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| Cena do filme “The Post” em que editores, redatores e repórteres discutem sobre publicar ou não notícias escondidas pelo governo |
Não tinha dinheiro para comprar jornal, a luta era pela sobrevivência. Todos os dias, pai e mãe concatenados, faziam a lavagem cerebral em quatro crianças: sem estudar, não tem como sair da pobreza! A frase era repetida quase à exaustão. Ainda bem que acreditamos e deu certo!
Na quitanda, mercearia e mercadinho se embrulhava frutas e verduras em folhas de jornais. Quem assinava jornal, acumulava-o em pilhas que depois seriam repassados a meninos e adultos carentes, pois assim ganhavam algum trocado dos comerciantes.
Na frente das bancas de jornais os olhos fixavam-se nas revistas, jornais, gibis e rapidamente passavam pelas capas de revistas adultas, disfarçando o interesse.
As principais revistas tinham cheiro inconfundível como a Manchete, Realidade, Visão e outras. Havia muitos jornais como Última Hora, Notícias Populares, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde e Gazeta Esportiva.
A banca de jornais não era loja de conveniência, livraria vendia livros, farmácia oferecia medicamentos, mercearias e supermercados produtos de alimentação e limpeza. Agora todo mundo vende tudo, refletindo o mundo dos poetas populares: ninguém é de ninguém e todo mundo é de todo mundo!
Quando comprava verduras e legumes na quitanda a mando da mãe, o ainda menino voltava rapidamente para casa, pois tinha loucura de ler as notícias naqueles pedaços de jornais. Me encantava a descrição e conectava os dados da professora de História e Geografia. Era demais e nem passava pela minha cabeça que aquilo não era verdade!
Nos jornais, os repórteres e escritores nas redações fazem reuniões com editores, decidem o que foi checado, se as fontes das notícias são confiáveis ou não! Fofoca não pode ir para as páginas, assim como notícias falsas ou "fake news". No jornalismo sério não se planta notícias com objetivos que não sejam a verdade!
Jornalismo é muito parecido em sua essência com a ciência: busca-se a verdade com confirmação dos dados e fontes, com checagem repetida e conferida, pois o compromisso é errar o menos possível! Na sua origem e essência nasceram assim, por isto que desfruta de quase indestrutível reputação e credibilidade.
ORKUT DE AMANHÃ?
As últimas notícias revelam que o Facebook está em uma decadência de lucros, acessos e credibilidade, com grandes jornais deixando de postar seu conteúdo. Os acessos destes jornais passam a ser diretos, sem que se passe pelo Facebook que optou por ser uma rede social, apenas isto, como foi um dia o Orkut. No entanto, isto promove a criação de noticias falsas e reduz ainda mais a sua credibilidade e reputação.
O que se faz nas redes sociais não se deve chamar de jornalismo, sem os filtros e as checagens de fontes, pode se inventar notícias, destruir e construir reputações, enfim tudo pode e se faz o que quer de forma quase que inimputável! Talvez isto explique a queda de acesso, lucros e criatividade. A publicidade tende a cair muito, pois vincular sua imagem empresarial com este tipo de conteúdo pega mal!
O "The New York Times" acaba de virar o jogo: mais da metade de sua rentabilidade (60%) vem de assinaturas virtuais e impressas, ficando cada vez menos dependente da publicidade que só quer clique e assistência, sem preocupação com a qualidade do conteúdo. Os jornais parecem reencontrar o seu Norte.
Como a ciência, o jornalismo verdadeiro busca a verdade e o leitor que quer este compromisso, começa a perceber que tem que pagar por isto! A obtenção da verdade requer gastos e tem preço! Se o leitor não pagar, as empresas e os governos é que irão financiar jornais e revistas! Aí caro leitor, não terás os seus interesses focados enquanto cidadãos. Jornalismo têm que ser livre de empresas e governos, tem que representar o quarto poder da república: fiscalizando e denunciando os desmandos!
No filme "The Post" duas frases são marcantes: 1) a imprensa tem que ser feita para governados e não para governantes, como foi dito pela Suprema Corte e 2) Jornalismo ao relatar e denunciar no calor da realidade é o rascunho, a primeira redação da história!
Parece que o mundo está acordando e vendo que as redes sociais não são fontes confiáveis de notícias e conteúdo. Ufa!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru.
