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Tatuagem e ressuscitação: e agora? Por Alberto Consolaro


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Tatuagem “Não Ressuscite” no peito do paciente atendido em Miami!

A partir de 1960 as tatuagens deixaram de ser típicas de marinheiros e presidiários e passaram a ser aplicadas também por roqueiros, surfistas e traficantes. A vaidade, ou vontade de se destacar no meio social, representa a principal motivação para se fazer uma tatuagem, muito embora os tatuados tendem a negar.

A TATUAGEM PODE SER:

a) decorativa como uma forma de arte e manifestação social. Junto com cabelos, barbas, mutilações, piercings, as tatuagens representam uma forma de transformar o corpo para que ele comunique códigos, relações sociais e valores. Tatuar é simbolizar e falar com e para os outros;

b) terapêutica quando aplicada com finalidade estética na reconstrução do vermelhão do lábio, auréolas dos mamilos e nas sobrancelhas de pacientes submetidos a cirurgias de cânceres ou mutilações após traumatismos. Ainda pode ser usada para apagar manchas ou cicatrizes, e;

c) acidental nas áreas de penetração de projéteis de armas de fogo na pele, na gengiva pela prata do amálgama e de cimentos obturadores de canal, ou ainda por pigmentos de lápis de cor em contato repetitivo na mucosa do lábio inferior ou parte anterior da língua.

O Homem de Gelo encontrado na Europa em 1991 e datado de 7.300 anos tinha vários desenhos na pele. Na múmia da Princesa Amunet em Tebas no Egito, de quatro mil anos, também havia desenhos na pele. Em termos literários, o primeiro a registrar as tatuagens foi o explorador inglês James Cook, em 1769, ao viajar pelas numerosas ilhas do continente da Oceania cujos maiores países são a Austrália e Nova Zelândia. Mais precisamente foi no Taiti que Cook viu os primeiros desenhos na pele. São duas pequenas ilhas de um conjunto que faz parte dos territórios ultramares da França e chamado de Polinésia Francesa. A capital do Taiti é Papeete e nas duas ilhas que o compõe vivem quase 200 mil pessoas como cidadãos franceses. "Tatu" em taitiano significa "desenho da pele". A palavra tatuagem advém da palavra taitiana tatu cuja pronúncia é "tatau" transcrita para o inglês por Cook como "tatoo".

Tatuar é se mostrar, se comunicar. Os marinheiros tatuavam como prova de suas andanças. Em algumas nações, as mulheres casadas eram obrigadas a se tatuar na mão direita e no pé esquerdo, e quanto maior e mais bonito o desenho, mais rico e poderoso era o seu dono. Entre índios do Araguaia, as meninas que menstruavam tinha sua pele marcada por desenhos chamados de "kahova". Entre os jovens índios carajás, dois pequenos círculos abaixo dos olhos indicavam que tinham chegado à maturidade. Nas prisões, as tatuagens adquirem uma linguagem própria que indicam posições, tipos de crimes e outras práticas.

A tatuagem, segundo especialistas, pode permanecer até duas semanas depois da morte. Uma tatuagem pode ter uma grande utilidade na identificação de mortos. Tem quem se tatua em locais inusitados como no interior da boca na gengiva e palato com desenhos ou palavras. Não é raro tatuar-se o tipo sanguíneo do portador e que se é diabético!

NÃO RESSUSCITE!

Neste ano uma tatuagem no peito de um homem promoveu uma situação inusitada descrita em carta dos médicos à "New England Journal of Medicine". Chegou ao Hospital da Universidade de Miami um paciente inconsciente de 70 anos após ter bebido muito, com histórico de diabete, doença pulmonar e arritmia. Ao tirar sua roupa para as manobras de reanimação cardiovascular, no seu peito estava tatuado "Do Not Resuscitate" ou "Não Ressuscitar". Sem familiares e documentos, os médicos ressuscitaram, mas ficaram consternados por irem contra a vontade expressa pelo homem em forma de tatuagem!

Acionada a comissão de ética do hospital, decidiu-se por seguir a vontade do paciente. No transcorrer da noite, foi piorando e sem tentativas de ventilação e reanimação, morreu! Felizmente, o serviço social do hospital identificou o paciente e recuperou um documento com pedido formal de não ressuscitação!

Coloque-se na situação dos médicos e enfermeiros se tivesse apenas a tatuagem como expressão do paciente: ressuscitaria ou não? Se achar que sim, você realmente considera a tatuagem uma forma de expressão do portador, vivo ou morto! 

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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