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Geração Z faz 18 anos entre dois mundos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 8 min

Eles vivem conectados, a interação virtual está intimamente ligada ao perfil de comportamento dessa turma e, de outro lado, o mergulho na pretensa "aldeia global" tende a torná-los mais distantes dos relacionamentos presenciais. A geração Z brasileira, de nascidos a partir de 2000, é formada por jovens que agora passam a acessar o portal da "vida adulta", ao completar 18 anos. Considerados pelo modelo internacional de classificação de gerações também como os nascidos em meados da década de 90, para países desenvolvidos, os nativos da era tecnológica são chamados a conviver com os desafios contemporâneos a partir de tendência ao individualismo. Quem são, como vivem e o que esperar dos jovens da geração Z?

Doutor em psicologia social, Celso Zonta pondera que o "elo causal natural que define a geração Z das demais é o acesso a bens de consumo marcados pela tecnologia e conectividade, sobretudo virtual. Eles conversam muito mais pela via tecnológica do que qualquer outra geração. A interface se dá pelo telefone celular em sua maior parte, e as ferramentas de comunicação mais utilizadas são o WhatsApp, Facebook e Instagran, entre outros. "Esta é a forma como eles fazem a mediação social. E esse modelo atravessa todas as classes sociais nessa geração", pondera.

Há, de outro lado, "economia de emoções e menor diálogo presencial" por parte desses jovens. A comunicação é muito mais teclada do que falada. "E por ser uma geração ainda muito jovem, as pesquisas ainda estão tateando qual o impacto desse perfil de comportamento para as relações sociais futuras", pondera. Para Zonta, o acesso à cultura universal, independentemente do juízo de conteúdo, é marcante nessa "tribo". Por outro viés, estão postos para esses jovens os riscos inerentes ao senso comum disseminado. "Os nativos da tecnologia estão em muitas e diferentes tribos virtuais e a falsa sensação de estarem em um modelo aberto de acesso a conteúdos tende a fazer com que esses jovens considerem, muito antes das gerações anteriores, que sabem mais, quando de fato não sabemos, nem nós e nem eles, coisa nenhuma. E essa realidade aliada à exacerbação da individualidade é um grande desafio para essa geração. Pelo celular você acha que está no mundo, mas está só", posiciona o psicólogo.

Para o mestre em história social e doutor em ciências, professor de antropologia da Unesp Bauru, Cláudio Bertoli Filho, o acesso a um amplo sistema de comunicação, com uma multiplicação de mensagens antes não imaginadas, tem permitido que os mais jovens entrem em contato imediato com representantes de culturas, etnias e classes sociais diferenciadas. "Isto tem proporcionado a constituição de um agrupamento de jovens mais abertos e respeitosos às diferenças. O problema que se encontra é que tais demonstrações de aceitação daqueles que não se assemelham com aquele que discursa nas redes sociais têm vida curta", pondera.

Ou seja, o grupo de "amigos" que se unem nas redes sociais, por base, são de pessoas que pensam de maneira muito próxima. Basta um "desvio" nessa "semelhança" que a "pena" virtual é a eliminação do "infrator" do círculo. E aqui reside outro perigo para a turma Z.

Egoísmo pode vir acompanhado de ritual de execração grupal. "Se há benefícios de participar das redes sociais, estas também contêm armadilhas. A esfera virtual instiga a um individualismo e pragmatismo que cobra de cada um a obtenção de um espaço próprio e privilegiado na sociedade capitalista, mais do que transformações que visam o bem comum. Daí a ânsia de muitos em mostrar no Facebook e no Instagram fotos dos lugares que estão visitando, dos restaurantes que estão frequentando, das roupas novas que estão usando", pontua Bertolli.

DESAFIO

Assim, para muitos, apenas se posicionar a favor, ou contra algo nas redes sociais é o sinal de estar participando do mundo. "Mas isso se dá sem perceber que nesta operação o que ocorre é a confirmação de um individualismo constrangedor, um isolamento do mundo que acontece para além das telas dos dispositivos de comunicação. E também sela uma grande solidão e, não raramente, uma incapacidade de conviver com o mundo real, com as pessoas, com situações adversas", instiga o antropólogo.

Em essência, declarações virtuais não geram participação efetiva e não transformam o mundo. "Quem não percebe isso e limita-se a participar das redes sociais padece da sensação de não ser compreendido ao constatar que suas pretensões não estão sendo aceitas. O sentimento de incompreensão leva à multiplicação de lamúrias que, ao serem avaliadas pelos outros, os mais velhos, criou o rótulo geração 'mi-mi-mi'", comenta.

