Tribuna do Leitor

Ao prefeito

Amanda Yasmini Braga da Silva, funcionária temporária na Mondelez
| Tempo de leitura: 3 min

Era um dia ensolarado, daqueles bem quentes, típicos de Bauru. Um dia antes, foram avisados que teria a reunião. Foram para casa, aquele misto de ansiedade e agitação. Eles não sabiam, havia só especulação. Acabou o turno, o ar morno tocava o rosto cansado, as costas doíam, mais um dia de labuta. Acordar, comer, trabalhar para comer e acordar para trabalhar. Assim são os ciclos deles. E naquela manhã quente a ansiedade se instaurou. A maioria não conseguiu dormir. As contas do mês estão à porta para serem pagas, realidade de todos eles, não tem como descansar.

O dia raiou, uma nova aurora surgiu, aquele misto de agonia e ansiedade se instalou em todos eles, levantaram sabendo que não era mais um dia normal. As costas ainda doíam, o cansaço era existente e as mãos ainda sentiam o dia anterior. O sol brilhava naquela estrada, e eles estavam lá. O anúncio estava feito: Mondelez irá embora de Bauru.

Foi palpável a tristeza no ar, tinha cor, peso, idade e alma, era pessoal. Por um momento o ar ficou rarefeito, não houve respirações, apenas o suspiro de angústia e preocupação. Eu sou um deles. E eles que eu falo são pessoas trabalhadoras, que movimentam o capital, representam famílias. E, agora, essas famílias encontram-se sem perspectiva.

A dita empresa garantiu-nos respaldo. Por que, afinal de contas, ela é uma das melhores empresa da cidade, e é por isso que a tristeza que isso traz desestabiliza as emoções. E por que escrevo tudo isso? Porque embora eu seja apenas uma voz, gostaria de transmitir o sentimento de centenas de funcionários, que tiram de lá seu sustento. Eu não entendo de negócios, economia ou política, mas espero que alguém que entenda possa nos dar uma voz, ou talvez uma mão.

E é por isso que dirijo-me ao senhor prefeito, para que ele entenda que esse sentimento é de centenas de famílias, que pagam impostos, compram do trabalhador autônomo, de microempresários, utilizam de diversos serviços da cidade e faz com que esses trabalhadores continuem com seu sustento. Ou seja, é uma engrenagem, em que agora faltarão centenas de peças. E a questão é: será que terá como realocar todos? O que a cidade tem feito para gerar novos empregos?

É necessário mesmo ver mais uma empresa ir embora? Senhor prefeito, caso você leia o jornal da sua cidade, não há nada que Bauru possa fazer? Será que teremos que sentir mais o peso da tristeza de saber que o sustento dos nossos lares está com dias contados? São tantos questionamentos para que algo possa ser feito, para que pelo menos alguém saiba como todas essas centenas de famílias que trabalham lá estão se sentindo nesse momento. Quantas empresas a mais terão de ir embora para que os olhos dos nossos governantes se atentem a todas essas famílias?

Pode ser que não façam diferença nenhuma essas palavras, mas espero que você, leitor, entenda nosso sentimento, e que alguém pelo menos tente fazer dessa cidade o melhor possível. E, assim, encerro mais um dia de trabalho, por enquanto.

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