Articulistas

Entrelinhas

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Bem chato quando perguntamos a uma pessoa como vai e ela não responde, mas explica. A gente esperava apenas um "Obrigado, tudo bem e você?". Ela devolve uma enxurrada de histórias entediantes, uma amarrada na outra e outras tantas completamente soltas. "Nada é mais torturante do que conversar com pessoas que não sabem fazer implícitos e dizem tudo nos mínimos detalhes", diz o prestigiado semioticista José Luiz Fiorin.

Saber implicitar é habilidade valiosa no processo comunicativo. É dizer apenas o necessário, deixando nas entrelinhas o que subentendido deve ficar. Não se deve falar tudo de uma vez. É desperdício de torneira jorrando. A expressividade nasce dos vazios intencionais. O que seria da melodia se não houvesse as pausas? Toda canção agradece a nota que soou, mas também a que no silêncio ficou. Sem sombra, o que seria da luz?

Conta-se que numa antiga campanha para eleger Adhemar de Barros, governador de São Paulo, em São Manuel, o palanque, não suportando tanta gente, foi ao chão. Oportunidade para que o orador Auro Soares de Moura Andrade fizesse memorável implícito: "Quando o palanque cai, é sinal que a democracia está em pé!" Que continuem caindo os palanques, dizemos nós.

Não apenas os palanques caem. Tudo que muito pesa em cima, faz o debaixo quebrar. Estou me lembrando de uma colega de classe do tempo de faculdade. Volumosa, a garota tanto se virava, tanto se mexia, que a cadeira arrebentou e no chão ela foi parar. Não sei se por vingança ou para não perder a oportunidade, o professor (identidade preservada) implicitou: "É a primeira vez que vejo um banco arrebentar por excesso de fundos." A classe gargalhando despencou. Foi bem fundo, no fundo da moça abundante esse meu professor.

"Escrever é cortar palavras" dizem bons escritores. Chove no molhado quem insiste em dizer o que leitor já está careca de saber. Criar vazios textuais é homenagear a inteligência do ouvinte ou do leitor, convidando-o a preenchê-los. É nas entrelinhas que a cumplicidade entre autor e leitor acontece. Fechados os vazios com palavras-tijolo, o texto vira parede. "Que não se esmaguem com palavras as entrelinhas", disse Clarice Lispector.

O "Conto em Letras Garrafais", de Marina Colassanti, é bom exemplo de criativa implicitação: "Todos os dias, ele esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem e a jogava ao mar. Nunca recebeu resposta. Mas tornou-se alcoólatra". O "continho" nada fala do naufrágio. Seria necessário? Também não fala da desgraça iminente: a bebida vai acabar...

O genial Luiz Fernando Veríssimo recontou a mesma história. Só que, na sua versão, a garrafa foi encontrada. Lamentavelmente por um professor de português. O insano mestre leu a mensagem pedindo socorro. Com a caneta vermelha, foi corrigindo tudo: crase, concordância, pontuação... Depois, devolveu a garrafa ao mar.

Em solidariedade aos meus colegas, professores de português, protesto contra essa imagem (implicitada) que nada nos honra. Protesto, mas aplaudo o Veríssimo. Nossa, implicitei...

Comentários

Comentários