Bairros

Religiosos dão nomes a ruas, bairros e praças em Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 11 min

Aceituno Jr.
Rua irmã Arminda, no Jardim Brasil, eterniza nome de religiosa precursora de universidade em Bauru 

A última semana foi marcada pelo anúncio da beatificação de madre Clélia Merloni, fundadora do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ), mantenedor da Universidade do Sagrado Coração (USC). Esta edição do JC Bairros traz nomes de outros religiosos importantes e que ficaram eternizados em nomes de ruas, avenidas, praças e bairros de Bauru.

Ligada à missão proposta por madre Clélia, a irmã Arminda Sbríssia, que teve papel fundamental na implantação da antiga Fafil (Faculdade de Filosofia Ciência e Letras), atual USC, por exemplo, dá nome para a rua que abriga a universidade no Jardim Brasil (leia mais abaixo).

Outros religiosos com trajetória de relevância para a comunidade também são lembrados cotidianamente em vários endereços.

359 BAIRROS

O município possui, atualmente, 359 bairros,segundo a prefeitura municipal. Entre eles, vários possuem nomes de santos como, por exemplo, a Vila Santa Luzia, Parque Santa Terezinha, Parque São Geraldo, Vila São Manuel, Vila Santa Clara, Parque Santa Cândida, Santa Fé, Parque Santa Edwirges (apesar de o nome da santa não ter "r" em sua grafia), entre outros.

Em praças, o papa João Paulo 2.º, padre Adriano, São Francisco de Assis e o espírita Allan Kardec são lembrados.

Já nas avenidas e ruas nomes como o de Nossa Senhora de Fátima, Padre Francisco Van Der Maas, Padre João, Padre Nóbrega, Padre Giuseppe Vilardi, Padre Plínio, Santa Paula, Santo Antônio, Monsenhor Claro, Santa Adelina, São Ivo, Santa Matilde, além de alguns pastores e nomes do espiritismo estão entre os eternizados. Sendo que, curiosamente, o Jardim Redentor, nas imediações do cemitério municipal, é o perímetro com maior número de ruas com nomes de santos em toda a cidade.

Historiadora e autora de livros como "Viagem através das ruas de Bauru" e "Santos Populares", Marcia Regina Nava Sobreira traça um paralelo sobre o assunto trazendo algumas histórias e explicações a respeito de algumas nomeações (leia mais nas próximas páginas).

COINCIDÊNCIA! 

Mas será que os moradores desses locais conhecem a história por trás dos nomes dos religiosos?

Carla Grimaldi Franco, de 50 anos, mora há 11 anos no mesmo endereço, da rua Irmã Arminda. Católica e, coincidentemente professora de uma escola que integra a rede do Sagrado Coração de Jesus, na cidade, ela conhece a história da irmã que deu nome à rua em que mora. "A irmã Arminda foi muito importante para Bauru, ela trouxe a universidade para cá. Estou sempre em contato com a história da madre Clélia, que foi a precursora de tudo. Morar aqui tem um sentido especial", pontua Carla, que mantém em casa um pequeno altar com a imagem de santos e com a presença da cruz e da Bíblia.

Quem foi a irmã Arminda Sbríssia?

USC/Divulgação
Irma Arminda Sbríssia

A última semana foi marcada pelo anúncio da beatificação de madre Clélia Merloni, fundadora do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ), mantenedor da Universidade do Sagrado Coração (USC). Esta edição do JC Bairros traz nomes de outros religiosos importantes e que ficaram eternizados em nomes de ruas, avenidas, praças e bairros de Bauru.

Ligada à missão proposta por madre Clélia, a irmã Arminda Sbríssia, que teve papel fundamental na implantação da antiga Faculdade de Filosofia Ciência e Letras (Fafil), atual USC, por exemplo, dá nome para a rua que abriga a universidade no Jardim Brasil (leia mais abaixo).

Outros religiosos com trajetória de relevância para a comunidade também são lembrados cotidianamente em vários endereços.

359 BAIRROS

O município possui, atualmente, 359 bairros,segundo a prefeitura municipal. Entre eles, vários possuem nomes de santos como, por exemplo, a Vila Santa Luzia, Parque Santa Terezinha, Parque São Geraldo, Vila São Manuel, Vila Santa Clara, Parque Santa Cândida, Santa Fé, Parque Santa Edwirges (apesar de o nome da santa não ter "r" em sua grafia), entre outros.

Em praças, o papa João Paulo II, padre Adriano, São Francisco de Assis e o espírita Allan Kardec são lembrados.

Já nas avenidas e ruas nomes como o de Nossa Senhora de Fátima, Padre Francisco Van Der Maas, Padre João, Padre Nóbrega, Padre Giuseppe Vilardi, Padre Plínio, Santa Paula, Santo Antônio, Monsenhor Claro, Santa Adelina, São Ivo, Santa Matilde, além de alguns pastores e nomes do espiritismo estão entre os eternizados. Sendo que, curiosamente, o Jardim Redentor, nas imediações do cemitério municipal, é o perímetro com maior número de ruas com nomes de santos em toda a cidade.

