O corpo de Marielle Franco nem esfriou na sepultura e as lágrimas das pessoas que realmente a amavam nem secou, mas as hienas e os urubus já estão rondando à espera do banquete.
Os radicais da esquerda e direita estão fazendo desse fato lamentável um esquartejamento ideológico, onde cada um tenta abocanhar para si e para suas causas um pedaço de Marielle.
De um lado, as viúvas da ditadura, tentando desmerecer a morta, fazendo-a responsável pelo próprio assassinato - afinal, é proibido pensar, é proibido divergir... De outro lado, as viúvas de Stalin, tentando desmerecer a Polícia, fazendo-a responsável por qualquer morte no Rio... Dois extremos da mesma intolerância...
À esquerda, aqueles que tentam vender a ideia de que podem resolver o problema da violência com discursos, flores e utopias... À direita, o pessoal que acha que tudo pode ser resolvido na bala, sem uma reforma social profunda, combatendo as consequências, sem estancar as causas que a alimentam...
Como se vê, não aprendemos nada. Ninguém quer achar o equilíbrio. Ninguém quer raciocinar com bom senso. Hienas e urubus estão pensando exclusivamente nos dividendos eleitorais que essa morte pode render.
Portanto, a pergunta de Marielle Franco ecoa e ecoará por muito tempo: "Quantos ainda terão que morrer?"
E a resposta é simples: muitos, muitos, muitos... Porque as hienas e os urubus estão famintos e vivem da miséria humana, vivem do fracasso das instituições, vivem do sangue do povo - mazelas que alimentam o discurso fácil e hipócrita dos dois extremos, nesse jogo pelo poder.