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Hanseníase: doença chega a demorar anos para ser diagnosticada

Marcus Liborio e Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Aceituno Jr.
O médico Jaison Barreto examina Hélio Edson Gonçalves, que descobriu a doença em 2016

Se descoberta no início, a hanseníase pode ser facilmente tratada. Porém, é exatamente na dificuldade do diagnóstico que mora o grande problema. É o que alertam especialistas e o que Hélio Edson Gonçalves, 68 anos, viveu, literalmente, na pele. Desde os primeiros sintomas, foram três anos para que o pedreiro fosse, enfim, diagnosticado com a doença.

"Eu comecei a ter manchas nas mãos em 2013, mais ou menos. Tinha muita fraqueza, dor na perna e também problemas na vista. Foi, então, que comecei a procurar o que eu tinha", conta.

Foram muitas consultas, exames, diagnósticos e tratamentos errados, que iam desde psoríase a diabetes, até a descoberta da doença, que somente ocorreu em 2016. "Foi piorando bastante porque não descobriram o que era. Aí, finalmente, fizeram uma biopsia. Quando veio o resultado de hanseníase, em 2016, acabou o meu mundo. Mas, hoje, com um ano de tratamento, minha pele está lisinha e estou bem melhor".

Dermatologista e hansenologista do Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL) em Bauru, Jaison Antônio Barreto confirma que a história vivida por Hélio não é uma exceção. Segundo ele, a associação dos sintomas precisa ser revista, já que, em muitos casos, a doença leva anos para ser diagnosticada. "Essa demora ocorre por conta da falta de capacitação adequada dos profissionais da saúde", critica o especialista. 

No próximo domingo (28), é celebrado o Dia Mundial de Combate à Hanseníase e, no mês de conscientização da doença, denominado "Janeiro Roxo", serão desenvolvidas ações de diagnóstico precoce e treinamento a médicos e enfermeiros do município (veja mais ao lado), através de parceria entre o Instituto, Prefeitura de Bauru, Sociedade Brasileira de Hansenologia e o Sétimo Distrito Dermatológico da Sociedade Brasileira de Dermatologia (Resp).

Barreto pontua que a dificuldade e morosidade em diagnosticar e tratar um paciente com hanseníase, considerada a doença mais antiga da humanidade, é um problema crônico de todas as cidades. Ele cita que organizações que patrocinavam treinamentos práticos foram deixando o Brasil paulatinamente.

"A realidade é que os profissionais da saúde saem da faculdade sem saber o que é hanseníase e vão para as unidades básicas sem o preparo específico. Quando identificam um caso, encaminham para as unidades de referência. Acontece que as unidades de referência também foram sendo desativadas com o tempo. Isso faz com que a doença tenha uma grande prevalência oculta".

Outro fator que contribui para o tratamento tardio é que a manifestação dos primeiros sintomas da hanseníase pode demorar até 15 anos para aparecer, após o contagio. "O início da doença é assintomático. Geralmente, começa com uma mancha branca na pele e a pessoa não dá muita importância. A população menos favorecida economicamente é a mais afetada".

'VICE-CAMPEÃO'

Segundo estatística divulgada pela Secretaria de Estado da Saúde a pedido do JC, em 2011, foram registrados 1.753 novos casos da doença no Estado. Já no ano passado, o volume foi de 1.088, uma queda de 38% de novos registros de hanseníase. "Na região de Bauru, o número de casos baixaram de 45, em 2011, para 38 em 2017, uma queda de 15% de novos casos", disse a pasta, em nota.

Embora os índices apontem redução, o Brasil é o segundo País no mundo em casos da doença. "Perde só para a Índia. Hoje, há em torno de 13 milhões de brasileiros vivendo abaixo do índice de miséria e cerca de 25 milhões que vivem na pobreza. Os recursos da saúde pública são muito precários. Hanseníase não tem prioridade na mídia porque não mata. Infelizmente, é uma doença negligenciada pelo poder público".

SUBNOTIFICAÇÃO

O médico aponta que o volume de casos não condiz com a realidade. "Você pega um número relativamente pequeno de notificações, mas de pessoas com quadro muito avançado da doença. Isso significa que pode haver mais gente doente que ainda não foi diagnosticada", conclui, em tom de alerta.

Bauru terá avaliação familiar e treinamento

A hanseníase é transmitida pelas vias respiratórias e pelo convívio prolongado com pessoas infectadas. "80% da transmissão se dá dentro de casa", destaca o dermatologista e hansenologista Jaison Antônio Barreto.

Diante deste cenário, equipe do Instituto Lauro de Souza Lima irá promover uma avaliação dermatológica a familiares de pacientes com a doença, no dia 26 de janeiro, das 8h às 15. O atendimento se dará na própria unidade por ordem de chegada.

"Se alguém apresentar sinais da doença, faremos um agendamento mais rápido para que ela seja atendida na rotina normal. Caso o paciente tenha hanseníase bem característica, nós já vamos atendê-lo no mesmo dia e encaminhá-lo para tratamento em unidade de saúde".

Além do mutirão, outra iniciativa está prevista na cidade. Em conjunto com a prefeitura, na primeira semana de fevereiro, 56 profissionais da saúde básica (entre médicos e enfermeiros) receberão treinamento específico para o reconhecimento dos sinais e sintomas da hanseníase.

"Vamos ensinar esses profissionais a como reconhecer a doença, como fazer o diagnóstico e manuseio. Isso já está nos manuais do Ministério [da Saúde], mas muitos não sabem que existe ou não buscam a informação", finaliza Barreto.

O Instituto Lauro de Souza Lima fica no quilômetro 225/226 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-225), a Bauru-Jaú, em Bauru. Mais informações pelo (14) 3103-5900.

 

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