Bairros

Desafios e melhorias na Bauru rural

Ana Beatriz Garcia
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Ana Beatriz Garcia
Paisagem campestre no bairro rural Barra Grande

Não é preciso ir muito longe do Centro da cidade para se deparar com uma realidade de campo, completamente distinta da loucura urbana. Em poucos minutos, chega-se a loteamentos onde, ao invés dos carros nas ruas asfaltadas, o cenário é de muito verde e uma diversidade de animais convivendo com as famílias que ali residem.

Em Bauru, 5.753 pessoas moram nas regiões rurais (veja mais na página 2), segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo com algumas adversidades e queixas em relação a esses áreas mais afastadas da cidade, os moradores destacam que apreciam a tranquilidade do lugar onde vivem.

Nesta edição, o JC nos Bairros visita três desses pontos e apresenta a realidade e os desafios de quem vive em uma Bauru rural. Vale ressaltar que bairro é uma unidade mínima utilizada em espaços urbanos, mas, por serem popularmente chamados assim, será utilizado o termo bairros rurais.

PLANTIO

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Sidnei Satori é feirante e produz folhagens em sua propriedade, na Barra Grande

De acordo com a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Sagra), o município de Bauru possui 80% de sua área na zona rural, onde se localiza grande número de micros, pequenas e médias propriedades rurais que trabalham em agricultura familiar. Este é o caso de Sidnei Sartori, 56 anos.

De uma família de nove irmãos feirantes, ele tem uma propriedade há 16 anos, no bairro rural Barra Grande. "Hoje em dia, moro em Tibiriçá com a minha esposa. Mas nasci e fui criado aqui, sempre trabalhei no plantio", comenta o feirante.

A rotina de Sidnei é ir três vezes por semana para as feiras de Bauru para vender as folhagens que planta. "Tem rúcula, salsinha, alface, brócolis, couve... Estamos vendendo bem na medida do possível. Esses três últimos anos de crise foi bem difícil para nós, mas, por ser um negócio em família, dá pra gente se manter", explica.

Um dos aspectos do lugar que o feirante destaca é o sossego. "Isso a gente não pode negar. Aqui é uma tranquilidade só. Você, os animais soltos por aí e a gente convivendo com a natureza".

De fato, no caminho da propriedade do Sidnei até a igreja de São Roque foi possível ver de perto, passando ao lado do carro da reportagem, cavalos e bois que pastavam tranquilos, galinhas d'angolas que corriam dos cachorros que, também soltos, anunciavam a nossa chegada.

SEGURANÇA

Ana Beatriz Garcia
Aparecida Gimenezz destaca que, em breve, reforçará a proteção dos portões de sua casa

No arredores da igreja, conhecida pela tradicional festa do padroeiro que recebe milhares de pessoas todos os anos em setembro, mora Aparecida Gimenezz, 65 anos. "Aqui é um sossego", foi sua primeira definição sobre o bairro. Mas, em seguida, Aparecida começou a contar episódios que marcaram os 50 anos em que vive na Barra Grande.

"Aqui já foi bem mais seguro. Antes, a gente não precisava nem se preocupar em fechar as portas de casa. Mas, no começo deste ano, passamos pelo segundo assalto aqui. O primeiro foi em uma outra casa, o mais recente eu estava sozinha. Os bandidos me amordaçaram e foram momentos muito tristes. Levaram tudo. Eletrodomésticos, algumas joias, uma pequena quantia em dinheiro", relembra a aposentada.

Segundo ela, o local conta com policiamento e rondas constantes, mesmo assim a insegurança ainda existe. "Eu amo morar aqui, é muito tranquilo. Mas isso é um problema. Nós ainda temos medo, eu fiquei bem traumatizada. O próximo passo agora é reforçar nossos portões. Pretendemos fechar tudo aqui", explica.

Para não arredar o pé

Malavolta Jr.
Tranquilidade em frente à casa de Dorival, no loteamento Sítios Reunidos de Santa Maria 

A área rural de Bauru é delimitada em oito regiões, segundo informações da assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal de Bauru. São eles o loteamento Sítios Reunidos de Santa Maria, o povoado do bairro Barra Grande, Chácaras Arco Íris, povoado do Bairro do Rio Verde, Chácaras Bauruenses, Água do Paiol, Campos Verdes e bairro do Campo Novo (veja localizações no infográfico).

O Distrito de Tibiriçá é urbano, mas está localizado na área rural de Bauru, assim como o Vale do Igapó, do Águas Virtuosas e do Recanto Aprazível, loteamentos urbanos inseridos na zona rural do município.

Com aproximadamente 201 lotes e 485 hectares de território, o loteamento Sítios Reunidos de Santa Maria é o maior dentre eles. Quem vive por lá, garante que não tem muitos problemas por estar fora da cidade e, ainda pelo contrário, nem pretende voltar.

"Se eu fui umas três vezes para Bauru foi muito. A família até vai às vezes, por que precisa, mas eu gosto mesmo é daqui. Casei, criei meus filhos nessa casa, mudei para Pirassununga um tempo, mas voltei", afirma Dorival Angelino da Silva, de 65 anos.

Mesmo com a paixão pelo lugar, Dorival ainda destaca alguns pontos que poderiam fazer o bairro ainda melhor. "Gosto muito do campo, da tranquilidade que é viver aqui. Acho que falta algum lazer, porque a gente vai do trabalho para casa. Às vezes, um churrasquinho a gente faz, mas seria bom se tivesse mais alguma forma de lazer", comenta.

