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Heroína da classe trabalhadora

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

O olhar entristecido de Jussara Araújo de Souza desperta indagação: "Como pôde acontecer isso com ela?". Atendente em fase de treinamento numa rede de fast-food, casada e mãe de três filhos, ela é a moça que, na terça-feira à tarde, foi empurrada direto para os trilhos na Estação Conceição do Metrô de São Paulo.

O cara que fez isso, e que não a conhecia, foi preso. Disse que ouviu vozes. Fico imaginando quantas vozes de reprovação e empurrões de "chega pra lá" a pequena Jussara já recebeu em sua batalha diária por um espaço no mundo. Sobreviveu sabe-se lá como. Sobraram as dores no corpo e o trauma na alma.

Se fosse um grandalhão carrancudo à sua frente, será que Sebastião José da Silva - ainda que sofra de algum transtorno mental - teria tido o mesmo impulso de tentar tirar uma vida pelas costas? Foi "ouvindo vozes" e pelas costas que Mark Chapman matou John Lennon com cinco tiros. Malucão? Cumpre prisão perpétua desde 1980. Horas antes, Lennon havia autografado um disco para Chapman. Vejam o que ganhou em troca. No começo da carreira-solo, o ex-beatle lançou uma canção chamada "Working Class Hero" ("Herói da Classe Trabalhadora").

Se vivo estivesse, bem que poderia adaptá-la em homenagem a Jussara, 23: uma jovem heroína da classe trabalhadora, exposta a todo o tipo de louco ou criminoso em seu cotidiano de dificuldades. "Após te torturarem e te assustarem por vinte estranhos anos, então esperam que você escolha uma carreira", diz a letra da canção. "Até que a dor é tão grande que você não sente mais nada" é outro trecho. Jussara, que se viu "morta com vagões por cima", em suas próprias palavras, talvez prefira outra canção de John Lennon. Aquela que pede ao mundo para imaginar algo melhor: "Nenhum inferno abaixo de nós. Acima de nós, só o céu".

 

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