não acontece. Além disso, a orientação é não reagir durante roubo, por exemplo", avalia.
Para Vicente, outro contingente de pessoas está aderindo à compra desses objetos ancorados na aceitação - sem filtro - de redução da vulnerabilidade em casos de reações a assédio, violência. E isso também não é garantido. Ele ainda aponta para outras possibilidades na avaliação: "Há também a distorção cognitiva da euforização nas novas gerações. São pessoas que acham que não vai acontecer com elas e que tudo vai dar certo. Isso leva a abandonar a cautela em comportamentos sociais. A integridade física fica mais exposta. Então, a questão não está em ter o aparelho de choque, mas de analisar qual é nossa postura diante de riscos", relaciona.
DISTORÇÕES
Na avaliação desses comportamentos sociais, o psicólogo inter-relaciona a identificação de distorções em lados opostos. "Há a magnificação da ameaça, a ideia de que o perigo é real e que ele vai acontecer a qualquer momento. E há também a minimização dos recursos pessoais disponíveis para reduzir a chance do mal acontecer e da capacidade de analisar o que de fato é risco em meu entorno. O que quero salientar é que a globalização e o efeito da comunicação pela Internet potencializaram esses temas e isso provoca reação em escala sem que se avalie o contexto, o conteúdo", aborda.
Ou seja, em análise psicológica mais estrutural acerca do maior procura por aparelhos de choque e gás de gengibre, estão inseridas as dificuldades que as pessoas têm de recepcionar o fato sem gerar distorção cognitiva e de gerenciar o pensamento e o comportamento a respeito do que soube ou recebeu. "É claro que temos vulnerabilidade de fato no meio social. Mas a ideia sobre ela é que vai gerar distorções. Temos em questão a vulnerabilidade factual e cognitiva e enorme dificuldade no gerenciamento do pensamento e do comportamento acerca dessas situações. A catastrofização é real. O impulso da compra desses objetos como falsa sensação de gerar proteção é inerente", finaliza Arnaldo Vicente.
INSEGURANÇA E MEDO EXACERBADO
| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Maura Petrucelli propõe análise 'real' do fato |
A psicóloga Maura Cristina Petrucelli Felipe chama a atenção para informação e insegurança. "Medo e ansiedade fazem parte da vida e são vitais. Mas, em ambiente de velocidade e volume de informação, as pessoas estão sendo levadas a acionarem de forma ainda mais rápida as reações por ansiedade. As pessoas não estão sabendo filtrar esse turbilhão. A insegurança pessoal multiplica e a sensação exacerbada de medo também", avalia.
Ela reforça que a questão não é a insegurança real, o medo real, mas a incapacidade de filtro que está em jogo. "Sem saber lidar com isso tudo, muitos são levados a viver com excessos comportamentais e isso aparece em distorções ao lidar com a noção de doença, de alimentação, de segurança, de violência".
Assim, Petrucelli orienta que cada um olhe a sua volta, avalie se de fato a compra de um equipamento de "segurança" mudaria sua vida. "O primeiro passo é identificar esse turbilhão que leva a excessos comportamentais. Depois, a sugestão é que cada um avalie se a compra de um item desses vai gerar segurança. É preciso ter discernimento se essa medida vai modificar o ambiente à sua volta e se este ambiente é de fato inseguro? A compra resolve ou cria outro problema?".
Neste momento, acredita a profissional, a pessoa terá mais condições de decidir baseado não "no gatilho de ansiedade, mas ancorado em pontos de vista reais". "Ao detalhar essa reflexão, separando o elemento que aciona a ansiedade, estaremos em melhores condições de posicionar se esse impulso de compra foi gerado, pelo pensamento de medo", aponta Maura.
