Tribuna do Leitor

Como a dor nos faz sós

Demerval Assis da Silva
| Tempo de leitura: 1 min

Só se perceberá que estamos ou somos sós nos momentos mais ruins que estivermos atravessando, porque, e não se teria outro jeito, "quem sabe da minha dor sou eu". Ditado anônimo, mas em cada um dos vários outros ditados que conhecemos e dizemos na maioria das vezes sem pensar, um dia notaremos quanta sabedoria se esconde neles.

Lembrei-me da velha senhora vizinha lá de casa, outrora cheia de vida, como o nosso o velho bairro de orgulhosos ferroviários. Esta senhora hoje vive só e doente, apesar dos dois filhos e vários netos, mas que, como em muitos e muitos casos, não tem tempo. No final da linha, entendemos que esteja ela igual aos velhos trens da sucumbida ferrovia, que antes eram soberanos sobre os trilhos da cidade, porém a senhora ainda resiste. Na verdade, a vida é assim, se tivermos a sorte e o bônus da longevidade teremos que arcar também com o ônus da solidão que a velhice traz e de algumas outras formas, além das dores físicas, para se juntarem às da alma, que talvez sejam as que doem mais.

Não precisa exatamente chegar a ser um ancião para começar a entender o "estar só". Uma doença na flor da idade, na meia idade, dores que vêm e que por mais que estejamos rodeados e amparados, sob a insistência dessas dores, nos farão sentir como somos singulares, como somos sós, e então, como ficamos mais sensíveis estando doloridos, capazes até de sentir a dor da velha comadre da minha mãe, que já sofreu as dores do parto, as dores da traição no amor e agora a pior de todos as dores, a dor da solidão. 

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