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É proibido proibir

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Coisa boa disse o Caetano! Bem melhor do que proibir é discutir. Censurar, nem pensar. A boca existe pra falar, jamais pra calar. Abaixo os escuros calabouços onde vicejam todos os cala-bocas. Palavras e ideias precisam nascer para que ouvidas possam ser. Até mesmo a "boca suja" do funk - concordemos ou dela discordemos - tem o legítimo direito de se expressar.

Então, que fale livremente o funkeiro Mc Diguinho, autor desta obra prima intitulada "Só Surubinha de Leve". Sem pôr nem tirar, vamos literalmente à poesia: "Brota e convoca as tchucas/ Mais tarde tem fervo, hoje vai rolar suruba / Só surubinha de leve com essas minas malucas/ Taca a bebida, depois taca a pica e abandona na rua".

Assim como a dengue, a chikungunya, a zika e a febre amarela, a "Surubinha" viralizou. Mais de 14 milhões de visualizações no You Tube e o topo da parada do Spotify. Tanto sucesso assim não deixa dúvida: não faltam entre nós homens que se deliciam com essa ideia de consumir mulher em suruba para, depois, jogá-la nas ruas, lixo em descarte.

Não faltaram, felizmente, os que se indignaram com tamanha baixaria. "Fazer apologia de estupro isso é crime!", disseram muitos. Entre as vozes indignadas, destacou-se a da estudante paraibana Yasmin Formiga. Inconformada com o teor machista e violento dessa suruba, a menina publicou, no Facebook , uma foto sua, com maquiagem simulando ferimentos no rosto. Segurando um cartaz, ela acusa tal letra de incentivar a cultura do estupro, de aumentar a misoginia e o feminicídio, além de machucar seres humanos. Depois, conclui: "Sua música é baixa ao ponto de me tornar um objeto despejado na rua". A postagem também viralizou, compartilhada que foi por mais de 120 mil seguidores.

A pressão foi tanta que a "Surubinha" foi pro espaço. Retirada do You Tube e das paradas do Spotify, Diguinho, irritado, culpou a mídia manipuladora. Nunca foi contra mulheres, tem mãe e irmãs, sim senhor. Grande novidade, os estupradores também têm.

Voltemos ao Caetano. Discutir sim, proibir não. Quem fala o que quer, deve ouvir o que não quer. Preocupante, contudo, é o crescente patrulhamento moralista dos que exigem a censura como forma de higienizar o ambiente social. Esse ímpeto censório tem se voltado raivosamente até mesmo contra teatro, exposições artísticas e museus.

Ainda que não concordemos, ainda que nos cause coceiras, ainda que cheguemos ao limite do vômito, a palavra do outro tem o direito de ser dita. Só assim poderemos, na boa luta, combatê-la e, até mesmo, responsabilizá-la penal e civilmente se necessário for. Especialista em funk, o musicólogo Carlos Pombini, professor da UFMG, também se manifesta a favor do necessário debate: "Não seria melhor que esse imaginário encontrasse expressão artística e pudesse assim nesse plano ser debatido?" A happer Tamara Franklin vem se destacando com letras que valorizam a mulher, sobretudo a negra. Para ela, versos como os de Mc Diguinho refletem uma determinada estrutura social. "Não adianta tirar a música do ar se a gente não se dispõe a tirar do nosso cotidiano essa realidade. O que vale é a discussão". Bem dito, Tamara, melhor do que calar bocas é combater cabeças.

Ingênua essa forma de ver o ser humano como alguém "limpinho" até mesmo em pensamentos. Não se lhe dá sequer o direito de fantasias que afrontem o moralismo social. É como se o "bom cidadão" não devesse pensar ou imaginar cenas já proibidas pelas regras sociais. Melhor seria entendermos que não há crescimento humano sem que tenhamos a coragem de entrar em contato com o nosso lado sombrio. Para que o homem veja o homem, a palavra tem que ser livre. Para que o homem entenda o homem, as manifestações artísticas (independente de qualquer juízo de qualidade) não podem ser censuradas. É necessário o cara a cara.

Esta é talvez a mais importante função da arte (do funk também): mexer no fundo do poço para que aflorem as pulsões instintivas que dentro de nós latejam. Fechando os olhos, interditando o pensamento, silenciando a boca, jamais nos conheceremos. E sem nos conhecermos, não faremos o homem melhor. Deixemos, pois, a boca falar para que possamos travar a necessária discussão humanizadora. Bem a propósito, vale ouvir o escritor francês André Gide: "É com os bons sentimentos que fazemos a má literatura".

O autor é Professor de redação e membro da Acade mia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br

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