Tribuna do Leitor

Cafeo e a ideologia econômica

Marcos Paulo Rezende
| Tempo de leitura: 5 min

Leio sempre os artigos econômicos do Reinaldo Cafeo aqui no JC e vejo o quanto tem clamado pelo corte de gastos públicos e as reformas Trabalhista e Previdenciária, sempre dizendo que a análise não pode ser ideológica e a observar os tais "agentes econômicos" como se fossem uma espécie de oráculos da economia.

Antes de questionar alguns pontos, gostaria de lembrar um pedaço da história que já deve conhecer. A Alemanha, com sua economia devastada pelo absurdo Tratado de Versalhes, convoca Hjalmar Schacht para dar jeito na economia alemã, e o que ele faz? Reduziu a taxa de juros de forma brutal a quase zero o que era pago ao capital financeiro no financiamento da dívida alemã e, junto com grandes grupos empresariais alemães, criou uma taxa interna de retorno para quem investisse seu capital num projeto de reestruturação da infraestrutura alemã. Com isso saíram as autobahns, a indústria metal mecânica, as metalúrgicas e assim se viabilizou o desenvolvimento e o pleno emprego. No pacto que deu início ao New Deal nos EUA, Ford, inspirado nas ideias de Taylor, aplica-as para sua linha de montagem, aumentando a produção e a indústria americana sucede o Ford em sua linha de montagem, vendo a produção crescer, o presidente Roosevelt resolve condecorar Ford pela linha de montagem, que é negada por Ford e diz ao Roosevelt que a produtividade estava inviabilizando a economia americana, "por quê?", perguntou Roosevelt, e Ford diz: "Porque nós não teremos mercado de consumo", Roosevelt questiona o que fazer então e Ford diz: "Vamos reduzir a carga horária para dar mais emprego e subir o salário para recuperar a capacidade de consumo da economia americana". Após fazer isso, Roosevelt parte para as grandes obras, rodovias, geração de energia, portos, restabelecendo a economia e o desenvolvimento.

E no Brasil, Cafeo, estamos na contramão da história com o país impedido de grandes investimentos pela asneira total do "Ajuste Fiscal", porque somos sim deficitários em investimentos e sufocados pela rolagem absurda dos juros da dívida pública.

Condeno sim, como o senhor, a corrupção, desvios e falta de transparência que certos políticos conduzem a máquina pública, eficiência é primordial em tudo na vida, mas não é a caricatura do discurso da corrupção brasileira para desacreditar o povo na política e desviar sua atenção do ponto crucial que é a rolagem de juros.

Como economista, o senhor deveria ser um dos primeiros a clamar pela auditoria da dívida que é prevista na Constituição e ninguém a fez até hoje, porque sabemos que a maior corrupção do Brasil mora nessa dívida, fortunas construídas em cima de fraudes, nenhum país desenvolvido paga uma rolagem dessas, se fosse assim o Japão não se viabilizaria, o Brasil estrangula seu desenvolvimento para favorecer minorias que vivem dessa rolagem, o Banco Central vem realizando uma tal de "operação compromissada", tomando dinheiro em curto prazo a juros que beiram 20%, isso se chama fraude. O que explica esses juros no Brasil?

Estamos nos desindustrializando, a arrecadação caindo, destruindo patrimônios públicos, entregamos nossas barragens para estrangeiros e portanto nossa água, nem nos EUA permitem tamanha atrocidade contra o Estado, mas aqui congelamos investimentos, precarizamos infraestrutura, sucateamos as universidades e não investimos em ciência e tecnologia. Temos um brutal desequilíbrio com o que produzimos e no que importamos provocando bilhões de buracos em nossas contas, vamos pagar isso como? Com soja in natura? Adotamos a esdrúxula política de vender petróleo bruto barato e importar seus derivados atrelados ao câmbio. O mundo hoje pratica juros negativos, como competir e desenvolver enquanto um americano toma crédito a juro negativo ou mínimo ao ano e aqui um absurdo ao mês?

Me espanta ver opiniões onde diante da crise com todos esses pontos, a solução seja criada por uma lei, vamos congelar gastos, precarizar o trabalho, ora, em lugar nenhum do mundo se faz algo tão simplório e entreguista, a não ser que retomada de crescimento para alguns seja a retomada de lucros dos "agentes econômicos", os herdeiros do baronato escravista brasileiro que saíram da época do Brasil rural com chicote na mão, para parasitarem nos juros e que se ferre a nação.

Vamos abrir a caixa preta da rolagem de juros que leva metade do nosso orçamento e aí sim poderemos começar a falar em ajustar despesas.

O Brasil não cobra imposto sobre "lucros e dividendos", taxamos grandes heranças em apenas 4% quando os EUA e a Europa cobram em média mais de 40%, que tal também iniciarmos por aí Cafeo ao invés de desmantelarmos com a Previdência que hoje não é deficitária como alega, mas que não impede nenhum debate para sua solidez no futuro, mas não é entregando 30% dela para a rolagem e nem com os 2% de beneficiados que levam mais de 20% da previdência que são os magistrados e políticos, isso não mexem não é mesmo?

O debate do Brasil precisa ser mais profundo Cafeo, somos um país com um processo histórico complexo e desigualdades de renda enormes, única no mundo, onde quando se fala em expectativa de vida para a previdência vale lembrar que um cidadão no Sul do país tem expectativa bem maior do que um cidadão do semi-árido do nordeste, até nas metrópoles, um cidadão dos Jardins em SP tem expectativa maior que um morador do Capão Redondo, como conciliar essas contradições?

Espero que esse apanhado de ideias possam contribuir para uma boa discussão entre todos e quero acreditar que o que tenho lido é sim algo ideológico e não por desconhecimento.

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