Historiadora e autora de livros como "Viagem através das ruas de Bauru" e "Santos Populares", Marcia Regina Nava Sobreira traça um paralelo sobre o assunto trazendo algumas histórias e explicações a respeito de algumas nomeações (leia mais nas próximas páginas).

Jardim Redentor é reduto das 'ruas santas'

DESCONHECIMENTO

Mas o fato de o local ser um reduto de nomes religiosos, não quer dizer que os moradores, nem mesmo os católicos, conheçam as histórias dos personagens eternizados ali.

Na quadra 4 da rua Santa Paula, por exemplo, há uma residência de irmãos marianistas. Domingos Salgado, de 61 anos, é um deles. Há quase dez anos ele mora no local, mas, assim como outros moradores, não conhece a santa. "A Paróquia Maria Mãe do Redentor fez justamente um levantamento sobre a histórias de alguns desses santos e apresentou na igreja para a comunidade há alguns meses, mas eu não me recordo. Atuo em outro projeto, no Ferradura Mirim", diz o marianista, mostrando, contudo, sua adoração pela imagem de Maria, também santa da Igreja Católica.

Na mesma rua mora Maria Dulce Tonello, que é bispa em uma igreja evangélica ao lado de sua casa. "Aqui é tudo rua com nome de santo. Não faço ideia de quem foram e o que fizeram, porque não acredito, mas respeito", afirma a moradora, que costuma passar horas e horas sentada em uma cadeira na calçada de sua casa contemplando a via.

Na Vila Santa Luzia, há quem conheça a padroeira...

PADROEIRA

Santa Lúcia de Siracusa, mais conhecida como Santa Luzia (Santa de luz), segundo a Igreja Católica, foi uma jovem siciliana, nascida em uma família rica de Siracusa, venerada como virgem e mártir cristã. Ela teria morrido em 304, perseguida pelo imperador Diocleciano.

É considerada a padroeira dos oftalmologistas e daqueles que têm problemas de visão.

Era uma das jovens mais belas da cidade. Sua história se esbarra na figura de Santa Águeda, santa a qual ela pedia a cura de sua mãe, que sofria de hemorragias.

Em uma aparição, a santa teria lhe dito que ela mesma poderia curá-la. E foi o que aconteceu. Além da cura, ela revelou à mãe que havia feito um voto de castidade a Jesus, e que iria distribuir todos os seus bens aos pobres.

Foi quando um jovem pagão e politeísta, apaixonado por Luzia, tentou se aproximar, mas sem sucesso, a denunciou como cristã ao governo romano, que decidiu pelo seu martírio ao não convencê-la ao paganismo. Tentaram mandá-la para uma casa de prostituição, tentaram queimá-la viva e tentaram arrancar-lhe os olhos, mas outros nasceram. Ela só morreu após ter a cabeça decepada. Foi sepultada nas catacumbas de Roma, mas sua história se espalhou pelo mundo.

Praça João Paulo II

DESCONHECIMENTO

Mas o fato de o local ser um reduto de nomes religiosos, não quer dizer que os moradores, nem mesmo os católicos, conheçam as histórias dos personagens eternizados ali.

Na quadra 4 da rua Santa Paula, por exemplo, há uma residência de irmãos marianistas. Domingos Salgado, de 61 anos, é um deles. Há quase dez anos ele mora no local, mas, assim como outros moradores, não conhece a santa. "A Paróquia Maria Mãe do Redentor fez justamente um levantamento sobre a histórias de alguns desses santos e apresentou na igreja para a comunidade há alguns meses, mas eu não me recordo. Atuo em outro projeto, no Ferradura Mirim", diz o marianista, mostrando, contudo, sua adoração pela imagem de Maria, também santa da Igreja Católica.

Na mesma rua mora Maria Dulce Tonello, que é bispa em uma igreja evangélica ao lado de sua casa. "Aqui é tudo rua com nome de santo. Não faço ideia de quem foram e o que fizeram, porque não acredito, mas respeito", afirma a moradora, que costuma passar horas e horas sentada em uma cadeira na calçada de sua casa contemplando a via.

Jardim Contorno guarda nome de padre pioneiro

Padre Francisco Van Der Maas. Muita gente já ouviu falar no nome desta rua, que fica na Vila Auri Verde, região do Jardim Contorno, mas poucos são os que sabem do legado deste padre e qual sua importância para Bauru.

Historiadora e autora de livros como "Viagem através das ruas de Bauru" e "Santos Populares", Marcia Regina Nava Sobreira conta que, para entender porque há tantos nomes de religiosos local e nacional nos endereços da cidade, como o de Van Der Maas, é preciso um estudo sobre a influência da colonização portuguesa no Brasil e consequentemente da religião Católica.

VAN DER MAAS

Nascido em 1887, Van Der Maas foi um dos holandeses missionários ligados à congregação Sagrado Coração de Jesus, na qual Madre Clélia está inserida, enviado para Bauru, e ficou por aqui até 1925. Desde 1910, o clero desejava fundar uma escola católica romanizada (com centralismo em Roma) em Bauru, que se encontrava em fase de ocupação.

