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Guilherme Ventura: o balé e seu poder transformador 

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 6 min

Samantha Ciuffa
O bailarino teve contato com a dança aos 7 anos; hoje, ele está com 23

Simpático, comunicativo e apaixonado pela dança desde os 7 anos de idade, Guilherme Ventura, de 23, nasceu e foi criado em Bauru. O bailarino já se apresentou em diversas cidades do Estado de São Paulo, além de Brasília. Agora, ganhou uma bolsa para estudar em Vancouver, no Canadá.

De origem humilde, o bauruense acredita que o balé transformou a sua vida. "Hoje, eu ainda preservo os amigos da época da escola e uns estão no mundo do tráfico de drogas, outras se prostituem. Enfim, a dança transforma, sabe? Ela faz com que você ocupe um lugar na sociedade, não fique à margem dela", defende.

Embora afirme que a cultura da dança seja escassa em Bauru, Guilherme é enfático ao elogiar o leque de profissionais da área existente na cidade. "Falta estar na hora certa e no lugar certo", ratifica. Pelo visto, isso, de fato, aconteceu com ele.

Abaixo, o bauruense conta boa parte de sua história e da relação de amor que estabeleceu com o balé.

Jornal da Cidade - Você nasceu e foi criado em Bauru. Como foi a sua infância?

Guilherme Ventura - Eu sou bauruense, nasci na Maternidade Santa Isabel. Sou o irmão do meio, tenho uma de 25 e outra de 16 anos. Fomos criados no Parque Bauru, onde morei durante boa parte da minha infância. Embora eu tenha crescido sem a presença do meu pai, consegui aproveitar bastante esta fase da vida, porque a minha avó, cujo sobrenome eu adotei em meu nome artístico - Guilherme Cavenaghi Ventura -, tinha uma chácara. Lá, eu brincava nos pés de manga e de outras frutas. Era bem legal.

JC - E quando teve contato com a dança?

Leonardo Fanelli/Divulgação
Guilherme também se apresentou em Campinas, pelo Ballet Cristiana Packer

Guilherme - Aos 7 anos, quando comecei a frequentar a Igreja Quadrangular de Bauru. Lá, havia um grupo de dança, que se apresentava em ocasiões especiais, como Páscoa, Dia dos Pais, Dia das Mães, dentro da igreja mesmo. Desde então, de todas as igrejas que frequentei, sempre participei dos Ministérios de Dança. Era algo coreografado, mas que me ajudou a fortalecer a memória, característica essencial para um bailarino profissional.

JC - Mas, tão cedo, já pensava em se profissionalizar?

Guilherme - Não. Com 15 ou 16 anos, eu conheci uma bailarina profissional, a Denise Dezotti, que me chamou para fazer uma aula em sua escola, em Bauru mesmo. Por incrível que pareça, o estúdio ficava muito perto da minha casa e eu nem fazia ideia. Enfim, fiz uma aula com a Denise e, desde então, nunca mais parei de estudar. Eu, realmente, me apaixonei pela dança. Vi que era o que eu queria, mesmo se não fosse para seguir carreira. Aos 17, eu tive certeza que queria ser bailarino profissional, porque a dança passou a me completar. Hoje, eu ainda preservo os amigos da época da escola e uns estão no mundo do tráfico de drogas, outras se prostituem. Enfim, a dança transforma, sabe? Ela faz com que você ocupe um lugar na sociedade, não fique à margem dela.

JC - Então, você acredita que a dança tem o poder de transformar uma pessoa?

Guilherme - Acredito que a dança seja um meio de transformação de uma pessoa, tanto profissional, quanto pessoal. Quando percebi isso, tive certeza de que queria seguir carreira, mas não ficar em Bauru. O objetivo, até hoje, é conquistar o País e o mundo todo. Por conta disso, comecei a me dedicar mais à arte. Antes, eu ia à escola de dança duas vezes por semana. Depois, passei a frequentá-la seis vezes. Só não ia aos domingos, porque estava fechada. Nesse meio tempo, abriu a audição para a Cia Estável de Dança, dirigida pelo professor Sivaldo Camargo. Na época, minha mãe não permitiu que eu deixasse o emprego de auxiliar administrativo em um escritório de Engenharia Civil para me dedicar à dança, afinal, estávamos com problemas financeiros. Porém, no ano seguinte, a situação melhorou, fiz o teste - diagnosticado com dengue, não aguentava subir uma perna direito - e entrei para a companhia.

