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A obesidade pode ser viral! Por Alberto Consolaro


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Células adiposas guardam gordura até se entupirem por completo, quando proliferam para que novas células executem a mesma função: e tome peso!

Tal qual o poeta pediu perdão à mulher por ela ter lhe traído, me perdoem por induzir em alguns a indignação e o repúdio à ideia de que alguém possa ser obeso ou ter sobrepeso pelo contágio de um vírus. É preconceito a negação do novo, que assusta mesmo, mas sempre vem! Este assunto em conversas e discussões tem como primeira reação: - o que é isso, obesidade e sobrepeso é por excesso de comida, modos sedentários e outras coisas repetidas aos que querem reduzir o peso!

A obesidade pode ter várias causas ou apenas uma! Pesquisadores de Lousiana, EUA, a partir da observação inicial do médico indiano Nikhil Dhurandhar, revelaram que um vírus identificado como AD-36 ou Adenovírus 36 estava presente em 30% de 360 pessoas obesas e em apenas 11% de 142 não obesos. Nas pessoas infectadas que não ficarão obesas, há um ganho inicial de 10% em seu peso.

As pesquisas iniciais foram contaminando-se galinhas com o AD-36. Depois, fizeram com camundongos, macacos e marmotas. Os animais ficaram 60% mais pesados, consumiam a mesma quantidade de calorias e baixíssimas taxas de colesterol e triglicérides. Isto induziu a pensar que deveria ser mesmo em consequência do vírus.

O INÍCIO

O médico tinha uma clínica de obesidade na Índia, onde não se come carne bovina e compensa-se comendo carne de frango. Em 1988 houve uma doença que quase dizimou as galinhas no país. Um veterinário, amigo do médico, contou a ele que a causa da morte das galinhas era um vírus, o SMAM-1, que tinha um estranho efeito sobre os animais antes de morrer: elas engordavam muito!

O médico resolveu fazer um experimento com 20 galinhas, dando-lhes a mesma alimentação. Em 10 aves contaminou-as com o vírus e as observou por semanas. O peso das galinhas contaminadas triplicou. Intrigado, pesquisou 52 pacientes obesos de sua clínica e detectou que os mais pesados com 15 quilos a mais que a média, tinham anticorpos contra este vírus SMAM-1, que corresponde ao mesmo que nos EUA é denominado de AD-36.

Na Índia tinha dificuldades de publicar suas observações e mudou-se para os EUA, onde depois de muita luta, foi contratado pelo endocrinologista Richard Atkinson da Universidade de Wisconsin, que ficou entusiasmado com as observações e hoje pesquisa na Universidade de Virginia fornecendo testes para o AD-36.

ATUALMENTE

Se o corpo precisa de energia, o sistema digestivo produz o hormônio grelina que vai até o cérebro pelo sangue e informa que precisa ter a sensação de fome. Depois que ingeriu o suficiente, demora-se um pouco mais do que devia para a fome passar e come-se um pouco além do necessário. Este excesso vai ser guardado na forma de gordura em células chamadas adipócitos localizados no abdômen, culotes e outras.

Os adipócitos são células muito grandes, até 40 vezes o tamanho das fibras musculares. É muita gordura para guardar e quando lotados, novos adipócitos proliferam. O vírus AD-36 desregula a proliferação dos adipócitos e muito mais são formados e para guardar muito mais gordura, mesmo quando não precisaria! Qualquer coisa que se come, vira gordura!

Os mecanismos de ação do AD-36: 1º) induz células-tronco a se transformarem em adipócitos, aumentando a sua quantidade, 2º) induz liberação maior da enzima ácido graxo-sintase que transforma tudo que seja excedente, como a glicose, em gordura de forma muito mais rápida, mesmo antes virar energia, 3º) a transformação rápida da glicose em gordura, gera fome e se sente mais vontade de comer muito mais que o normal.

E AGORA?

As pesquisas produziram duas vacinas. Uma já foi patenteada e uma segunda, testada em animais. Na Itália, 40 a 65% dos obesos são infectados pelos AD-36. No México, 73% das crianças obesas carregam o vírus AD-36. Não se sabe como se transmite o vírus, se de pessoa para a pessoa, através de secreções ou ainda pelo ar.

Parece claro que o vírus AD-36 não deve ser a única causa da obesidade, mas negar sua importância, não investir em conhecimento novo e esclarecer de vez o seu papel pode ser a mesma coisa que fechar a porta para uma oportunidade impar de ajudar milhões de pessoas quanto ao tempo de viver e à qualidade de vida!

Se o novo é negado, atrasa-se a evolução! Acolhamos o novo e ouçamos o que tem a dizer, pode ser importante!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as terças-feiras no JC. 

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