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| Supraion e Arcânia são personagens idealizados por Luis Carlos Nunes |
O mercado editorial de histórias em quadrinhos sofisticou e facilitou muito aos artistas gráficos que, hoje, podem lançar suas produções independentes. Na próxima terça-feira comemora-se o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos. E não foram americanos que inventaram as HQs épicas, mas a ideia foi de um brasileiro: o cearense Gustavo Barroso que criou um super-herói que era um príncipe que tirava superpoderes de um anel mágico. A HQ pioneira de três páginas e 21 quadrinhos foi publicada na revista Tico-Tico em 1907, mas nos Estados Unidos que a novidade virou uma indústria milionária e atualmente os heróis chegaram ao cinema virando grandes produções hollywoodianas.
O talento dos desenhistas e a criatividade são os fatores preponderantes para que esse universo fantástico se transforme em obra de arte e ótimo entretenimento para crianças e adultos. Em Garça, por exemplo, o designer gráfico Paulo Ricardo Ribeiro Jacob, de 20 anos, lançou, com apoio de amigos, uma HQ no formato clássico dos gibis. "Raiken - o Filho do Raio" é o guardião intergaláctico e cujo planeta natal estava em guerra. O super-herói vem para a terra treinar suas habilidades e, assim, voltar e tentar salvar o universo. Além de pequena tiragem em papel, a história também está disponível por meio da Amazon Kindle, incluindo versão para celular.
O jornalista Paulo Francisco Scutari, por exemplo, deu uma ajuda na divulgação para o designer garcense com a distribuição de material para a imprensa da região, mas ele com seus 57 anos é um colecionador de histórias em quadrinhos desde a infância.
Outro artista com produção inovadora é Luis Carlos Nunes, residente em Pederneiras, mas adotou uma estratégia inteligente para se diferenciar ao trazer os personagens para a realidade de Bauru, cidade onde nasceu seus filhos. Supraion e Arcânia são uma espécie de Liga da Justiça brasileira. O autor tem um traço inconfundível e não perde para nenhum autor de história em quadrinho internacional.
Nunes é o que no mercado editorial chama-se de autor independente. A maior parte de sua produção é bancada por ele, mas o Supraion já teve direitos repassados a uma editora de Niterói (RJ), que se interessou em desenvolver toda a criação.
De Botucatu, o multiartista plástico Renato Fernandes tem um grande talento e começou fazendo histórias em quadrinhos na infância, mas depois migrou para produção de máscaras em 3D. Ele é precursor da impressão em 3D naquela cidade. Sua habilidade com a escultura tradicional e como cosmaker o levou até o universo digital e a impressão em três dimensões. E claro produz também máscaras e bonecos de personagens de HQ.
Já Jessé Ribeiro já ilustrou histórias em quadrinhos, mas o seu forte são cartuns. Já ganhou prêmios internacionais em eventos até na Sérvia. Todos eles têm um talento nato: a facilidade de desenhar e a criatividade de levar para o papel ou para o mundo digital o universo mágico da imaginação.
Jovem de Garça produz seu HQ
Paulo Ricardo Ribeiro Jacob de Souza, 20 anos, é autor da história em quadrinhos ‘Raiken - o filho do Raio’ uma saga intergaláctica
| Divulgação |
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| Paulo Ricardo Ribeiro Jacob divulga em banca de Garça o seu novo gibi |
O traço do desenho tem uma característica meio diferenciada do usual que mistura influência dos mangás com os HQs de super heróis americanos. O jovem Paulo Ricardo Ribeiro Jacob de Souza, de 20 anos, é o típico produtor de história em quadrinho independente: lançamento do produto numa banca de jornal de uma amiga de Garça, mas disponibilização da história "Raiken - o Filho do Raio" até no site da Amazon, inclusive com versão para celular.
O rapaz é formado pela Univem-Marília há dois anos. A tecnologia facilitou que pudesse criar uma história em quadrinhos e distribuir. Em outros tempos, isso era restrito a grandes editoras. É quem cria geralmente são aficionados por HQ e com talento nato para desenho.
Mas para sobreviver tem prestar serviço na produção de logo marcas para empresa, confeccionar panfleto, cartão de visita, websites, blogs, mas nas horas vagas Paulo Ricardo se dedica ao que mais gosta, história em quadrinhos. As histórias mesmo sendo fantasiosa, busca também um mundo mais real.
