Nestes últimos quinze anos, a situação do Brasil descreveu uma curva balística - uma subida com força suficiente para vencer a gravidade, que vai diminuindo até ser vencida por ela e cair em declive. A força que impulsionou o País para cima foi motivada por fatos como a descoberta do pré-sal, que levaria o Brasil a participar do grupo dos grandes produtores de petróleo; um presidente operário que chegou a ser doutor honoris causa de universidades estrangeiras; distribuição de dinheiro público pelo bolsa família, melhorando a situação da parte mais baixa da população; empoderamento da mulher, com a eleição da primeira presidente e de deputadas e senadoras arretadas. Entre os países emergentes o Brasil destacou-se como líder do BRICS. A euforia dessa subida pode ser comparada com a do gordinho da Coreia do Norte, lançando os mísseis que passam sobre o Japão e caem perto da base americana de Guam.
O início da inflexão para a descida começou quando a crise econômica enfraqueceu o governo e criou problemas que descontentaram a população. A partir daí, como na gravidade, a descida se tornou implacável. O povo, em milhões, foi às ruas pedindo o afastamento da presidente. Um fato, quase que acidental, num posto de gasolina, puxou o manto que encobria a maior pústula que arruinava o País, que ao ser aberta pelo bisturi da Lava Jato revelou a estarrecedora corrupção que grassava por todo o corpo republicano. A maior empresa e nosso orgulho, a Petrobras, por pouco não desapareceu do mapa. Os serviços públicos, principalmente segurança, saúde, educação e transportes foram gravemente afetados pela escassez de recursos. E continuam, apesar das medidas que têm sido tomadas. Grande parte dos Estados e Municípios não está conseguindo nem pagar seus funcionários. A Política e a Justiça, principalmente no plano federal, passaram a viver com insegurança, falsidade e subterfúgios. Tudo isso dificultando a superação dessa situação crítica.
O período de subida melhora o estado de ânimo do povo, cria satisfação, alegria, entusiasmo, melhora as relações e a cooperação. Já o período de descida, criando dificuldades, abate o estado de ânimo, criando insatisfação, apreensão, críticas, discussões e dificulta qualquer iniciativa de cooperação. O psicólogo espanhol Emilio Mira y Lopes, em "Quatro Gigantes da Alma" procurou mostrar os estados emocionais criados pelo Medo, Ira, Dever e Amor, suscitados pelos acontecimentos que nos afetam. Assim, na primeira fase desse período de sobe e desce do Brasil a população teve ânimo para cumprir os seus deveres, apesar das restrições e dificuldades que o dever impõe e estímulo para gostar do País. Por outro lado, a descida para a ruína abateu o ânimo, criou medo e despertou a ira. Hoje a população está mais medrosa, por causa da insegurança e sem vislumbrar uma mudança capaz de separar o joio do trigo nas próximas eleições. E está irada, ou mesmo, indignada com o quadro existente. O amor pelo País foi água a baixo, criando a síndrome do "miamismo", mudar para Miami.
Do mesmo modo que um dia sucede o outro, esperamos que a virada seja para o "raiar de um novo ano", onde o medo e a ira sejam dominados pelo dever e, principalmente pelo amor. Para que isso aconteça a população deve se esforçar para dominar os inimigos internos, conforme nos ensina Emmanuel: "o egoísmo, que nos tolhe a visão espiritual, impedindo vejamos as necessidades daqueles que mais amamos; o orgulho, que não nos permite acolher a luz do entendimento, arrojando-nos a permanente desequilíbrio; a vaidade, que nos sugere a superestimação do próprio valor, induzindo-nos a desprezar o merecimento dos outros; o desânimo, que nos impele aos precipícios da inércia; a intemperança mental, que nos situa na indisciplina; o medo de sofrer, que nos subtrai as melhores oportunidades de progresso e tantos outros agentes nocivos que se nos instalam no espírito, corroendo-nos as energias e depredando-nos a estabilidade mental". E assim, dominando os inimigos internos, enfrentaremos os externos com sucesso.
Que janeiro de 2018 marque o raiar de um novo ano.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.