| Malavolta Jr. |
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| Os autores do livro: Edson Fernandes e Luis Paulo Domingues |
A ocupação do oeste do Estado, denominado como "Boca do Sertão de Bauru", no século 19, deu-se em condições muito parecidas como a norte-americana. Busca pela terra, matança de indígenas e aventureiros instalados de forma precária no mato, onde o revólver e a espingarda faziam a diferença na "terra sem lei", são elementos iguais ao que aconteceu nos EUA, na mesma época. Parte da ficção retratada em filmes de cowboy não é mera semelhança, inclusive até que este processo tenha novo paradigma a partir da chegada dos trilhos ferroviário, tal qual no oeste ianque.
O jornalista Luis Paulo Domingues e o historiador Edson Fernandes adoram percorrer arquivos de papéis amarelados pelo tempo, mesmo que os documentos tenham 'dormido' com grilos na gaveta, como dizem os antigos. E é dessa estória popular contada e escrita em cartas e outros meios, pelos antepassados, que a dupla de perdigueiros da história regional identificou os principais grileiros de terra daqui. A pesquisa vai virar livro sobre a ocupação de cada uma das "Bocas do Sertão", episódio que deu-se, em boa dose, pelos que fixaram cercas em léguas, a perder de vista, sobretudo no século 19, em convivência tumultuada no Interior Paulista com indígenas em busca de muita, muita terra.
A pesquisa está organizada no livro "Fronteira Infinita", que aguarda apoiadores para lançamento, neste ano. Para Edson Fernandes, a publicação retrata a vida na fronteira do povoamento. "É o último ponto habitado pelo dito homem branco. Até porque o que havia além do povoamento branco eram os povos indígenas. Ou seja, a "Boca do Sertão". Nós retratamos como viviam essas pessoas. Na "Boca do Sertão" faltava o aparato institucional, faltava justiça, serviço religioso, educação, saúde. E nesses lugares viviam pessoas típicas, pioneiros, bugreiros, os que lidavam com os indígenas, padres que tentam catequizar indígenas, famílias que vieram de longe para tentar a sorte, se estabelecer, e traziam gado, traziam escravos de suas regiões originais", conta um dos autores do livro.
DISTANTE
Por sinal, eles mencionam que o século 19 no Interior Paulista, no sertão, foi de uma época muito precária. "A maior parte dos trabalhos a respeito dessas regiões começa no século 20, com as ferrovias. Nós quisemos ir nesse período anterior. E fomos buscar fontes que nos permitissem traçar o panorama dessa realidade", cita. As diferentes "Bocas do Sertão" na região estão retratadas no Caderno Regional desta edição (páginas 17, 18 e 19).
O jornalista Luis Paulo Domingues também está nessa estrada. "Fixamos nosso período histórico entre 1850, na criação da Lei de Terras, e em 1905, quando a ferrovia é inaugurada em Bauru. Retratamos nesse trabalho que durante 55 anos Bauru foi o último ponto da chamada "Boca do Sertão", o último ponto onde existia gente ocupando terras tentando viver sem morrer em contato com os indígenas. A NOB conseguiu romper esse ponto e expandir a ocupação no sentido oeste", descreve.
Conforme o levantado por eles, Bauru começou como bairro rural, na década de 1850, um aglomerado de moradores esparsos. "Era no meio do mato mesmo, na fronteira do povoamento até então, sempre atacados pelos indígenas que ficavam mais a oeste. E esses bairros rurais tinham rancheiros que se ajudavam e se reuniam todo domingo para rezar em uma capela comum, em uma fazenda rudimentar à época. A partir de 1880, quando começou a surgir o povoado mais organizado, na baixada do Silvino, esses rancheiros se reuniam lá", menciona Domingues.
FRONTEIRA
"O que definia um bairro rural na "Boca do Sertão" era exatamente essa rede de relacionamento entre os rancheiros. "Tendo esses pontos como fronteira entre o que era minimamente ocupado por brancos, à leste, e os indígenas, a oeste. Em seguida, a organização de moradores constitui o distrito de Bauru vinculado a Espírito Santo da Fortaleza, a partir de 1893, mais perto de Agudos e em 1896 Bauru se torna município. E isso significa uma área até a floresta no rio Paraná. Mas a ferrovia rompe a "Boca do Sertão" em 1905 e muda tudo", argumentam os autores.