Ele conta que o hobby vem da infância. "A parte de ilustração é desde que eu era bem pequeno, a partir de 4 ou 5 anos de idade. Em 2015 comecei a criar essa história em quadrinho que estou apresentando ao público agora", relata.
Paulo Ricardo entende bem do que gosta de fazer e mostra conhecimento. Segundo ele, dos artistas em quadrinhos existentes no mundo o brasileiro é um dos poucos que não tem uma identidade local. "Não existe uma linguagem própria no quadrinho. A turma da Monica, por exemplo, é na categoria do cartum. Então, muitos quadrinhos brasileiros não parecem que são nacionais, o desenho e a história são americanos. No meu caso, criei um novo estilo de desenho e de história", conta.
Em Raiken o autor faz uma mistura, parte da história é em cores e outra parte em preto e branco. O objetivo é da um efeito diferenciado. No mangá, segundo ele, há sempre opção pelo PB e só cores. "Mesmo as histórias sendo fantasiosas, ela passa também um pouco do mundo real. Nos meus personagens quando me refiro que existe um equipamento para deixá-lo mas forte, trata-se de algo que é possível e não uma ficção como no Homem-Aranha que o personagem foi picado por uma aranha radioativa e por isso adquiriu super poderes", explica.
Mas para viabilizar o trabalho, Paulo teve apoio de alguns colegas que conheceu na faculdade. O grupo é for formado por Paulo Ricardo, roteirista; Leandro, revisão de textos; Lucas, history bird (o que aconteceu em cada quadrinho, suas dimensões e as falas que serão ali também inseridas e a separação de páginas; Matheus, desenho, cenários, uniforme dos personagens, etc). O autor também ficou encarrego das cores digitais e ilustrações, ficando ainda com o fechamento do arquivo e envio da publicação.
Conhecimento em HQ leva a outras artes
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| Jornalista Renato Fernandes é desenhista e também escultor |
O jornalista e Youtuber Renato Fernandes é conhecido como um excelente desenhista, no entanto, esse talento já migrou para a produção de escultura tradicional e cosmaker o levou até o universo digital.
Fernandes é especialista em máscaras trabalhando com diferentes materiais, entre eles resina, couro, látex e fibra de papelão, Desenvolve também estátuas e esculturas variadas. Como desenhista profissional atuou em Laranjal Paulista, no final dos anos 80 e início dos anos 90, cidade onde também desenvolveu ilustrações para livros e revistas. Em Botucatu, no ano de 2005 venceu a fase municipal do Mapa Cultural Paulista na modalidade Desenho de Humor.
Já criou cenários teatrais para a escola de artes Artistas S/A, Chafari e grupos independentes de Botucatu, além de elementos cênicos para espetáculos variados, entre eles “Pelos Sítios de Lobato”, em 2012, “A Bruxinha que era Boa”, “Pipoca de Papirus”, “O Pastelão e a Torta”, entre outras. Responde como responsável pelas máscaras utilizadas pela banda alternativa D.I.E.
Já foi chargista de jornal e estuda novas linguagens web, com conhecimentos avançados na plataforma Blogger, e medianos para as plataformas Joomla e Wordpress, além de um estudiosos das linguagens da web (ASP, Php e Xml). Tem o blog “Pano Hippie” onde ensina técnicas de arte e artesanato para iniciantes que mantém mais de 25 mil inscritos.
Procurado pelo JC nesta semana, Fernandes disse que a HQ é apenas um hobby, embora tenha desenhado muito e também ensinado a técnica. “Na minha época (anos 90) só conseguia produzir alguma coisa se tivesse editora, hoje está bem mais fácil e próximo do público. Fazia trabalho com outro amigo, mas a gente não tinha onde publicar. Hoje pela internet é possível divulgar e até mais fácil publicar uma edição impressa mesmo com tiragem pequena”, conta.
JORNALISTA É COLECIONADOR
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| Paulo Francisco Scutari mostra gibi do Tarzan: raridade de sua coleção |
Com uma vasta experiência na profissão de jornalista e radialista, Paulo Francisco Scutari, de 57 anos, ficou incumbido de fazer o material de divulgação do gibi "Raiken - o Filho do Raio", justamente um dos grandes colecionados de gibis de Garça.
