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Carnaval passou, chegou a hora de ?a onça beber água?

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 4 min

Para muitos, o ano começa somente depois do Carnaval; para outros, a roda está girando há muito tempo. Independente da percepção de cada um, a questão é que chegou "a hora de a onça beber água" (expressão popular indicando situação difícil, tensa, que precisa de solução imediata).

Do ponto de vista macroeconômico, podemos apontar o controle inflacionário como a questão equacionada. Nada há nada no horizonte que indique pressão sobre os preços. Também está em curso a recuperação da economia. Indicadores após indicadores comprovam que a recessão ficou para trás. O que está em jogo neste particular é em qual velocidade a recuperação se dará e quais setores da economia sentirão mais rápido ou lentamente esta recuperação. Com a recuperação da economia, é possível apontar ali na frente a melhora, mesmo que tímida, do nível de emprego.

Apesar destes bons indicadores, os desafios não são poucos. Quem analisa em detalhes o comportamento das contas públicas, ou seja, a condução do orçamento da União e a necessidade de sustentar o crescimento da economia, conclui que o ajuste fiscal está incompleto. Sem aumento expressivo na arrecadação, é imperativo o corte nos gastos. O grande problema é que não é uma questão de fácil solução. Na prática, não depende somente da vontade do Executivo federal, passa necessariamente pelo crivo do Legislativo. O caso da reforma na Previdência é emblemático. Sem adesão dos congressistas, sua análise ficará para o ano que vem e o rombo existente fica sem solução, gerando todo tipo de especulação e desconfiança. Isso sem falar nas demais reformas, entre elas a tributária. Seria um ano perdido.

E aqui de novo evocamos a frase "chegou a hora de a onça beber água", em outras palavras: a sociedade, os agentes econômicos, enfim, todos que operam no mercado, tanto do lado monetário, como do lado real da economia, querem uma resposta o mais rapidamente possível, isto é, querem saber se efetivamente o País enfrentará em todas as suas dimensões o déficit fiscal ou ficará na intenção.

Sabe aquela coisa que o pior dos mundos é não decidir nada? Vivenciamos este momento em nossa economia. O que deve ser feito todos sabem, o grande problema é que a classe política, por interesses dos mais variados, não quer enfrentar o que deve ser enfrentado. Vive o momento do "salve-se quem puder" e ainda o "é preciso sair bem na foto". Uma demonstração clara que o interesse pessoal está muito, mas muito mesmo, acima do interesse coletivo.

Não é capricho de economistas, tampouco defender interesses da elite, como alguns preconizam. Reformar o Estado e buscar o equilíbrio fiscal é questão de sobrevivência futura. A relação dívida comparada com o Produto Interno Bruto poderá ser explosiva ao longo dos próximos anos caso a geração que agora está no poder não enfrente isso em toda sua dimensão.

Voltando à questão sobre as decisões que podem evitar que o endividamento público cresça sem controle: cenário um, governo federal consegue aprovar a reforma da Previdência como concebida pelo governo federal - página virada e vamos enfrentar outras reformas, incluindo a tributária, administrativa, entre outras. Cenário dois: via negociação, o governo federal consegue aprovar a reforma previdenciária parcialmente - alívio de curto prazo, foco nas propostas futuras dos candidatos a presidência da república. Cenário três: reforma adiada. Incertezas internas e externas. Neste cenário, o olhar sobre a sucessão presidencial será clínico, buscando em cada proposta dos candidatos o que será do futuro do País no tocante à política econômica a ser introduzida nos próximos anos. O cenário um está totalmente descartado no momento. Restam os outros dois cenários.

Observaram que por pior que seja a decisão é preciso resolver o mais rapidamente possível? Todos nós precisamos entender até onde teremos maiores ou menores tensões daqui para frente. Até o Carnaval, o cenário econômico se valeu muito mais do próprio ambiente econômico, tanto interno como externo, para seu desempenho. E agora, pós-Carnaval, o cenário econômico dependerá em muito do comportamento político. Se em um mês e meio as coisas já tomaram o vulto atual, imaginem daqui para frente. Como colocado, o pior dos mundos é não enfrentar os problemas. Que o espírito coletivo prevaleça e que o interesse do cidadão brasileiro esteja acima dos interesses pessoais e corporativos.

Se o Carnaval era a desculpa para adiar as decisões importantes para o Brasil, agora não tem mais desculpa alguma.

O autor é economista, articulista do JC. Está no Youtube com o canal Planeta Economia.

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