Na história contada no filme "The Post - A guerra secreta" (em exibição), o poderoso é Richard Nixon, o homem que tentou matar a imprensa e acabou assassinado por ela. A intenção do diretor Steven Spielberg foi o de atingir Donald Trump, mas serve também para pôr no pelourinho todos aqueles que passaram pelo poder e dele abusaram. Nem sempre os que se aproveitam do alto cargo são movidos pela corrupção. Há também os projetos partidários de perpetuidade no poder, às vezes ainda mais perversos. Em 1964, o presidente Richard Nixon e o seu secretário de Defesa Robert McNamara decidem intervir diretamente na Guerra do Vietnã.
Mandam milhares de jovens americanos, "que amavam os Beatles e os Rolling Stones", para morrer e matar nas selvas da Indochina, há 15 mil milhas de distância. Eles sabiam que a guerra era inútil. Como todas as outras. Vencê-la? Impossível... Sob a desculpa da "ameaça comunista" de dominar o mundo, governo Nixon precisa criar fatos que atraiam opinião púbica e a faça esquecer, ou não notar, a sua falta de reconhecimento pelo direito de cada povo de se autodeterminar. McNamara havia criado uma força-tarefa, com 36 especialistas, para elaboração de um relatório enciclopédico e conclusivo sobre as ações americanas no Vietnã. O trabalho, minucioso, concluía pela falta de racionalidade dessa guerra, a perda sem causa de vidas humanas, bilhões de dólares desperdiçados e o sacrifício de milhares de jovens para combater um inimigo invisível. Soldados camponeses comedores de arroz sem mistura, de cultura milenar. O filme mostra o que os políticos fazem às escondidas. Um dos cientistas da missão, Daniel Ellsberg, revoltado com McNamara que faz justamente o contrário do recomendado (o fim da intervenção americana), resolve vazar 7 mil páginas do relatório, altamente secreto. Nixon tenta barrar a publicação, alegando "traição" e os altos interesses estratégicos do Estado. Os jornais correm risco de fechamento e a prisão dos seus editores. Recorrem à Suprema Corte que, por 6 a 3, decide que a liberdade de informar é garantida pela Constituição. O filme termina com o início de outro escândalo político que viria em seguida, conhecido como "Caso Watergate", também divulgado pelo Post. Nixon sabia dos atos de espionagem do seu partido, o Republicano, contra os Democratas. Omitiu-se na invasão do Edifício Watergate, onde estava a sede do partido rival, para roubo de documentos. Teve que renunciar, porque mentiu. Disse que de nada sabia das operações ilegais. As gravações dos telefonemas, gravados pelo próprio gabinete da Casa Branca, revelaram a farsa. No Brasil, mala de dinheiro é pouco, como prova.
Duas cenas mais interessantes do filme têm a ver com a proximidade - e a promiscuidade - entre o jornalismo e a política. São duas faces de um mesmo poder que poucas vezes estão em desacordo. É à luz dessa relação conflitante que decorre o diálogo entre o diretor do Washington Post, Bem Bradlee (Tom Hanks) e a dona do jornal, Katy Graham (Meryl Streep, 21ª indicação ao Oscar). Ela é amiga de McNamara, assim como tivera uma relação estreita de amizade com John Kennedy. Herdeira da publicação sem nunca antes ter trabalhado, para ela era impensável a ideia de transformar em notícia algo que prejudicasse uma velha e leal amizade. Katy Graham assume o papel de Publisher, mesmo contrariando os conselhos do advogado e dos acionistas. Visita o secretário de Defesa para comunicar ao amigo que vai ter acesso aos documentos até aí secretos, e que vai publicar.
É difícil esperar que um jornalista não goste desse filme. Especialmente se o representante da espécie tiver alguma nostalgia pela época dourada da informação servida em doses matinais. Tempo da linotipo, do chumbo derretido. A megainvestigação também impõe um desafio aos jornalistas. Há três anos, a imprensa desdobra-se diariamente para ler relatórios, cruzar dados, decifrar planilhas e transformar em notícias a enxurrada de informações vindas da Lava-Jato. Uma corrida permanente contra o tempo. As rotativas não podem parar. Tremo em pensar que todo esse serviço à democracia e à sociedade possa desaparecer. Os pilares de sustentação econômica do jornalismo foram abalados pela transformação tecnológica. Bom jornalismo é atividade dispendiosa. As redes sociais se tornaram uma ampla câmara de ressonância e debates sobre o que é publicado nos jornais. Sem jornais, esse campo de reflexão sequer será possível.
O autor é jornalista e articulista do JC.