Conservadores somos nós. Constatação, não crítica. Todo Natal fazemos quase as mesmas coisas. E nem todos os abraços serão, assim, tão apertadamente sinceros. Faz parte. Segunda quinzena de dezembro é isso: correria para comprar presente em cima da hora e Roberto Carlos infalível na tela da TV. Constatação, não babação: continua cantando à perfeição.
Seguimos nossos ritos, somos repetitivos, e isso em tudo tem a ver com a condição humana. Talvez por ter atingido outro patamar de humanidade e condição é que Jesus, de todos nós, foi o mais imprevisível e atirado. Santa ousadia.
O cara meio que peitou o mundo do mal sozinho: sem espadas de luz, sem armaduras voadoras, sem capas azuis. Alguns dizem que não ressuscitou, outros falam que teve irmão. Não serei aqui o ousado da vez a questionar. Ainda mais hoje, na véspera de seu apregoado aniversário.
Gosto da ideia de que Deus está em todo lugar. Tem até uma crença só para isso: panteísmo. Tempos depois chegou o filósofo Baruch de Espinoza, cuja morte completou 340 anos em 2017, para avançar nessa linha: "Só o mundo é real, sendo Deus a soma de tudo quanto existe".
Por coerência, podemos dizer que Jesus também está em todos os seres. De preferência, o Jesus corajoso e amorável; veemente e gente fina; forte e disponível; sábio e jovem. Uma coisa não exclui a outra. Aliás, complementa.
O cabeludo Jesus, nos anos 60 e 70, teria roubado a cena. Nem Jimi Hendrix com suas guitarras incendiadas seria páreo. Sim, foram duas, em 1967: uma em festival em Londres e a outra em Monterey, na Califórnia.
Jesus até iria dar seu pitaco a Jimi, já que o músico se feriu na primeira performance incendiária. "Calma, Jimi, existe fogo que não queima. É o poder de meu Pai".
O filho de Deus teria se dado bem com uma guitarra em mãos. Certamente não se intimidaria: ousado que só ele, mandaria brasa. Que a sua intensidade siga aquecendo corações e alumiando mentes por aí. Essa luz, como canta Roberto, só pode ser Jesus. Essa ousadia, também.
O autor é editor do JC.