Ele conta que começou a se interessar por histórias em quadrinhos na infância (entre os anos 60 e 70), a partir dos filmes de Tarzan que assistia no cinema da cidade aos domingos à tarde. Não demorou para saber que existiam os gibis (HQs) e foi amor à primeira vista. "Acabei sendo estimulado à leitura com os gibis e sempre que conseguia um dinheirinho, corria para a banca para comprar novos", contou. A seguir os principais trechos da entrevista:
JC - Quais são as preciosidades?
Paulo Scutari - Minhas maiores preciosidades são os diversos exemplares de Tarzan edições de anos que vão entre 1968 até final dos ano 70 - preto e branco e coloridos (mas os PBs são mais bonitos), e alguns capas-duras com reimpressão de histórias clássicas de Homem-Aranha e Batman, especialmente. Sempre comprei, sempre li e continuo comprando e lendo até hoje, às vésperas de completar 58 anos de idade. Leio de tudo, mas posso afirmar que depois da Bíblia, o que mais leio são os HQs. São cerca de 300 HQs, a maioria heróis e super-heróis, mas que incluem Tex, Zagor, Mágico Vento, entre outros (Western)/ mas também muito Turma da Mônica, Disney (os antigos Almanaques Disney e edições especiais, inclusive dois capas-duras), gibis dos personagens da Warner (Pernalonga, Patolino, etc).... Gosto, especialmente, de HQs antigos, e por isso sou um fã de "Sebos".
JC - Tem dificuldade de conseguir os gibis mais antigos?
Paulo - Conseguir gibis antigos não é tão difícil. O difícil é conseguir exatamente o que se tem vontade e, no meu caso, Tarzan e Korak, o Filho de Tarzan em português (Korak não tenho nenhum).
JC - E como vê essa nova geração que produz quadrinhos e essa influência digital?
Creio que tudo se moderniza e os artistas de HQs não iriam ficar para trás, tanto na utilização dos novos recursos digitais quanto nas possibilidades que isso proporciona. Mas creio que aquele desenhista nato nunca deixará o papel, o lápis de lado, o nanquim...
JC - O que mais atrai nos quadrinhos? A história ou a forma como são desenhados?
Na verdade, sou apaixonado pelos traços e tiro o exemplo dos antigos gibis do Tarzan - a perfeição dos traços do rosto, as expressões faciais, o cuidado com detalhes, o desenho de animais... Muitos em preto e branco e mesmo aí existe algo de especial. Mas, claro, as histórias são ótimas, mas talvez pela minha idade, prefiro os HQs clássicos - mais antigos - dos anos 90 para trás.
JC - Você acha que esse hobby está acabando?
Creio que sim. Não se faz propaganda na TV ou na mídia digital sobre gibis. Os professores não utilizam gibis como forma de estímulo à leitura ou discussões em sala de aula (sou professor e posso testemunhar isso - com exceções, claro). A galera de hoje, em geral, não tem interesse.
JC - Gosta dos quadrinhos da Marvel?
Gosto sim - em se tratando de heróis e super-heróis, não tem o que eu não goste.
JC - Aprecia essa migração dos HQs para as telas do cinema?
Sim, aprecio muito as criações irem para as telas e DVDs, e também gosto da dos seriados (Smallville, Flash, Supergirl...). Além dos gibis, tenho quase tudo de super-heróis em DVDs, incluindo box de seriados de Superman, Batman. E animações também, porque amo desenho animado de heróis, super-heróis e outros personagens importantes como o Johnny Quest.
LEGIÃO DE HERÓIS TEM BASE EM BAURU
Designer gráfico Luis Carlos Tavares Nunes, de Pederneiras, é idealizador de uma Liga de Super-Heróis bem brasileiros e com referência na região
A imaginação não tem limites nas histórias em quadrinhos. Elas são épicas e podem ocorrer nas profundezas das galáxias ou na Praça da Paz em Bauru ou em Piracicaba. Não é estranho que a base dos heróis possa ser na Cidade Sem Limites e não em Nova Iorque assim como todos os personagens serem brasileiros e não americanos ou japoneses. O design gráfico Luis Carlos Tavares Nunes reside em Pederneiras e é criador do Supraion e Arcânia.