"Em 1921, com o apoio de mulheres ligadas à igreja, ele colocou a ideia em prática. A escola denominada externato São José começou a funcionar em 1922. Em 1927, as irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, a Liga do Menino Jesus e a Associação dos Santos Anjos vieram para Bauru e o padre Francisco liderava o movimento. Assim, quando a Câmara Municipal ia indicar um nome de rua ou praças, os padres e santos eram automaticamente preferidos", comenta Marcia Nava.

Depois, o missionário acabou transferido para Lençóis Paulista e, posteriormente, para Bernardino de Campos, onde faleceu em 1964 e foi sepultado na capela lateral da Igreja Matriz da cidade.

PADRE JOÃO

Entre as décadas de 30 e 40, mais padres se despontavam. Entre eles, o Padre João, que também virou nome de rua em Bauru. Pároco da antiga Matriz do Divino Espírito Santo (hoje Catedral), João participou ativamente da construção da igreja Santa Teresinha. "Ele era uma autoridade na cidade e, naquela época, o catolicismo predominava. Posteriormente, nos anos 50, o monsenhor Ramires também teve grande influência por aqui", acrescenta Luciano Dias Pires, jornalista e memorialista.

Lideranças do espiritismo e pastores também foram perpetuados

A partir do final da década de 80, após o período chamado de "democratização religiosa", houve o fortalecimento e divulgação de outras denominações religiosas.

O que fez com que a indicação de nomes de lideranças como pastores e pessoas ligadas ao espiritismo passassem a ser mais usual.

"Antigamente, os loteadores dos núcleos habitacionais é quem escolhiam os tipos de nomes que aquela região teria, por isso alguns bairros têm mais nomes de santos, outros de flores ou de países. Hoje, a preferência dos vereadores é dada para os nomes de pessoas que, de alguma forma, contribuíram com a cidade no passado", explica Nava.

Entre as ruas com nomes de evangélicos estão pastor Zebedeu H. de Andrade, pastor Tertulino Alves de Souza e pastor Eduardo Alves Leite.

Figuras ligadas ao espiritismo também foram perpetuadas em endereços, como a Praça Allan Kardec, na Vila Perroca. "Homero Escobar foi presidente do CEAC por 40 anos e também virou nome de rua. Adolfo Bezerra de Menezes, Hernani Guimarães, Silvio de Melo, Caetano Aiello e Francisco, João, Afonso, Leônidas Simonetti são outros nomes", aponta Richard Simonetti, sumidade do espiritismo na cidade.

Levantamento online

Um levantamento recente do bauruense e memorialista Irineu Azevedo Bastos, com mais de duas mil ruas cadastradas da cidade, conta a história de alguns nomes que fizeram história por Bauru. O estudo foi divulgado no site do DAE (www.daebauru.com.br), nas abas "Localização de Ruas", "História dos Nomes". A página, porém, encontra-se "fora do ar", há algumas semanas, em decorrência de atualizações.

'Não sei quem foi'

Padre Francisco Van Der Maas. Muita gente já ouviu falar no nome desta rua, que fica na Vila Auri Verde, região do Jardim Contorno, mas poucos são os que sabem do legado deste padre e qual sua importância para Bauru.

Historiadora e autora de livros como "Viagem através das ruas de Bauru" e "Santos Populares", Marcia Regina Nava Sobreira conta que, para entender porque há tantos nomes de religiosos local e nacional nos endereços da cidade, como o de Van Der Maas, é preciso um estudo sobre a influência da colonização portuguesa no Brasil e consequentemente da religião Católica.

VAN DER MAAS

Nascido em 1887, Van Der Maas foi um dos holandeses missionários ligados à congregação Sagrado Coração de Jesus, na qual Madre Clélia está inserida, enviado para Bauru, e ficou por aqui até 1925. Desde 1910, o clero desejava fundar uma escola católica romanizada (com centralismo em Roma) em Bauru, que se encontrava em fase de ocupação.

"Em 1921, com o apoio de mulheres ligadas à igreja, ele colocou a ideia em prática. A escola denominada externato São José começou a funcionar em 1922. Em 1927, as irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, a Liga do Menino Jesus e a Associação dos Santos Anjos vieram para Bauru e o padre Francisco liderava o movimento. Assim, quando a Câmara Municipal ia indicar um nome de rua ou praças, os padres e santos eram automaticamente preferidos", comenta Marcia Nava.

Depois, o missionário acabou transferido para Lençóis Paulista e, posteriormente, para Bernardino de Campos, onde faleceu em 1964 e foi sepultado na capela lateral da Igreja Matriz da cidade.

PADRE JOÃO

Entre as décadas de 1930 e 1940, mais padres se despontavam. Entre eles, o padre João, que também virou nome de rua em Bauru. Pároco da antiga Matriz do Divino Espírito Santo (hoje Catedral), João participou ativamente da construção da igreja Santa Teresinha. "Ele era uma autoridade na cidade e, naquela época, o catolicismo predominava. Posteriormente, nos anos 1950, o monsenhor Ramires também teve grande influência por aqui", acrescenta Luciano Dias Pires, jornalista e memorialista.

 

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