Articulistas

Até Tiririca tem vergonha

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Dias destes um parlamentar disse em entrevista na TV que não votaria na reforma da Previdência porque este governo não tem credibilidade. A importância do projeto para o país, para ele é nada. Se o presidente fosse da sua preferência, com certeza ele votaria a favor sem se importar se haveria necessidade da mudança e se o projeto era bom. É por esse e outros comportamentos, entre os quais o envolvimento nas investigações da Operação Lava Jato, que a pesquisa do Data Folha de 29/30 de novembro deu ao Congresso Nacional uma avaliação de 60% para ruim/péssimo e de 5% para ótimo/bom, próxima da do presidente Temer. Foi o maior índice de rejeição na sua história. Se o governo não tem credibilidade, o Congresso tem?

Mas isso não está impedindo que os congressistas já estejam empenhados em sua reeleição como se nada estivesse acontecendo, repetindo a mesma baboseira que interrompe os programas de TV a todo instante.

Para completar a péssima imagem do Congresso, o deputado Tiririca veio a público para anunciar o seu afastamento da política, porque está com vergonha de tudo que viu e ouviu. Sua eleição em 2010 com mais de um milhão e trezentos mil votos já representou um protesto debochado ao Congresso anterior. Em 2014 foi reeleito com mais de um milhão de votos, mostrando que a insatisfação popular continuava, porque a composição do Congresso se manteve quase inalterada, o mesmo acontecendo com a atual.

Acostumado a fazer graça não viu nada de engraçado, só viu a torpeza que o deixou enojado. Mesmo precisando ganhar a vida, prefere fazer rir pessoas humildes e crianças inocentes, que rende pouco, mas honestamente. Uma plateia diminuta de deputados, alguns deles pessoas sérias, assistiu abobalhada ao seu pronunciamento.

Falando no Clube do Exército a uma plateia de convidados do grupo "Terrorismo Nunca Mais" o General Mourão disse que o presidente Temer "vem procurando se equilibrar e, mediante balcão de negócios, chegar ao final do mandato". Como a maioria do atual governo era da composição do governo Dilma, a prática não é nova, é a continuação da anterior. Veja o que a revista Istoé de 06-04-16 publicou: "Em desespero para impedir a oposição de alcançar os 342 votos necessários para apeá-la do poder, a presidente Dilma Rousseff transformou corredores e gabinetes da Câmara dos Deputados e do Palácio do Planalto em verdadeiros balcões de negócios." Essa expressão implica na combinação direta entre as partes no interesse próprio de cada uma, exatamente o que cada parlamentar faz com o presidente. E o povo? Ora, o povo?!

Embora o objetivo imediato da negociação feita no balcão da Dilma e no balcão do Temer fosse o mesmo, a permanência no poder, agora existe uma diferença criada pela presença de um interesse superior aos interesses pessoais das partes - o interesse em aprovar reformas cuja necessidade é defendida por todas as autoridades dignas de crédito do país e do exterior, relacionadas a cada uma delas. Num mundo de mudanças cada vez mais aceleradas, estamos convivendo com situações inteiramente defasadas dos tempos atuais. É vergonhoso que em vez de serem discutidas com seriedade e profundidade sejam submetidas apenas à negociação de votos, de forma imoral e danosa para o país.

A descredibilidade do Congresso e a ânsia de reeleição dos atuais figurantes, com as falsas afirmações de defesa dos trabalhadores e das minorias, como 'canto de sereia' para os mais simples, causam preocupação até mesmo para cientistas políticos renomados, como Francis Fukuyama, da Universidade de Stanford, que em palestra no encontro do Fronteiras do Pensamento incluiu o Brasil no rol dos países em que ele vê o risco da ascensão de um representante do que chama de "Internacional Populista: políticos de extrema-direita com pouco ou nenhum apreço pela democracia e que seduzem o eleitorado com promessas fáceis para problemas complexos."

Matéria da Agência Brasil apresenta cálculo da ONG - Contas Abertas, de que o Congresso Nacional custa R$ 1,16 milhão por hora ou R$ 27,78 milhões por dia. Sabe por que é muito difícil aprovar as reformas? Porque há anos que elas são rejeitadas ou aprovadas parcialmente, conforme os interesses eleitorais do momento. Esses atrasos, somados a novas exigências de mudança passam a exigir mudanças cada vez mais radicais e, por isso mesmo, mais difíceis.

Como, apesar desse custo fabuloso, o Congresso não é capaz de aprovar nada que exija competência e esforço, vamos ficar indefinidamente com reformas inacabadas. Mas, dizem que esse é o custo da democracia e que, mesmo assim, é melhor que um regime ditatorial, seja de esquerda ou de direita.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

Comentários

Comentários