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| Luis Carlos Tavares Nunes mostra gibis de suas histórias idealizadas |
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| Supraion tem bom acabamento |
Essa Liga da Justiça à brasileira é interessante, porque houve uma mobilização de heróis de vários cantos do Brasil. Uma das imagens é um dos personagens na Praça da Paz bauruense.
Como ocorre com os demais artistas gráficos, Nunes tem que emprestar seu talento gráfico na prestação de serviços na elaboração de marcas e ilustrações, mas o que ele gosta mesmo é produzir as suas HQs. Ele atende a várias empresas da região com um catálogo de marcas grande, mas muitas vezes é destacado para elaborar ilustrações para livros, principalmente infantis. Mas o forte são as suas produções autorais, é o que chama muito atenção nas publicações de Nunes. "A produção autoral é um projeto pessoal, mas serve também como um cartão de visita para trabalhar na área de designer", explica o artista.
O desafio de uma HQ independente está na distribuição para chegar ao leitor. A produção, a técnica e o roteiro, os autores dominam bem. Eles têm um talento nato para desenho, mesmo influenciados por grandes produções estrangeiras. "Tem que ter uma demanda muito grande para entregar exemplares em todas as livrarias, por isso a distribuição é a maior dificuldade", cita.
Nunes, por exemplo, desmitifica que HQ épico é uma produção criada por norte-americanos, hoje detentores das maiores editoras e de catálogos de super-heróis que rendem milhões de dólares. De acordo com ele, o cearense Gustavo Barroso foi o primeiro autor a criar uma história em 1907 na antiga revista Tico-Tico. A história é de um príncipe (Oscar) que tirava super poderes de um anel mágico. "Essa cultura de história de quadrinhos nasceu no Brasil. Os americanos começaram muito depois e calcado no que era produzido no Brasil", destaca o artista residente em Pederneiras.
A saga do cavaleiro sideral que estreou com o título "Teofania" retrata o aspecto espiritual da luta entre os representantes do bem e as forças malignas, em uma perspectiva bíblica. E porque a Bíblia? O autor explica: ele foi alfabetizado lendo quadrinhos o que levou a ler as sagras escrituras. A arte e a fé acabam caminhando juntas.
Nunes reclama, porém, que no Brasil não se prestigia o que é produzido de HQ pelos autores nacionais, muito diferente dos americanos. Lá nos EUA, explica, além de dar muito valor, os americanos sabem explorar melhor o marketing e tornar um grande negócio a produção e venda dos produtos. "Se o Mauricio de Souza começasse hoje jamais seria a potência que é. Quando ele começou, o quadrinho nacional era mais valorizado. Era um período fértil para a produção nacional, além de ser negócio de família que é mais fácil dar certo e se estendeu com proporções gigantescas. Mas o Mauricio de Souza jamais cita que a Monica é bauruense e jamais fará um personagem para citar Bauru. Para o mercado não interessa citar esse microcosmo", comenta.
O artista diz que tem que ser empreendedor para conseguir editar um produto de forma independente. No caso dele grande parte é bancada por ele próprio, mas o Supraion e Arcânia foi cedida para uma editora de Niterói (RJ), desenvolver a criação. "A HQ é uma arte muito abrangente que exige um conhecimento muito apurado de ilustração e design", explica o ilustrador.
Outro detalhe que ele destaca que no país falta editor especializado para apostar em determinados personagens para fazer virar bons produtos. "Editoras para publicação tem demais, mas falta alguém que conhece e trabalhe e convença as editoras para publicação das HQs", declarou.
DOS CARTUNS AOS QUADRINHOS
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Jessé Ribeiro, de Ourinhos, é um cartunista e designer gráfico com currículo imenso na área. Já teve trabalhos seus premiados em salões de exposição na Sérvia, Irã e Síria e participações em eventos na França, Portugal, Egito e Romênia. Ninguém melhor para explicar que um quadrinista pode produzir boas caricaturas e cartuns.
O artista acaba transitando em vários setores das chamadas artes gráficas para sobreviver. De acordo com Jessé, é um trabalho divertido e estressante ao mesmo tempo. "A gente nunca sabe no que vai dar, às vezes parece perda de tempo e ficamos em crise existencial, mas somos teimosos e estamos sempre produzindo alguma coisa e enchendo o estúdio de rabiscos, estudos, trabalhos prontos, outros inacabados e assim vai", filosofa. A seguir leia os principais trechos da entrevista:
JC - Há diferença significativa para quem faz histórias em quadrinhos, cartuns e charges?
