Em 25 anos de docência na Universidade Federal de São Carlos - UFSCar tive a felicidade de conhecer pessoas interessantes, inteligentes, brilhantes, seja no âmbito acadêmico, seja nas esferas público-administrativas e políticas. Dentre essas pessoas, uma ficou marcada de maneira indelével: o professor Nélson Prudêncio.
Nélson nasceu na vizinha Lins, em 4/4/44, como gostava de dizer. Com Adhemar Ferreira da Silva e João do Pulo, Prudêncio foi um dos maiores desportistas brasileiros.
Nos Jogos Pan-Americanos, em 1967, em Winnipeg, Canadá, Prudêncio conquistou o primeiro resultado internacional expressivo em sua carreira, com o salto triplo. Em 1968, nos Jogos Olímpicos no México, sonhava quebrar o recorde sul-americano, que pertencia a Adhemar Ferreira. Conquistou medalha de prata, inclusive quebrando o recorde mundial.
Foi convidado a estudar nos Estados Unidos e acabou deixando muitas competições em segundo plano. Ainda assim, em 1971, conquistou medalha de prata no Pan-Americano da Colômbia. Foi convocado para a Olimpíada de 1972, em Munique, muito mais pelo seu desempenho em 1968. Prudêncio novamente causou belíssima surpresa ao conquistar o bronze. Ainda participou dos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976.
Ainda no auge da carreira, Prudêncio resolveu se dedicar com mais afinco à docência no curso de Educação Física da UFSCar. Concluiu o mestrado na USP, em 1983, e o doutorado na UNICAMP, em 2006. Foi educador físico na Academia da Força Aérea, em Pirassununga, sendo, em 2009, condecorado com a Medalha do Mérito Desportivo Militar.
Na UFSCar, estive com Prudêncio em várias ocasiões. Em 1996, presidi uma Comissão de Sindicância da qual Prudêncio também era membro. Pudemos trabalhar intensamente por vários dias realizando investigações, sessões oitivas, redação do relatório e veredito.
Eu o conhecia bem como atleta, pois, desde a tenra idade acompanho o esporte e sabia muito bem de suas valorosas conquistas. Trabalhar ao seu lado fora motivo de muito orgulho para mim. Ele era meu ídolo.
Durante os trabalhos da Comissão, Prudêncio se apresentava como aquele que servia. Com uma humildade franciscana, procurava ajudar, colaborando para a unidade da equipe, sempre apresentando as suas ideias. Mesmo sendo quem era, sabia com especial fineza abrir mão de suas convicções para construir o resultado coletivo. Enfim, ele era o grande que se fazia pequeno, que ocupava os "últimos lugares". Sempre com uma sorriso.
Prudêncio morreu devido a um câncer, em 2012, deixando um legado extraordinário como docente, pesquisador e atleta. Foi um vencedor, amalgamado em sua capacidade de superação e de vencer barreiras, em um país que não tem tradição de reconhecer e valorizar tanto professores quanto atletas que não sejam os do futebol. O país não pode se esquecer dos seus filhos mais ilustres e Prudêncio foi um deles. Ele se tornou um exemplo para este Brasil, no qual a competência, a ética e a probidade passaram a ter importância subjacente.