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O fim do mundo e os cristãos

Bruno E. Sanches
| Tempo de leitura: 3 min

Dias atrás, um numerólogo russo previu o fim do mundo para 16 de fevereiro do corrente ano. Mais uma daquelas previsões que não se concretizaram, afinal. Fato é que os Ocidentais (não falo pelos Orientais, pois não os conheço assim tão bem) adoram flertar com o fim do mundo. Sempre há previsões, presságios, vaticínios. Numerólogos, astrólogos, videntes, ufólogos, sensitivos, filósofos e charlatões de toda marca não nos deixam mentir.

Em 1999, quando iríamos "virar" para os anos 2000, as previsões sobre o fim do mundo aumentaram num grau considerável. Na História, temos que experimentamos o mesmo fenômeno na virada dos 999 para 1000. O Cristianismo, a maior religião do mundo Ocidental, tem sua grande parcela de responsabilidade nessas previsões.

Qualquer fator de desestabilização (destruição, Guerras, epidemias, anomalias) são sinais de que o Apocalipse está próximo.

Fato é que, estranhamente, há um prazer mórbido no Ocidente pelo fim do mundo. Os Ocidentais preferem a escatologia, a sujeira e a loucura. Talvez queiram apressar o lugar ao céu, a vida eterna?

Vai saber... mas boa parte dos atos, escolhas e pensamentos estão próximos à destruição (que seria o Apocalipse) do que da criação ou renovação (que seria a Gênese). Tomemos dois exemplos: primeiro, o do Brasil. Mais precisamente, o problema da violência no Rio de Janeiro. Ainda que se saiba da precariedade da segurança pública do Rio e dos grandes centros urbanos, está na cara qual é a fórmula para se combater o problema, não é? "Sim, vamos botar o exército nas ruas, ocupar as favelas, acabar com tudo!". Resposta errada.

Dessa forma estaremos resolvendo o problema com o apocalipse, a destruição, quando na verdade não estará sendo combatida a gênese do problema, que é a necessidade de se investir em educação, em moradia, em cultura, em infra-estrutura. "Dá mais trabalho, melhor cortar o mal pela raiz". É o que dizem. O segundo exemplo está nos Estados Unidos. O presidente daquele país sugere que os professores sejam treinados para pegar em armas, pois a "escola sem armas é um ímã para más pessoas". Mais uma vez o pensamento simplista predomina, quando o show está acima de qualquer entendimento. Logo, mais fácil combater a destruição com a destruição (dar armas para professores, que apocalipse!) do que tentar compreender o que leva tantos jovens a cometerem genocídios, sobretudo em escolas em que eles próprios estudaram.

Este flerte com o fim do mundo, com o terrificante e com a destruição, explica muita coisa. Explica, por exemplo, que a maioria dos Cristãos seja a favor da pena de morte; que seja a favor da violência para resolver a violência (olho por olho, dente por dente). Esperam, com ansiedade, para que o fim do mundo se aproxime, e que o joio seja separado do trigo. E claro, todos têm toda a certeza que são o trigo.

No outro ponto da corda, está o ensinamento Cristão do "amai-vos uns aos outros". Esta ponta da corda fica solta, em algum canto do Universo. Amar é entender, ir até a Gênese das coisas para compreendê-las. Compreender as causas, compreender as pessoas, compreender até os porquês. Ainda que o entendimento sobre as coisas seja muito difícil ou inatingível, ainda sim é algum tipo de entendimento.

No fim das contas, o numerólogo russo acertou. Todos eles, na realidade. O fim do mundo é um processo. O Ocidente experimenta o sabor do Apocalipse boa parte do tempo, e será assim pela vida eterna, caso não se compreenda as causas, e continue combatendo (com direito a todo o tipo de pirotecnia) as consequências.

O fim do mundo é um estado de permanente combustão, e nós somos o produto da queima.

O autor é colaborador de Opinião.

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