Jessé Ribeiro - Os inquietos cartunistas se aventuram em caricaturas, charges, tiras, desenho animado e quadrinhos, o Angeli é um bom exemplo dessa versatilidade. Geralmente, quadrinistas fazem apenas quadrinhos, talvez pelo tempo que precisam, pois histórias em quadrinhos exigem muito trabalho contínuo abordando um mesmo tema, ou roteiro, no caso. Acredito que um bom quadrinista pode produzir boas caricaturas e cartuns também, afinal, somos todos desenhistas. Cartum e charge são dois irmãos, todo cartunista é acima de tudo um chargista e vice-versa, porém, a palavra cartunista é mais usada tanto para um como para outro. O cartum é uma piada ou qualquer tipo de expressividade em forma de desenho, não há necessidade alguma de representar a realidade, quanto mais surreal melhor. A charge é um cartum com viés político, com espaço para caricaturas, um único desenho representa, de forma direta ou sutil, uma situação real polêmica envolvendo governantes, costumes sociais, preconceitos, etc. Cartunistas costumam desenhar tiras também, que são mini HQs produzidas com média de três quadrinhos por tira, que podem ser compiladas em páginas.
JC- O que é mais difícil o traço dos personagens ou o roteiro da história?
Jessé Ribeiro – No meu caso é o roteiro. Quando resolvo um desenho altero pouca coisa durante o processo, com o roteiro é uma metamorfose quase interminável, acrescento, excluo, modifico o texto e sequências quase toda manhã.
JC - Além de cartuns e charges, já produziu história em quadrinhos? Como foi essa experiência?
Jessé Ribeiro – Sim, já fui classificado diversas vezes com quadrinhos e tiras em salões de humor e até ganhei Menção Honrosa, em 2003, no 12º Salão de Humor e Quadrinhos de Ribeirão preto. Também uso a técnica dos quadrinhos para o trabalho comercial, sempre fiz manuais de segurança e coisas desse tipo, as empresas perceberam que as pessoas tem mais facilidade para entender as instruções com histórias em quadrinhos, quase ninguém lê direito um manual carregado de texto de página a página.
JC - Como são desenvolvidos os personagens para quadrinhos? Como se chega ao desenho final?
Jessé Ribeiro – Pode parecer óbvio, mas é rabiscando muito que se chega a um resultado satisfatório. O personagem precisa ser reconhecido em várias poses e situações: pela silhueta ou sombra, de costas, de perfil, bravo, alegre, desconfiado, etc. A gente começa meio aleatoriamente com um olhinho aqui, talvez um cabelo mais para o lado, carequinha, gordinho ou magro, etc., outras vezes o personagem parece estar pronto na cabeça, de qualquer forma, só rascunhando bastante para ele criar vida e personalidade.
JC - No Brasil, esse traço tem mais influência de americanos, europeus e japoneses?
Jessé – O momento parece ser dos japoneses. Em minhas oficinas de quadrinhos e cartuns a maior parte dos alunos é fascinada pelos mangás e similares, o que me dá a entender que os japoneses conquistaram os adolescentes brasileiros, tanto que o Maurício de Souza não perdeu tempo e lançou sua “Turma da Mônica Jovem”, versão da Mônica, Cebolinha e amigos voltada para esse público. Quando se fala em americanos eu lembro imediatamente da Marvel e DC Comics com seus super-heróis anabolizados, mas os americanos são bem ecléticos com autores de diversos estilos: Crumb (quadrinhos underground), Schulz (Snoopy), Will Eisner (Spirit), Marjorie Henderson Buell (Luluzinha), por exemplo. Todos deixaram suas marcas em terras tupiniquins. Porém, temos uma dupla de premiadíssimos quadrinistas, entre muitos outros, com um traço que lembra os desenhistas belgas, são o Fábio Moon e o Gabriel Bá.
JC - O desenhista brasileiro tem um estilo próprio?
Jessé – Hoje em dia, tá tudo globalizado, por exemplo, tem uns caras brasileiros que desenham Homem-Aranha e outros heróis pros gringos, no mesmíssimo estilo dos americanos. Mangá também acho tudo meio igual. Mas, para citar um brasileiro com estilo bem próprio, temos os desenhos do Flavio Colin que são inconfundíveis.










