Beijava a vizinha religiosamente. Um terço das vontades ficava para as noites, quando ela - creio em Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo nosso Senhor - despedia-se das aulas de teologia. Proprietária de sorriso fácil de dentes brancos, afivelava nos lábios animada conversação. Seu olhar, comportado como folhas de outono que, violentadas pela força dos ventos, obedecem à inevitável convocatória do chão. Usava bem as mãos. Com ela, a gozação era sagrada.
A professora de matemática dava conta. Três, quatro... cinco vezes por semana. Cabelos de intensa negrura, presos num elástico ordinário, de caixinha de mercadão da vila, molduravam sua face, que, ruborizada, recepcionava meus progressivos beijos. Seu olhar era a química perfeita para que os nosso corpos fizessem atividade física exata. Hospitaleira, ela sentia o calor das minhas mãos penetrá-la, tomar posse dela. Do perímetro de sua geometria. Meus dedos, assim, encontravam feliz repouso dentro de suas saias. Fiéis às leis da Física, éramos dois corpos em invasiva ocupação no afundado e emudecido banco do Fiesta.
Uma perfeita desconhecida? A menos que a desconhecida fosse perfeita como a secretária da academia. Após as aulas de aeróbica, de tardes quentes, praticávamos conversas de tirar o fôlego. Também, dona de formas apolíneas, impossível ignorar o que a imaginação suada sentia. Malhava comigo por justificáveis motivos. Sendo o corpo uma casa, vez ou outra, recebia minha pontual visita.
O que na infância, recebíamos de graça, na juventude, a convicção do desejo, fazia-nos roubar, para na vida adulta, comprar. Suportar. O beijo. Para alguns, irmão mais velho do interesse. Para outros, forma de dialogar, de aproximar falantes, quando a conversação desnecessária se torna. Segundo historiadores, o surgimento do primeiro beijo da humanidade data por volta de 2.500 a.C., nas paredes dos templos de Khajuraho, na Índia. Os persas, na Antiguidade, trocavam beijos na boca, entretanto a permissão dada era para pessoas do mesmo nível social. Na Renascença, o beijo formalizou saudação. Em tribos africanas, beijava-se, como reverência, o chão onde o chefe pisava.
Assim, os lábios, numa nervosa coreografia, recepcionam a língua, que serpenteia o corpo. Boca, língua, corpo, língua, boca, corpo, corpobocalíngua. Dessa forma, seria o beijo um atestado exclusivista de quem crê em amar, tal qual o poeta, convicto de que o amor, constituindo-se uma estrofe, busca bocas que se rimam? Se o é, o beijo-amor. Beijamor.
Ao amor edificante, beijar sem exigir certidões de reconhecimento. Beijar sem cobrar juros de juramento. Beijar sem requerer tarifas de apego. Beijar sem arrecadar faturas de superioridade. Beijar sem granjear ônus de chantagem.
E da boca desavergonhada que fora, do rito prostibular o qual lhe permitia, em vida, beijar mamas e acariciar membros, das salivas serpenteadas sessenta e nove vezes em corpos, cuja virgindade era um altar, um espaço indevassável, nada, nessa vida, se comparava ao beijo sincero e trêmulo que sua mãe lhe deu na verticalidade da testa e das mãos, agora, esbranquiçadas, em abençoada despedida, antes de fechar o caixão.