JC - Quanto tempo ficou na Cia Estável de Dança?

Guilherme - Dois anos. Lá, eu estudava de segunda-feira a sábado, das 14h às 18h. Foi o primeiro grande passo para a realização do sonho de ser bailarino profissional. O segundo se deu em 2016, quando tirei a DRT, a carteirinha profissional de bailarino, que me permite lecionar e, até mesmo, montar uma escola licenciada de dança. Desde então, eu tive mais sede de vencer e, no ano passado, participei do Curso de Férias da Cia Faces Ocultas, em Salto, e ganhei uma bolsa para o Seminário Internacional de Brasília. Nele, todos os professores eram estrangeiros e vêm ao Brasil para buscar bailarinos. Da primeira vez, eu fiquei em segundo lugar e não ganhei a bolsa para Barcelona, na Espanha. Porém, neste ano, fui contemplado com a bolsa para o Ballet Bloch, em Vancouver, no Canadá. Lá, continuarei estudando balé contemporâneo.

JC - Quando você viaja?

Guilherme - No próximo dia 30. O objetivo é ficar seis meses, mas esta é uma oportunidade ímpar e, talvez, eu seja contratado por alguma companhia. O meu sonho é trabalhar na Royal Opera House, em Londres, na Inglaterra, ou, pelo menos, chegar até a Europa, onde a cultura da dança é muito presente e, consequentemente, valorizada.

JC - Não está apreensivo em deixar a família e os amigos em Bauru?

Guilherme - Olha, não é a primeira vez que morarei longe de todo mundo e estou acostumado a lidar com a saudade. Já vivi em Ourinhos, enquanto trabalhava na Cia Jovem, e em Campinas, onde dancei pela Packer Cia de Dança. Voltei agora, no final de janeiro, para preparar toda a documentação do intercâmbio. 

JC - De quais festivais já participou no Brasil?

Guilherme - Já dancei no Festival de Inverno de Jaú; no Festival Valinhos em Dança - com a Cia Packer, conquistei o primeiro lugar em grupo e o terceiro individualmente -; na Mostra Paralela das Faces Ocultas, em Salto; no Festival Talentos, em Bauru; no Festival de Inverno de Ourinhos; e na Mostra Internacional de Brasília.

JC - Você é um homem no balé. Já enfrentou preconceito por isso?

Guilherme - Sim, mesmo que o balé tenha sido criado por homens. Na Europa, durante a monarquia, os bobos da corte dançavam para o rei, que não admitia que os bailarinos saíssem de costas ou de lado. Por isso, os passos do balé são abertos. Na época, havia preconceito em relação às mulheres dançarem. Hoje, temos uma inversão de papéis e, no mundo da dança, ainda há resistência envolvendo homens bailarinos. Exige-se mais de nós do que das mulheres.

JC - De que forma avalia a dança bauruense?

Guilherme - A cultura da dança ainda é escassa na cidade, mas nós temos um leque de artistas que, se estiver no lugar certo e na hora certa, tem condições de ganhar o mundo.

JC - Por fim, qual é a mensagem que você deixa para outros apaixonados pela dança?

Guilherme - Eles têm de ter a total convicção de que só não alcança o sucesso quem não quiser. Nós somos o nosso limite e nós determinamos até onde chegam os nossos sonhos.

Perfil

Nome: Guilherme Ventura, mas o meu nome artístico é Guilherme Cavenaghi Ventura

Idade: 23 anos

Pais: Silvana Aparecida Ventura e Nelson Correa de Campos Leite

Irmãos: Gabrielle Ventura de Souza, de 25 anos, e Grazielle Ventura Leite, de 16

Time: Corinthians

Filmes: Todos relacionados à dança

Livros: Não sou muito chegado à leitura, mas curto todos aqueles que falam sobre dança

Signo: Aquário

Contato: (14) 99750-2508 (WhatsApp), guilherme.caventura95@gmail.com (e-mail), Guilherme Cavenaghi Ventura (Facebook) e veenturagui_ (Instragram)

 

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