A psicóloga, todavia, chama a atenção para fator preocupante. "É preciso levar em conta que uma parte desse público pode estar comprando esses objetos com a intenção, disfarçada ou não, de estímulo à agressividade. Um indicativo é um adulto comprar spray de gengibre ou máquina de choque para criança. Essas ferramentas podem ser usadas para ferir outras pessoas. Isso seria um desastre para as relações sociais. Mas não há como ser descartado dados os indicativos de intolerância social", adverte Maura Cristina Petrucelli Felipe.
TANTO PORTAR QUANTO VENDER É ILEGAL, DIZ PM
| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Além de afirmar que porte é ilegal, Flávio Jun Kitazume enumera os vários riscos envolvidos |
A identificação da venda de arma de choque gera apreensão do estoque e registro da ocorrência em relação ao proprietário na Polícia Judiciária. Além disso, o portador do aparelho e do gás de gengibre também sofrerá a apreensão e responderá pela ocorrência. É o que afirma o comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar em Bauru, tenente-coronel Flávio Kitazume. Segundo ele, a demanda é nova para a PM na cidade.
"Cabe apreensão do material e a pessoa será levada para a delegacia, onde será apurado o fato em inquérito. A venda de aparelho de choque pelo comércio formal e informal é uma demanda nova para a PM. Mas, vindo a denúncia, nós vamos apurar. O fato de não ser arma aparentemente letal não elimina o risco. O fato é contravenção penal e cabe apreensão e registro. Se, durante abordagem, um cidadão for surpreendido com aparelho de choque ou gás de gengibre, a apreensão também acontece e ele é encaminhado para a autoridade da Polícia Civil", esclarece o comandante.
Do ponto de vista da eficácia para a segurança, o comandante aponta para os riscos envolvidos. "É uma falsa sensação de segurança e isso torna seu porte ainda mais arriscado. É claro que o porte de qualquer arma branca pode virar contra quem a usa. A pessoa comum não tem técnica, não está preparada para o uso desses equipamentos. O policial treina o uso e é capacitado para as estratégias de utilização. Nas mãos de um bandido, essa arma ainda reverte contra o usuário inicial", alerta Kitazume.
O tenente-coronel ainda chama a atenção para o risco de lesão. "O choque tem capacidade para gerar lesão grave. E isso tem consequência. E é preciso considerar que o uso do aparelho de choque elétrico pode levar até a óbito. A arma tem aparente menor potencial de lesão, mas não está descartado o pior. Se atingir o peito, essa corrente elétrica pode ser fatal. Já o gás de gengibre causa irritação, o que minimiza a tese de sua eficácia como proteção. A intimidação é momentânea", contrapõe.
ARMADILHA
Ex-comandante geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Benedito Roberto Meira, aponta para a "armadilha da falsa proteção". "É absolutamente questionável que a pessoa estará protegida só porque carrega uma arma branca dessas. E, se a real motivação for agredir alguém ou o de reagir a uma agressão potencial, é preciso levar em conta a inabilidade no uso e de que do outro lado estará alguém pronto para agredir, com motivação para atacar. E, muitas das vezes, esse criminoso estará sob efeito do uso de droga, o que potencializa os riscos e danos. Absolutamente o porte não resolve nada", concorda.
Para Meira, não há dúvidas de que o caso é de contravenção penal. "A lei de contravenção penal define que arma branca é todo instrumento apto a ofender a integridade física de alguém. Isso, então, vale para aparelho de choque, sprpay de gengibre ou pimenta, taco de beisebol, faca, taco de golfe e outros. Ir com taco para praticar o esporte tudo bem, mas levar o objeto para a balada é ilegal. A contravenção é tipificada e gera consequência penal. É um grande equívoco portar algo assim", conclui.
Para o promotor de Justiça, Pedro Evandro de Vicente Rufato, "aquele que porta arma branca em local público, de forma desvirtuada (para ataque ou defesa pessoal), deve responder pela respectiva contravenção penal". Sua abordagem está em artigo específico sobre o tema (site: jus.com.br). "Não considerar contravenção penal significaria ver o infrator incentivado a continuar a portar arma branca em local público, com inegáveis riscos à incolumidade pública".


