| Fotos: Arquivo Pessoal |
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| Liliane conta como é viver há décadas no frio congelante de Erie |
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| Neve cobre toda a rua na frente do apartamento da bauruense |
| Robert Frank/Reuters |
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| Bombeiros removem a neve que encobriu hidrantes em Erie |
Acordar até duas horas mais cedo, se paramentar com vestimentas próprias para esquiar e botar a mão na massa. Ou melhor: na neve. Limpar a geleira da garagem e da calçada tem sido rotina diária na vida da bauruense Liliane Noronha O'Brien, 50 anos, que vive há mais de duas décadas em Erie, na Pensilvânia (EUA), cidade que registrou a pior nevasca da história do estado americano.
Em 30 horas de tempestade (entre os dias 26 e 27 de dezembro), a neve chegou a uma altura de mais de 165 centímetros e as autoridades decretaram estado de emergência, conforme o JC noticiou. O índice quebrou o recorde de maior quantidade de neve acumulada em dois dias.
Em meio a mais um inverno rigoroso, a paisagem da cidade segue alterada. Na última sexta-feira (5), enquanto Liliane conversava com o JC por telefone, às 10h (7h na Pensilvânia), os termômetros de Erie marcavam 15 graus negativos. "Dentro de casa está quentinho devido aos aquecedores, mas isso também tem seu lado negativo, já que a calefação deixa a pele seca e, às vezes, faz o nariz sangrar".
A rotina de quem mora em um lugar tão frio não é das mais fáceis. A bauruense foi para os EUA em 1994, onde trabalhou por dois anos em Miami. Há 21 anos, entretanto, mudou-se para Erie, cidade natal do ex-marido. Desde então, o município com pouco mais de 101 mil habitantes passou a ser o seu lar doce lar.
Nem tão "doce" assim. "Odeio o inverno. Na primeira nevasca, fiquei encantada. Aquele Natal branquinho. O deslumbre, porém, logo passa porque o frio é avassalador", revela Liliane, que é consultora financeira em um banco regional e vive atualmente com o filho de 18 anos.
Ela conta que começa a esfriar em outubro e a nevar em novembro. A neve segue até maio, mas o frio só cessa mesmo em meados de julho. "Escurece às 16h e, quando acordo, às 7h, ainda está escuro. Sinto falta da luz solar". Assim, ela visita Bauru ao menos uma vez por ano para escapar do frio intenso.
IMPACTOS
Por ficar às margens de um lago, Erie é a cidade com maior índice de precipitação de neve dos EUA. Para enfrentar as baixíssimas temperaturas, os moradores do município, que faz divisa com o Canadá, são obrigados a se vestirem no estilo "cebola", ou seja, em camadas. Camisetas de manga curta, longa, térmica, segunda pele, lã, jaqueta impermeável ou sobretudo, luvas e gorros fazem parte do traje, necessário para evitar hipotermia.
Já com a roupagem adequada, Liliane seguiu para o trabalho e voltou a falar com a reportagem para informar que a temperatura havia caído ainda mais: por volta das 8h40 (horário da Pensilvânia), os termômetros registravam 16 graus negativos . Como é possível sair de casa assim? "A vida não para", rebate ela.
MEDIDAS E APUROS
Todo ano, o poder público de Erie se empenha para remover a neve de ruas e estradas, além de despejar sal para acelerar o derretimento do gelo. As casas têm isolamento térmico em portas, janelas e paredes. "No inverno, é preciso colocar uma espécie de segunda janela, que seria mais uma camada de proteção contra o ar gelado".
Outro item essencial são os pneus de inverno, com cravinhos de metal. O aparato evita acidentes, como os já presenciados pela bauruense. "Já vi um veículo rodar 360 graus na minha frente e sair da pista. É algo traumatizante".
Ela conta que já ficou com o carro "atolado" na neve anos atrás. "Perdi a noção da rua e cai num canteiro. O jeito foi esperar por ajuda", lembra.
PESCA NO LAGO
| Erie Times News/Divulgação |
| É comum moradores abrirem buracos no lago e pescar |
Erie é uma cidade paradisíaca no verão por ficar à beira do Lago Erie. A atual nevasca, inclusive, é decorrente do "Lake Effect": fenômeno causado pelas águas que, mesmo sob temperaturas negativas, geram umidade no ar suficiente para a produção de uma carga excessiva de neve na atmosfera. O lago fica tão congelado durante o inverno que permite o trânsito de veículos em sua superfície. "As pessoas também costumam fazer buracos para pescar", conta Liliane. Até anteontem, o lago estava cerca de 50% congelado. "A expectativa é que, nos próximos cinco dias, as águas congelem por inteiro e quebre o ciclo de condensação. Assim, o tempo melhora um pouco", destaca.