A essência era a conquista do oeste por terras, aliás, tal qual aconteceu entre os norte-americanos, com ambiente inóspito, matança de indígenas, violência, e depois, o ciclo da chegada da ferrovia como símbolo principal do "progresso". "Esses caras vinham sabendo que aqui podiam se apoderar de uma imensa porção de terra. E a aposta era de que podiam se estabelecer e, chegando o progresso, terminariam a vida ricos. Com alguns isso aconteceu, mas a maioria morreu no meio do caminho. A decadência do ouro em Minas Gerais, junto com a Lei de Terras de 1850, também levou muitos a virem para cá", aborda Luis.
E quem eras esses aventureiros que ocuparam terras em Bauru no século 19? "O fazendeiro decadente do café no Vale do Paraíba, por exemplo, podia antecipar herança para filhos que vinham para cá tentar a sorte com alguns escravos e ferramentas. Outro contingente era de quem fugia do alistamento militar, para não ir servir nos conflitos da Bacia do Prata. Muitos eram fugitivos da justiça", aponta Edson.
Bugreiro amigo de indígenas está entre as curiosidades do trabalho
Entre as inúmeras curiosidades do livro "Fronteira Infinita", duas chamam a atenção. Uma foi a formação de uma comissão mista, de integrantes de órgãos oficiais e agregados. Entre os personagens, um dos destaques é Curt Unckel, filho de alemães que de tão próximo aos indígenas acabou sendo batizado por eles durante sua jornada pela Bauru do sertão, rumo a oeste.
Depois, da Comissão Geográfica criada no Império brasileiro, encarregada de fazer levantamento científico de áreas, de mapear rios, plantações, florestas, um grupo específico se estabeleceu na Bauru da época. "Eles passaram a identificar rios, se a terra era boa para cultivo, se tinha minérios. Os espigões eram os caminhos naturais que levariam mais a oeste, como o cimo do aeroporto de Bauru, por exemplo. Esse espigão era a estrada do sertão, por onde vinham essas pessoas. Era mato", menciona Luis.
A Comissão Geográfica da fase pré-ferrovia já tinha engenheiros, agrimensores, topógrafos. "No grupo tinha gente agregada desqualificada, que entrou para a aventura ou para tentar se estabelecer em algum canto. A comissão contratava pessoas e uma delas foi o Curt Unckel, batizado pelos indígenas de Nimuendaju, ou aquele que faz habitação, que foi depois morar com os indígenas e ajudou no contato com o pessoal da ferrovia na tentativa de pacificação mais tarde", descreve Edson Fernandes.
O livro levanta a biografia parcial de Curt alemão, um dos mais influentes bugreiros do período. "O Curt foi batizado pelos Guaranis".
As várias 'Bocas do Sertão' da região
| Calil Neto/Boca do Sertão |
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| Estrada Piratininga-Duartina |
A ocupação da região de Botucatu e Bauru rumo ao oeste do Estado é um processo lento que passou dos séculos 18 ao 19 com semelhança da marcha dos colonizadores norte-americanos com embates entre colonos e indígenas. É também o início de busca pela terra e de novas fronteiras agrícolas. O historiador Edson Fernandes e o jornalista Luis Paulo Cesar Domingues definem como "Fronteira Infinita" em novo livro essa ocupação das áreas num período que vai de 1850 a 1912 e estabelecem que a "Boca do Sertão" tão propalada em vários documentos, jornais e livros da época é uma conceituação que, conforme a chegada do último marco da colonização, ganhava a expressão. "O último bairro rural em direção ao oeste era sempre a Boca do Sertão", acrescenta Fernandes.
Botucatu tem os mais antigos sinais de fixação do homem branco, nas proximidades do Morro de Hibicatu, que datam do princípio do século 18, conforme atesta o historiador João Figueiroa no livro que denomina também "Boca do Sertão", mas a conceituação existe para Lençóis Paulista, Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro do Turvo, Espírito Santo da Fortaleza (Bauru) e Piratininga.
A decadência da mineração em Minas Gerais forçou a vinda de mineiros para a região em busca de novas terras, principalmente os bugreiros (caçadores de índios). Os reais ocupantes da área resistiram ao máximo para não permitir a chegada do homem branco, relata Fernandes, autor também do livro "Uma Vila no Sertão Lençóis Século XIX".
Os desbravadores deste sertão inóspito, conforme mapas da época atestam como "terras desconhecidas" tem na figura de José Theodoro de Souza, um dos principais personagens que chegou a ter registro de uma imensa área meridional do Estado. Também oriundos de Minas Gerais, Faustino Ribeiro da Silva que ocupou terras em Agudos e Piratininga, Felicíssimo Antonio Pereira em Bauru, onde tem registro de posse, em 1856, das terras da Água do Sobrado.
