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Entrevista da Semana: Eury Giraldis de Carvalho

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 6 min

Vida e carreira em plena atividade

Fotos: Renato Savi de Carvalho
Jogo do pião rendeu fama além de Bauru: habilidade
Eury com alguns de seus veículos: satisfação
Em moto 1976: mais velocidade (e felicidade)
Da época de formatura: protagonista do tempo
Em clínica particular há 51 anos: feliz com a escolha

Alfabetizado em escola rural "naquelas salinhas de aula com carteira dupla", o cirurgião-dentista Eury Giraldis de Carvalho, 81 anos, tem muitas e boas histórias para contar. Mas, principalmente, um conceito de vida a compartilhar. Foi cursando engenharia que despertou, influenciado por um irmão, para a odontologia: "Ele me motivou a construir pontes em bocas ao invés de pontes nas estradas". Resultado: trabalha em clínica privada há 51 anos (rua Rio Branco, 19-45). Sobre seu hobby (carros antigos), deixa claro: "Sempre gostei dos carros grandes. Motores potentes! Oito cilindros! Muitos HPs. Quem gosta de motorzinho é dentista!". Com o humor em dia e amor à vida, Eury falou ao JC. 

JC - O senhor é nascido em uma região rural. Que lembranças mais marcantes guarda de sua infância?

Eury Carvalho - Nasci na Água do Paiol, município de Piratininga, aproximadamente 20 quilômetros de Bauru. As viagens de jardineira para Bauru são indeléveis da minha memória. Um veículo motorizado era um espanto! Andávamos à cavalo ou charrete. Nunca de carro! Com exceção da jardineira, que passava uma vez por dia, ficávamos semanas sem contato com qualquer veículo motorizado.

JC - A família foi numerosa. Muitos dos irmãos seguiram carreira odontológica ou não?

Eury Carvalho - Sou o caçula de 10 irmãos, filhos de Joaquim Barbosa de Carvalho e Izabel Giraldes de Carvalho. Cronologicamente, cito-os: Rachel, Euzébio, Eudézio, Euflávio, Euclydes, Euclécio, Ruth, Euwaldo e Regina. Meu irmão Euwaldo e eu cursamos odontologia.

JC - Quando criança e adolescente, quais foram as escolas nas quais estudou?

Eury Carvalho - Fui alfabetizado lá mesmo na zona rural naquelas salinhas de aula com carteira dupla. Uma cunhada, Ruth, foi minha primeira professora. Do segundo ao quarto ano primário, estudei no Grupo Escolar Rodrigues de Abreu, onde hoje localiza-se o Colégio São José. O ginásio cursei no Colégio Guedes de Azevedo. Tenho ótimas lembranças dessas escolas.

JC - Quando despertou seu interesse para o mundo da odontologia?

Eury Carvalho - No final dos anos 50, estava cursando engenharia de pontes e estradas. Meu irmão, Euwaldo, retornou do Rio de Janeiro onde acabara de graduar-se em odontologia. Ele tinha tanta paixão pela profissão que me motivou a construir pontes em bocas ao invés de pontes nas estradas.

JC - Onde e quando cursou odontologia?

Eury Carvalho - Iniciei em 1962 e conclui em 1965, na Faculdade de Odontologia de Araçatuba (FOA), hoje, Unesp.

JC - O que tinha de melhor e de pior no seu tempo de início de carreira em comparação com a odontologia atual?

Eury Carvalho - A odontologia brasileira sempre foi de excelência. Tive ótimos professores. Nossa faculdade já era muito bem estruturada e equipada naquela época. Além disso, destaco o grande contingente de pacientes que nos procuravam, isso oportunizou-nos ter contato com as mais variadas patologias e tratamentos bucais. A FOA atendia uma macrorregião que se estendia até Mato Grosso, atualmente do Sul. Como fragilidade da época destaco a não utilização do flúor na água de abastecimento urbano, o que resultava em altos índices de cárie na população. Apenas em 1975, após aprovação de uma lei federal, iniciou-se, em Bauru, a fluoretação da água captada no Rio Batalha. Esta conduta determinou, nas últimas quatro décadas, um grande salto para a erradicação da doença cárie, como já aconteceu nos países escandinavos. Devemos isso, principalmente, ao flúor.

