Articulistas

Retrato em sépia

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 4 min

Não há nada mais melancólico do que um retrato em sépia. Sabe aquela cor cinzenta acastanhada caminhando para um marrom escuro pendendo para o olíveo? Com certeza você deve ter visto muitos retratos com essa cor, remetendo-nos sempre a um passado nostálgico, depressivo, apático. É o tipo de foto que não traz alegria, pelo contrário. Induz a um estado de desinteresse, quando não de certa insensibilidade ou inconformismo.

É assim que vejo o Brasil de nossos dias. Como um retrato em sépia, meio acinzentado, escurecido incapaz de despertar qualquer sentimento de euforia, por menor que seja. Essa traiçoeira rotina dos séculos começou com o descobrimento do ouro e prosseguiu com o café, o cacau, o açúcar, a banana... até chegar à gloriosa era do petróleo. Lembra-se de Getúlio lambuzando as mãos no "ouro negro" e, posteriormente, sendo imitado por Lula e Dilma, exageradamente alegres, paramentados de macacões amarelos e brincando, como se o mundo uma troça fosse? Com as mãos reluzentes e enegrecidas sorriram para o cenário internacional, profetizando aquela que seria a fase mais horripilante de seus mandatos obscuros. E quem esperava por esplendores e cardápios suculentos, conviveu com momentos fugazes e glórias efêmeras, ao som de trombetas que anunciavam a decadência, a vergonha, a corrupção.

O que nos legaram essas falsas promessas, essa dança de Shiva? Lula e Dilma, travestidos de dançarinos, de reis da dança, fizeram do cosmos o seu teatro, onde foram atores e público ao mesmo tempo. Não pararam aí. Souberam fazer dessa parafernália uma atração de vários outros deuses, para que viessem contemplá-los. E foram pródigos. Abriram as torneiras para vizinhos eletivos, preferenciais e distribuíram benesses, dádivas, ajudas, vantagens e até sinecuras. Já que Shiva é representado por quatro braços, cabe bem a comparação dele com Lula e Dilma. Inconscientemente, deixaram para nós um retrato a quatro mãos, onde cada um quer ser mais lembrado que o próprio Shiva. Essas mãos benfazejas que, como Shiva dão abrigo às almas sofridas e cansadas.

Em 'As veias abertas da América Latina', o autor pergunta: "O passado é mudo? Ou continuamos surdos?" Continuamos desprezando o passado revelador de nossas misérias e surdos a tudo que nos aconteceu e continua acontecendo. Não queremos pensar, não desejamos ouvir. Preferimos sair pulando nos blocos de Carnaval, cantando como se a vida (especialmente a do brasileiro) fosse uma festa, berrando letras imbecis até ficarmos exauridos. A realidade não interessa. Sairemos à rua para saçaricar, não para reagir contra o statu quo. Somos comodistas demais para lutar por nossos direitos. Esperamos sempre que outros façam isso por nós. Para hoje temos pão, não interessa o amanhã. Não raras vezes, o silêncio assemelha-se à estupidez.

Assim, de quadro em quadro, vejo o álbum de fotos de meu país, sempre em sépia, sempre meio enfumaçado, amarelecido, nostálgico. Criamos mitos que só abrem a boca para enganar, para engodar. Pessoas que sequer sabem pensar, porém não perdem o páreo quando se trata de invencionice. Se fôssemos elencar as mentiras que Lula e Dilma fizeram com a história e a geografia deste país e do mundo, um tomo de mil páginas seria pouco. Por isso continuaremos sempre esse subBrasil, um país de segunda classe, de nebulosa identidade, dirigido por incompetentes, mentirosos, aproveitadores. O que Eduardo Galeano disse a respeito da América Latina, permito-me adaptar à nossa terra: "Nossa derrota sempre esteve implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir prosperidade alheia."

Por favor, me ajude a mudar o retrato deste país. Não suporto mais a cor esmaecida deste Brasil.Vamos colorir nossos rios, nossas montanhas, nossos prados. Vamos pintar com cores vivas e alegres nossos lares, as ruas de nossa cidade, os jardins, os edifícios. Vamos dar vida a tudo que a natureza nos legou e fingimos não ver. Vamos tirar o Brasil das mãos de incompetentes, charlatões, mentirosos contumazes, megalomaníacos confessos. Onde está sua capacidade de indignação? Levantemos o punho, mas como um democrata autêntico, e brademos contra a injustiça, a impunidade, as fake news. Nunca o Brasil foi tão inundado por amazonas de mentiras, de oportunismo, de vileza, de velhacaria, de escrotidão.

[...] "moribundo desde que nasceu, o sistema tem pés de barro. Quer identificar-se como destino e confundir-se com a eternidade." Essa frase também é de Eduardo Galeano. Mas, serve como uma carapuça para nós, não serve?

A autora é pedagoga, jornalista, advogada e professora doutora aposentada da Unesp - mg-de-rosa@hotmail.com

Comentários

Comentários