Morando há 20 anos no Santa Maria, a dona de casa Francisca Paiva dos Santos (idade não informada) conta que já passou por muitas cidades, mas resolveu permanecer ali. Mãe de dez filhos, hoje, ela mora somente com o esposo. "Aqui a gente tem paz. Eu volto pouco para Bauru, meus filhos que vêm me visitar aos sábados. Ficamos nós dois aqui, com os cachorros, com a hortinha que a gente planta. Somos felizes", conta.

DESENVOLVIMENTO

Mesmo com a satisfação por parte de alguns moradores, ainda existem pontos a serem aprimorados para quem vive nas áreas rurais de toda a cidade. "Nós recebemos pedidos em relação às estradas e às pontes", afirma o secretário de Agricultura e Abastecimento, Francisco de Oliveira Maia, conhecido como Chico Maia.

Nesse sentido, o titular da pasta explica que, neste ano, já foram realizadas algumas intervenções para sanar a queixa. "Captamos recursos da Agência Nacional de Águas para a manutenção e adequações em estradas. Também conseguimos emendas parlamentares, do deputado Ricardo Izar de R$ 250 mil, no Ministério da Integração Nacional para estradas rurais e pleiteamos junto ao governo de São Paulo o Programa Melhor Caminho. São vários projetos", destaca.

Ele esteve, nesta semana, no Fórum Mundial das Águas, em Brasília, onde aproveitou para trabalhar a favor de outras propostas previstas para este ano. "Até 25 de março saberemos quais as emendas parlamentares que iremos receber. Recentemente, estive na Câmara para ver a possibilidade de obtenção de recursos da bancada do Estado de São Paulo para os projetos de Desenvolvimento Rural. Está em estudo e em breve teremos respostas", explica.

A secretaria está pleiteando recursos nos Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimentos; Secretaria Especial de Agricultura e Desenvolvimento Agrário (Sead); Ministério do Meio Ambiente (MMA); Agência Nacional de Águas (ANA) e Incra. "Os projetos são para as áreas de Assistência Técnica e Extensão Rural, Agroindustrialização, Recuperação de Bacias Hidrográficas e Estradas. Também trabalhei nesta agenda em Brasília", conclui.

Um pé lá e outro cá

Malavolta Jr.
Rua Oswaldo Torres de Vasconcellos é apontada como uma das de difícil passagem no bairro Águas Virtuosas

Do outro lado da cidade, na Rodovia Engenheiro João Batista Cabral Renno, sentido Bauru-Ipaussu, fica o bairro Águas Virtuosas. Os loteamentos são classificados pela prefeitura como área urbana, desde 1978, mas a realidade de quem vive por ali ainda se assemelha às das áreas rurais. Há sete anos morando no bairro, Fátima Aparecida Xavier Martins, 59 anos, conta que assim que o marido se aposentou, mudaram-se ligeiro para a propriedade da filha. "Meu esposo sempre gostou de campo. Adora ter as plantações, o cavalo e as galinhas. Durante o dia, cuido das criações, colho algumas frutas e faço os serviços de casa, é bem tranquilo", explica a dona de casa.

Mesmo com a venda localizada na região, Fátima ressalta que ainda precisa voltar bastante para a cidade. "Vou pelo menos umas três vezes por semana para Bauru para fazer compras, pagar contas e visitar minha filha. Mesmo com a vendinha que temos aqui, deixamos apenas para as emergências. Também temos o abacateiro, a bananeira, o pé de manga e os ovos das nossas galinhas, que usamos para consumo próprio", diz.

Paulo Roberto Mojoni, 60 anos, mora algumas ruas abaixo da casa de Fátima. Depois de se aposentar, foi para o Águas Virtuosas para descansar. "Mas a gente acaba não descansando muito", afirma. "Meus filhos e minha esposa ainda trabalham e tem suas atividades na cidade. Eu levo e trago todos eles para a cidade para cá, não gosto de deixar que andem sozinhos", contou o aposentado enquanto procurava por sua vaca, a Mel.

"Já tive 16 cabeças, mas sem um pedaço maior de terra fica complicado manter. Hoje, só fiquei com a Mel. A gente tira leite, mas não comercializa nada. Estava carpindo até agora pouco, no final da tarde já tenho que ir atrás dela para não atrasar para ir buscar minha esposa", declara, ainda sem ter avistado a vaca Mel.

PRECÁRIO

Tanto Fátima quanto Paulo apontam a mesma dificuldade em relação ao bairro onde moram. "As ruas aqui são péssimas. Quando chove, não tem como sair de casa", diz a dona de casa. Mesmo sendo área urbana, a realidade das ruas no bairro ainda apresentam muitas deficiências. "Faço tudo de moto. Já cai mais de uma vez em alguns pontos do bairro em que as ruas são difíceis de passar. Dias de chuva também dificultam bastante", aponta Paulo.

Segundo o secretário de Obras, Ricardo Olivatto, no momento não existe previsão de pavimentação na região do Águas Virtuosas. "Em relação às ruas de terra, a prefeitura conta com poucos equipamentos para manutenção e melhorias dessas ruas", ressalta.

"Lá, será necessário que se faça drenagem", afirma o secretário de Agricultura e Abastecimento, Chico Maia. "Apesar de ser área urbana, impacta no rural. Estamos negociando recursos em projetos da Sagra e para outras áreas da administração para fazer a drenagem", conclui.

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