JC - Que virtudes essenciais um profissional deve ter para seguir na mesma área que o senhor?

Eury Carvalho - O senso estético de um artista, a destreza manual de um cirurgião e a paciência de um monge.

JC - O senhor trabalha de 10 a 12 horas por dia. E quanto ao lazer? Tem algum hobby?

Eury Carvalho - Não me canso de trabalhar. Feliz do homem que alegra-se com sua atividade profissional. Quanto aos hobbies, gosto muito de automóveis antigos. Sou associado ao Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista - Bauru.

JC - Conte-nos sobre esses veículos antigos. Quais exemplares possui?

Eury Carvalho - Sempre gostei de carros grandes. Motores potentes! Oito cilindros! Muitos HPs. Quem gosta de motorzinho é dentista! Estou no meu quarto Ford Landau. Este último, ano 1979. Tenho também uma moto Honda 400 Four, 1976, que comprei de um primo após ouvir o ronco charmoso de seus 4 cilindros. Recentemente, herdei de meu irmão, Euclydes, um Volkswagen sedã, ano 1971. Está impecável, pois meu irmão foi seu primeiro e único proprietário. No Brasil, esses veículos são chamados de Fusca, mas não gosto desse apelido.

JC - Aos 81 anos, que valores o senhor considera serem primordiais para uma vida em uma sociedade mais justa?

Eury Carvalho - Reciprocidade! Faça aos outros exatamente aquilo que gostaria que fizessem a você.

JC - Pratica esportes para manter a boa forma?

Eury Carvalho - Nenhum! Aos 81 anos é melhor não cometer extravagâncias. Nunca fui um esportista regular. Na infância e juventude rural, as atividades eram mais físicas e braçais. Andava a cavalo, lidava com animais e trabalhava no plantio e colheita da amora para a criação de bicho-da-seda. Nas décadas de 70 e 80, já na cidade, praticávamos o jogo do pião. Uma espécie diferente de esporte. É semelhante ao futebol, entretanto não se usa os pés. A bola (chamada de bata) é de madeira, um pouco menor e mais leve que uma bola de bilhar. Bate-se nela com o pião rodando em direção ao gol adversário. Esse esporte chama-se "Jogo à bata". Foi uma época marcante. As pessoas paravam para assistir, curiosas. O programa Fantástico, da Rede Globo, chegou a fazer uma reportagem conosco quando nos apresentamos no Ginásio do Ibirapuera em SP. A revista "Placar" veio a Bauru para uma matéria especial sobre o inusitado esporte.

JC - Pergunta obrigatória: qual ou quais os segredos de uma vida longa com qualidade?

Eury Carvalho - Anote aí!!! Primeiro: coma apenas o necessário. O Instituto Nacional de Envelhecimento, dos EUA, já comprovou que indivíduos que ingerem menor quantidade de alimento, vivem mais. Transformar nutrientes em energia causa envelhecimento e morte celular. Segundo: trabalhe até o limite das próprias forças. A ociosidade prolongada não faz bem. Terceiro: dê, aos problemas, a real dimensão que eles têm. Se não agradou-se com a cor que escolheu para a parede de sua casa, apenas repinte-a. Evite fazer disso um desgosto profundo.

Perfil

Nome completo: Eury Giraldis de Carvalho

Idade: 81 anos

Signo: Sagitário

Religião: Espírita

Esposa e filhos: Neyde Savi de Carvalho, com quem tem dois filhos: Renato Savi de Carvalho (casado com Ana Paula e pai de Ana Luiza e Rafael) e Rogério Savi de Carvalho (casado com Patrícia e pai de Henrique), ambos, cirurgiões-dentistas

Um filme preferido: Sete Homens e Um Destino (1960)

Um livro predileto: Literatura espírita

Um ditado do qual gosta: Corte sua própria lenha. Assim, ela aquecerá você duas vezes (Henry Ford).

Para quem ou o que dá nota zero: Ninguém

Para quem ou o que dá nota dez: Para minha esposa

 

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