A "Fronteira Infinita" é a continuação do livro "Boca do Sertão a História de Piratininga na Marcha do Café" que retratou o início daquele município. É a "Boca do Sertão" estendida conforme a região foi sendo explorada até a chegada das Comissões Geográficas e Geológicas que percorrem o Estado em três frentes: Rio do Peixe, Aguapeí-Feio e o Tietê.
Mas o desbravamento do Estado tem a participação importante do engenheiro Teodoro Sampaio que faz uma minuciosa incursão pelo Rio Paranapanema em busca da navegabilidade e registra a vazão e os últimos pontos de apoio. Descobre uma região desabitada, povoada de indígena. O rio é cheio de desnível, cachoeiras que, no século 20, será explorado para construção de hidrelétrica.
A vinda das novas Comissões Geográficas já têm uma outra intenção, mais econômica, na descoberta de novas terras para o plantio do café, de acordo com Luis Domingues.
No amplo levantamento dos dois livros há registros de quilombos (áreas de escravos que conseguiam fugir), das dificuldades de ocupação e batalhas contra indígenas.
Comissão Geográfica 'puxa' colonização
| Calil Neto |
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| Porteira próxima à antiga estação de Brasília Paulista, bairro rural pertencente a Piratininga |
A Comissão Geográfica e Geológica criada 1886 tinha o objetivo de desvendar os "terrenos desconhecidos", como eram nomeados nos mapas antigos a região oeste da Província de São Paulo. Havia até marcações do tipo "região de índios ferozes". Essa imensidão de área partia de Bauru até as divisas do Paraná, Minas Gerais e Mato Grosso.
A primeira incursão teve início pelo Vale do Rio Paranapanema, do qual resultou um relatório elaborado por Teodoro Sampaio, um dos integrantes da comissão. É um dos mais importantes documentos elaborados com detalhes dos rios, vazão e cartas topográficas, na exploração dos Rios Itapetininga e Paranapanema.
O engenheiro Teodoro Sampaio era filho da escrava Domingas da Paixão do Carmo e do padre Manuel Fernandes Sampaio. Ele foi levado pelo pai, em 1865 para São Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio São Salvador e, em seguida, ingressou no curso de engenharia do Colégio Central. Antes de participar da Comissão Geográfica paulista integrou em 1880 a "Comissão Hidráulica", nomeada pelo imperador Dom Pedro II, sendo o único engenheiro brasileiro entre norte-americanos. Ele participou a convite de Orville Derby, que conhecera numa expedição aos sertões sanfranciscanos e participa da Comissão Geográfica e Geológica que realiza primeira medição de base geodésica do Brasil sendo esta executada no Estado de São Paulo (1890).
Sampaio identificou três tribos no vale daquele rio: os coroados, os caiuás, os chavantes e alguns guaranis. Os coroados e os caiuás ocupavam principalmente as terras entre os rios Ivahy e o Paranapanema, mas faziam incursões no Vale do Rio do Peixe até as margens do Tietê.
A Comissão Geográfica e Geológica retornaria novamente entre 1905 e 1906 para levantamento dos rios Tietê, Paraná, Feio e do Peixe. Em certo momento, houve uma divisão de trabalho, seguindo uma turma por terra, e a outra descendo o Rio Feio com o intuito de descobrir onde era sua foz, se no rio Paraná ou no Tietê, relatam os autores do livro "Fronteira Infinita".
"A Comissão Geográfica foi criada no período do império com intuito científico e registrar a flora e fauna da Província de São Paulo, mas quando no ano de 1905 já virou intuito completamente econômico. Eles foram para verificar onde passariam as estradas de ferro e novas plantações de café. Também tinha a intenção de concluir o mapa do Estado de São Paulo, não poderia ficar uma parte branca como atestam documentos da época", conta Luis Domingues, que retrata detalhes dessa comissão no livro.
A própria comissão foi alvo de ataques de índios, como aquele em que saiu ferido o engenheiro Olavo Hummel, no dia 18 de julho de 1905. Os sinais encontrados na vizinhança do local do ataque fizeram-nos concluir que do alto de um coqueiro os índios espiavam os movimentos da turma. "O objetivo (da Comissão) era plantar café e constituir novas fazendas, trazer ferrovias e formar novas cidades", ressalta Domingues.
A construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil devorou matas, operários e índios. Os caingangues foram as maiores vítimas, pois ainda viviam nas matas do interior paulista e se recusavam ao contato com os "brancos". "Pagaram caro - com sangue - por resistir ao avanço da modernidade", conta.
