Tribuna do Leitor

Black Face no Carnaval de Bauru e a luta antirracista

Roque Ferreira
| Tempo de leitura: 3 min

Em Bauru temos uma polêmica envolvendo o Bloco carnavalesco "Farofeiros", onde a maioria da direção é negra. Um personagem saiu em uma alegoria caracterizado de "nega maluca". Isso ganhou repercussão nas redes sociais e vários responsáveis do bloco se manifestaram dizendo que não houve prática racista.

O termo 'farofeiros' tem uma conotação pejorativa. Foi um estereótipo negativo atribuído à população trabalhadora que realizava excursões, por exemplo, para o Guarujá quando muitas praias eram fechadas para "uso" das classes privilegiadas. Os membros do Bloco todos os anos realizam viagens para o litoral, se assumindo como "Farofeiros", ressignificando o atributo, e dele tiraram o tema do Bloco.

Sobre o que significa o black face não pode haver nenhuma dúvida e tão pouco quanto à sua utilização. Ana Ligia, em artigo publicado no site Estudo Pratica, escreveu: "Nenhuma forma de preconceito ou de dor deve servir de motivo de piada. Muito menos ser usada como uma forma de arte. O teatro e as demais artes devem ser usadas como plataforma para se combater e debater problemas que a sociedade ainda vive e, jamais, alimentá-los. Algo que serviu durante séculos para ridicularizar o negro não deve ser aplaudido em pleno 2016. O black face é uma ferramenta de opressão, não de folia ou graça".

No Rio, vemos a mesma polêmica.

Assisti ao desfile do Salgueiro e venho refletindo sobre o assunto. Como tratar ambas as situações? De uma Escola como a Salgueiro, que tem uma longa tradição no trato com as temáticas da negritude, e um pequeno bloco onde a maioria de sua direção é negra? Ao fim do desfile, o UOL questionou o mestre de bateria Marcão sobre o black face, mas ele negou qualquer conotação negativa, lembrando que a maior parte dos ritmistas são negros. "São negros que se pintaram de negros. É nossa raça"...

No caso específico de Bauru, acredito que se abre uma grande possibilidade de dialogo com a população negra e não negra que está presente nas agremiações carnavalescas, sejam blocos ou escolas para que possamos nestes espaços participando ou não das direções conscientizar sobre o que é o racismo e como ele se expressa, principalmente através de estereótipos muito comuns na cultura popular.

São espaços onde devemos travar a luta antirracista com o objetivo de puxar cada vez mais um número maior de negros e não negros para este combate, que não pode ser "fulanizado, tratado de forma pontual, mas compreendido e tratado de forma estrutural".

O racismo integra é um dos pilares centrais de sustentação do capitalismo, um regime de desigualdades sócias, de exploração que tem base material, o que ficou muito bem claro no desfile da Escola de Samba Paraiso da Tuiuti, cuja narrativa do enredo parte do questionamento de que houve uma abolição formal, porém que não se materializou na pratica social. Em forma e conteúdo a Tuiuti deixou claro que por dentro do sistema e da ordem não há saída.

A luta contra o racismo e todas suas implicações de natureza material, cultural, simbólica e das violências principalmente contra a juventude negra, passam e devem ser desenvolvidas com as lutas mais gerais da classe trabalhadora contra este sistema que pariu todas as formas de opressão enquanto estratégia de dominação.

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