Mais que um carro, um atestado de poder. Uma máquina para sua vaidosa vitrine, tamanha devoção à beleza e à esportividade reunidas. De zero a cem em quatro segundos, até o dia que a parte elétrica manifestou-lhe pane. Acionou o seguro, intencionando rápida resolução.
Desgovernado emocionalmente pelo frustrador fato, o de ficar sem sua máquina importada, indispôs-se com o funcionário da oficina, exigindo-lhe imediato reparo, afinal era proprietário de notável sobrenome. A família influente e conhecida era pelo pedigree ostentador. Dominado pela ira, aconselhado foi a aguardar procedimental contato. Ao sair do local, ganhou a atenção da praça, pela acolhedora sombra das árvores.
Assim é o homem. Semeia em solos agrestes, no aguardo de colher prosperidade. Habituado ao protocolar capítulo da vida social, dispõe de verbo fácil, de elaborada conversação, entretanto, disputa campeonatos de irritação no perímetro do lar. Abraça, mas desunido é. Vê sem enxergar. Ostenta moderna tecnologia, contudo incapaz é de estabelecer conexão presencial com seus familiares.
Por isso, reconheçamos a necessária reforma íntima. Tal qual um livro em nova edição, a vida convoca-nos ao constante refazimento. Ao oportuno melhoramento. Alberto Caeiro, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa, ensina-nos a desconstruir o que nos negativa para construir o que nos otimiza.
Por isso, raspar a tinta com que pintaram os nossos sentidos. Desencaixotar velhas emoções. Desembrulhar-se e ser verdadeiramente quem desejas. Igualmente a uma reforma residencial, pelas ações, retratados somos pelas tintas opinativas de cada um. Pelas reações, vistos somos em nossa estrutura autêntica.
Similar a um educandário, estagiamos em nossa convivência momentos de intensa oportunidade de aprendizado. Desperdiçamos oportunos momentos de conhecimento, ao negligenciar visitantes desafios. Aprendamos com as lições da natureza. Se a semente recusasse a solidão do recolhimento, inexistiriam flor e fruto.
Se a água desaceitasse a percorrer pelo lodo e sobejamente pelas pedras, no caminho, plantações e glebas estariam abreviadas a improdutivas. A lâmpada, lembremo-nos, já recolheu significativa carga para fazer luz onde havia escuridão. As nossas ingenuidades, as nossas frustrações manifestadas foram para ceder lugar ao amadurecimento.
Ainda na praça, vestida de verão sob um sol de Van Gogh, o homem sente um breve vento farfalhar gracioso jardim, onde as flores disputavam o beijo do entardecer. Em paz com seus atos, retorna à oficina. Ao reconhecer seu ordinário orgulho, sua opressora intolerância, busca se desculpar com o mecânico. O funcionário acolhe o gesto. Tudo resolvido.
A vida, tal qual uma vasta oficina, oportuniza inúmeros consertos. Ainda assim, necessário reconhecer que os primeiros reparos são intrínsecos a nós mesmos.
O autor é professor universitário de Língua Portuguesa e colaborador de Opinião; alexandrebenegas@gmail.com