Grilagem de terra para 'legalizar' ocupações
Para registrar as terras recém-tomadas, o pioneiro - fosse ele um rancheiro, um negociante de terras, um grileiro profissional ou um bugreiro - tinha que forjar um documento, conta os autores de "Fronteira Infinita". Havia muitas formas de fazer um documento parecer legal e, desse modo, desgastado pelo tempo. Geralmente o posseiro escrevia o documento com o nome de um vendedor inexistente, forjava a assinatura dele e depois recorria a algum processo de envelhecimento do papel. Depois disso, o documento era colocado em uma gaveta junto a um grilo vivo e sujo de terra. O movimento do inseto dentro da gaveta produzia marcas parecidas com as ranhuras que a ação do tempo imprime, de fato, em papéis antigos. Aí era só montar em um cavalo e ir até o cartório mais próximo para registrar a nova posse.
Quando a Lei de Terras entrou em vigor, em setembro de 1850, muita gente foi atraída para o ofício da grilagem. A lei era um instrumento de valorização das terras que viriam a ser exploradas no país. Seu objetivo era mantê-las concentradas nas mãos dos ricos proprietários, impedindo seu acesso aos estrangeiros imigrantes e aos escravos - os alforriados e os que seriam libertados após a abolição, que um dia viria a acontecer. Porém, como a lei garantia a posse às pessoas que já ocupavam uma determinada terra, acabou por incentivar a grilagem e a falsificação de escrituras. Se o interessado conseguisse comprovar que já estava ocupando o local antes de 1850 - ou que havia comprado a terra de alguém que estava lá antes de 1850 -, ele garantiria a posse desejada. Mais tarde, a Constituição de 1891 passou o gerenciamento das terras devolutas aos estados. O governo paulista criou leis próprias sobre o assunto em 1898, dando novo incentivo à ocupação do oeste do estado.
Edson Fernandes e Luis Paulo Domingues contam que a ação dos grileiros na região de Botucatu, São Manuel, Lençóis, Agudos, Piratininga e Bauru foi responsável pelo início da ocupação dessas áreas da província. Posteriormente, quando a marcha do café estava chegando perto dessas localidades, os fazendeiros ricos de outras partes do território paulista também grilaram imensas áreas de terra a oeste, frequentemente expulsando os ocupantes de poucas posses e sem poder, que haviam chegado ali antes.
Definição de 'Boca do Sertão' é conceito variado
O termo "Boca do Sertão" consta das mais variadas localidades em documentos e jornais da época, principalmente entre os séculos 18 e 19. É comum atribuir a Botucatu, Lençóis Paulista, Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro do Turvo, entre outras localidades. O historiador Edson Fernandes e o jornalista Luis Paulo Domingues explicam no "Fronteira Infinita" que a conceituação era variada.
O nome era dado a toda localidade que estivesse encravada a oeste do mapa de São Paulo, na fronteira selvagem e no limite da zona de povoamento paulista.
De acordo com os autores, geralmente habitada por aventureiros à procura de terras gratuitas, fugitivos da lei e sertanejos sonhando com a riqueza, a rusticidade da vida era o elemento mais presente nessas regiões, com uma estabilidade precária, sempre colocada à prova pela ameaça dos índios e dos perigos de uma terra sem lei. Com o advento da ferrovia, a "Boca do Sertão" passou a designar também o povoado, vila ou cidade que se tornava ponta da linha férrea, igualmente avançada sobre os sertões do oeste de São Paulo. "A Boca do Sertão era uma definição variável, dependendo do ano que a gente está falando tinha uma população mínima um pouco mais para frente da última. O pessoal ia indo para o oeste e virava Boca do Sertão", declara Domingues.
Irmão de presidente foi cafeicultor
| Calil Neto |
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| Casarão que foi da fazenda do coronel Virgilio Rodrigues Alves, sede da Fazenda Veado |
No livro "Fronteira Infinita" Edson Fernandes e Luis Paulo Domingues retratam o período anterior a ferrovia da busca por posses de terras em Agudos, ainda nos anos 1870, no bairro rural do Ribeirão do Veado, que em 1895 seria transformado no Patrimônio de Santa Cruz dos Inocentes, através de uma doação de terras à Igreja feita por lavradores locais. Mais tarde, em 1905, esse povoado daria origem à cidade de Piratininga, quando a Ferrovia Paulista inaugurou sua estação terminal a pedido do Coronel Virgílio Rodrigues Alves, a 400 metros do patrimônio dos Inocentes. Apesar de a Vila de Piratininga ter sido inaugurada em 1905, já contando com a ferrovia, o município só foi criado em 1913, seccionado do território de Agudos.