Nesses termos, cobra-se da geração Z a ruptura do comodismo proporcionado pelo isolamento. Para Bertolli, é necessário, como se diz, "colocar a cara para bater", sair às ruas, participar de um mundo real, conviver com o outro para além da tela do computador. Afinal, este é um instrumento que oferece imagens idealizadas do mundo e do homem. "Posicionar-se, ouvir e saber responder ao suposto adversário no plano das ideias é o grande desafio e somente através dele é possível efetivamente buscar transformações do "eu" e do mundo em que se vive. Essa é a missão que a geração Z obrigatoriamente terá que assumir, porque somente assim ela estará em condições de reconhecer a humanidade que todos nós comportamos, inclusive naqueles que pensam diferente e, com isto, contribuir para as transformações almejadas do mundo em que vivemos", opina.

JOVENS ENTRE A VIDA ON-LINE E OFF-LINE

Arnaldo Vicente, psicólogo clínico e especialista em terapia cognitiva comportamental aponta para estudos de filosofia, sociologia e psicologia, entre outras, para destacar que esses jovens da geração Z têm como características marcantes: o pragmatismo, ou seja, eles são extremamente realistas quando buscam realizar suas necessidades pessoais e sociais; a indefinição de si mesmo, dos outros e do mundo, se ocupando mais de suas próprias experiências - seu principal ponto de referência (supervalorização de si mesmo).

Na visão de Vicente, os "Z" também são ponderados e não aceitam a polarização. "Eles conversam e tomam iniciativas visando a flexibilidades e a conciliação. Entendem que alguém ser diferente é natural e não uma manifestação agressiva contra suas ideias e projetos. São autênticos e espontâneos em mostrar suas potencialidades, sem arrogância, e também suas fragilidades sem dramaticidade ou vitimização", cita. Para ele, estes jovens também são inclusivos, "sempre encontram um ponto de conexão que os levam a participar de muitos grupos sociais ao mesmo tempo". 

O mundo dessa geração está na web, em seus notebooks, tablets, smartphones. A questão é que as ferramentas acentuam o interesse momentâneo em navegar em busca de informações que satisfaçam suas obrigações (estudos) ou curiosidade. Se de um lado essas facilidades contribuíram para os jovens da geração Z desenvolverem uma grande e rápida capacidade em resolução de problemas, de outro isso não veio acompanhado de aprofundamento ou especialização. "Eles sabem um pouco de tudo, mas seu imediatismo comandado pelo seu egocentrismo os impedem de "perder tempo" com atividades que necessitam de maior foco para compreender mais sobre um determinado assunto", analisa o psicólogo.

O QUE ESPERAR? 

Considerando que os jovens da geração Z são competitivos, questionadores e colaborativos, mas com dificuldades de interação interpessoal, na visão de Arnaldo Vicente é preciso cuidar para que sua imersão no mundo virtual não se intensifique a ponto de prejudicar sua relação com o mundo real. "Louve-se o seu desejo de mudar o mundo e salvar o planeta, mas antes é preciso não se desconectar de quem está ao seu lado, priorizando a tecnologia que os levam a uma falsa noção de liberdade de expressão", diz.

Mas ele adverte, ainda, que é preciso que as pessoas de outras gerações que convivem com os 'Zs' façam sua parte nesta interação. "E isso precisa ser construído com humildade, aceitação e disposição em conhecer e a se habilitar em utilizar as velhas e novas tecnologias. É preciso se aproximar para compreender esses jovens, ao invés de criticar ou rotular seus comportamentos".

"Lembrando que os comportamentos são resultados de nossos raciocínios e emoções, os quais só serão revelados num clima de empatia, gentileza, compaixão e amorosidade. Afinal já estamos convivendo com uma nova geração: a geração Alpha", completa.

O QUE ELES DIZEM SOBRE AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS

Luiz Otávio Facin vai fazer 18 anos, concluiu o colegial e não larga de seu celular, embora também consuma boa parte do tempo com videogame. "WattsApp uso pra conversar o tempo todo. Mas também gosto muito de futebol no videogame. Meu pai é menos tecnológico, mas brincou mais na rua do que eu. Eu só saía na rua de casa quando era garoto. Tenho um irmão de 20 anos e é igual", conta.

Facin disse que os avós paternos não querem nem conhecer games. "A tecnologia é um meio de trabalho, de resolver coisas. O bate papo é mais virtual mesmo e o jeito de escrever é rápido, mais reduzido. A gente se entende assim", diz. Deborah Duarte Dionízio, nascida em 2000, quer a formação superior em pedagogia, mas não acha que terá dificuldades. "Hoje tem acesso pra tudo. Eu também converso muito pelo Watts. Temos vários grupos que são divididos. Nos falamos muito ao longo do dia", comenta.

Ela conta que o pai, Sérgio Dionízio, tem menor domínio sobre aplicativos. "Ele sabe o básico, usa mais para digitar no bate papo e enviar foto. A comunicação entre os jovens tem um jeito próprio, que, às vezes, usa termos reduzidos. A rapidez em acessar e se comunicar não é acompanhada por quem é mais velho", menciona.    

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