Tribuna do Leitor

Banco velho

Hilário Nunes da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

Por esses dias, estava eu em uma das funções de aposentado, a de "paitorista", mas além disso sou cuidador de crianças, auxiliar da esposa nos afazeres domésticos, pagador de contas. Nesse sentido, fui levar meu filho ao trabalho e passei por uma residência. Observando algumas tralhas na calçada, vi um banco de madeira que me chamou a atenção. Os senhores e as senhoras podem supor que falta algum parafuso para, ao transitar, ficar observando coisas que as pessoas deixam em suas calçadas. Também acho que "não bato muito bem", mas comentando isso com parentes e amigos, surpreendi-me como as pessoas executam essa lida amiúde. Inclusive meu irmão, grande Nino, disse-me que algumas dessas peças o "chamam pelo nome!".

Voltando à linha de raciocínio, vi o dito banco de madeira. Todavia, minha caça ao tesouro, não poderia ser executada com a presença do meu filho que, como disse levava ao trabalho. Aliás, com qualquer um dos três, pois eles se sentiriam envergonhados. Cumpri minha missão de aposentado e voltei para analisar melhor o já citado banco. Já voltava preocupado, pois em situações parecidas em passado recente, ao voltar, o objeto não estava mais lá. Que tristeza, como alguém pode pegar "meu" objeto?

Entretanto, ao chegar no local, em uma das baixadas do Bela Vista, lá estava ele, lindo e maravilhoso, todo descascado, pedindo para ser resgatado e voltar aos áureos tempos em que era eficazmente utilizado. Não titubeei, abri a porta de meu velho e bom Pálio e o coloquei no porta malas, e nessa tarefa ainda observei que duas cadeiras de madeira também imploravam igual destino. Resignado, as conduzi.

Já em casa, comecei o trabalho de reparos. Ia usar o termo restauração, mas não é para tanto. Não sou marceneiro, não tenho material necessário para "cirurgia completa", mas iniciei a recuperação do assento. Que coisa mais gostosa fazer algo que nos ocupa a mente! Poderia ler um livro, que também gosto muito, colecionar algo, nossa mente tem que estar sempre povoada de bons pensamentos, situações edificantes, pois como dizia uma amiga, "mente vazia, oficina do diabo".

Então, ao iniciar a reforma do citado, tirando pregos velhos, substituído por outros mais novos, com uma lixa desbastando as diversas camadas de tinta de reparações anteriores, não pude deixar de comparar esse banco com nossas vidas. Sim, ao lixá-lo e tirando as diversas camadas de tinta, pensei em minha vida e nas "diversas camadas" de problemas, rancores e alegrias que vão aparecendo conforme se trabalha e vive. A cada nova cor descoberta, pensava como nossas vidas têm várias nuanças e que de vez em quando devemos "lixar" algumas.

Agora já na madeira crua, imaginar que apesar de nossa vida ser tão curta, se conjecturar que somos imortais, podemos desde já iniciar nosso conserto até chegarmos próximo de quando éramos criança. Não tão inocentes, mas mais predispostos a não nos sobrecarregar tanto de "tintas", deixando escondido o que há de melhor em nós e que muitas vezes temos a sorte de lutar para obter: nossa vida, saúde, paz. Sim existem "tintas" que devem ser mantidas, mas com o tempo aprenderemos mais a colorir melhor a nossa vida. E as duas cadeiras? Aí já é outra história...

 

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