O café teve uma influência muito grande para a colonização, o que vai impulsionar também a chegada da ferrovia na região de Bauru, mas o coronel Virgílio Rodrigues Alves foi irmão do presidente do Brasil, Rodrigues Alves, durante o período da República Velha, após os dois mandatos. Elegeu-se duas vezes, cumprindo integralmente o primeiro mandato (1902 a 1906), mas faleceu antes de assumir o segundo mandato (que deveria se estender de 1918 a 1922). De acordo com Luis Paulo Domingues, o coronel Virgílio adquiriu ali 11 mil alqueires de terras, ainda nos últimos anos do século XIX, destinadas à cafeicultura de exportação. Com a chegada do café e da ferrovia a uma das Bocas do Sertão, abriam-se novas fazendas cafeeiras e oportunidades para um grande fluxo de dinheiro e de pessoas à procura de oportunidades e riquezas.
| Acervo de Luis Domingues |
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| Foto antiga mostra o casarão do coronel Virgílio Rodrigues Alves na Fazenda Veado |
Ele conta no livro que as terras do coronel podem ter sido compradas ou griladas. "Todos os grilos possuíam um registro forjado, sendo, portanto, difícil precisar quem comprou e quem grilou terras naquelas épocas passadas. Existe um registro no cartório de Lorena, datado de 10 de agosto de 1903, mencionando a compra da Fazenda Veado - as terras de Piratininga - por parte do Coronel Virgílio Rodrigues Alves e esposa. O vendedor seria um tal de Comendador Borges Rodrigues. Ocorre que o café da Fazenda Veado começou a ser exportado em larga escala em 1905, quando a estação de Piratininga foi inaugurada. Era preciso de quatro a cinco anos para a produção começar, além do tempo necessário para derrubar as matas virgens", relata em trecho do livro.
O historiador afirma que, antes de 1903 e sem a conveniência da ferrovia, seria quase impossível que o suposto proprietário anterior plantasse tanto café, pois tamanha produção seria difícil de ser transportada no lombo de mulas até a estação de trem mais próxima.
Por outro lado, a oralidade naquela zona rural ainda descreve o café sendo transportado em mulas, por cima da Serra do Veado, até Agudos. A ferrovia havia chegado lá em 1903. Mas o autor descreve que o coronel teria também enviado a sua produção no lombo de burros até Jaú, que já tinha um ramal da ferrovia em 1887 para depois seguir pela ferrovia até o porto de Santos. Esse ramal de Jaú, da Paulista, ainda estenderia até Pederneiras, Agudos e Piratininga, posteriormente foi desativado no percurso por Agudos até Piratininga, com a ferrovia sendo retificada de Jaú até Bauru.
Botucatu é a primeira povoação
Botucatu é uma primeiras ocupações na região. Os escritores Edson Fernandes e Luis Paulo Domingues resgatam que, antes de 1808, um grupo de religiosos da Companhia de Jesus já havia ocupado o alto da serra, utilizando as extensas áreas de campo do reverso das Cuestas - a parte de cima das escarpas de Botucatu - para criar gado. Foi a primeira conquista da serra.
Eles chegaram em 1712 e formaram uma fazenda, mas foram expulsos do Brasil em 1759, deixando a região inabitada por décadas. Depois da saída dos jesuítas, a Coroa mandou abrir um outro caminho por cima da serra, o Caminho de Iguatemi, que funcionaria como comunicação terrestre até a fortaleza de mesmo nome, no Mato Grosso. Mas o empreendimento não prosperou, pois o forte acabou sendo abandonado.
Então ocorre a segunda conquista da serra. No ano de 1808, José Gomes Pinheiro Machado (ou Pinheiro Velloso, antes de seu casamento) comprou uma sesmaria que havia sido doada a João Pires de Almeida Taques, que não ocupou suas posses, porque o Caminho de Iguatemi foi abandonado, e provavelmente as vendeu por um preço irrisório a Pinheiro Machado.
Dessa forma, em 1808, Pinheiro Machado estabeleceu a Fazenda Monte Alegre, formada pelas terras da sesmaria adquirida no alto da serra e por todas as áreas vizinhas que conseguiu tomar para si. Ao todo, eram 65 mil alqueires de terra, uma fabulosa região inóspita, habitada por índios e feras.
Mas o aventureiro de Itapetininga não foi morar em seus novos domínios. Permaneceu em sua cidade, pois era membro atuante dos quadros políticos locais e regionais, possuindo também uma casa em São Paulo, que lhe permitia estar sempre presente nas decisões dos políticos da capital. Para a Monte Alegre, Machado enviou apenas animais, alguns funcionários e escravos.




