Articulistas

Estilo de vida

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Se aquilo que fazemos hoje ao meio ambiente continuar, podemos esperar um futuro bem sombrio para a humanidade. Uma população humana em crescimento com um apetite cada vez mais voraz por alimentos, água e energia, produz um nível de consumo que não pode ser mantido. Nossa vida se torna cada vez mais complicada e atormentada. Nos países mais desenvolvidos cresce o fast food e nas nações em desenvolvimento cresce a fome. Se quisermos sobreviver, se quisermos dar um salto evolutivo, teremos que, necessariamente, realizar uma transição coletiva para um estilo de vida mais simples, sustentável e satisfatório.

Nossa mente está aprisionada, não por portões externos, mas pela ignorância. Ignoramos nosso ser verdadeiro e a verdadeira natureza deste mundo; apegamo-nos à noção do "eu" e do "meu". A assustadora propaganda de que a felicidade depende do que possuímos é perigosa. Ela está destruindo nosso planeta e impedindo que naveguemos no mar da espiritualidade. Jovens e crianças são as maiores vítimas dessa propaganda, querem tudo de roupas de grife a eletrônicos.

Li recentemente os resultados de uma pesquisa nos Estados Unidos, indicando que, quando a criança chega ao terceiro ano do ensino médio já viu uma média de trinta e dois mil assassinatos nos filmes e nos jogos. Aqui não deve ser muito diferente disso. Pegamos um caminho errado em algum lugar, estamos no sentido oposto ao de qualquer sabedoria espiritual.

Num mundo agitado como o nosso, precisamos da simplicidade, de um estilo de vida mais calmo, um modo de vida mais leve que se enquadra de forma elegante e sustentável na dura realidade do século XXI. Duane Elgin, escritor e palestrante norte-americano, diz que a simplicidade é uma maneira inteligente de viver que acentua nossa saúde e felicidade. A simplicidade intensifica a liberdade e nos conecta ao planeta. Com simplicidade se toca na terra com mais leveza e se reduz o impacto sobre a teia da vida. Viver com simplicidade é se reconciliar com as futuras gerações. É buscar um caminho de cooperação, justiça e espiritualidade que garanta um futuro de desenvolvimento garantido para todos.

A simplicidade nutre a alma e nos mantém atentos ao que mais importa na vida: nossas relações com a família, os amigos, a natureza. A simplicidade gera satisfações duradouras que compensam os efêmeros prazeres do consumismo. A simplicidade celebra a beleza, nos faz sentir a sabedoria do silêncio. A simplicidade remove a complexidade desnecessária e enaltece a alegria e a satisfação de viver. Na simplicidade, em vez de considerar os índices econômicos como única medida de progresso, os governos deveriam considerar, também, indicadores sociais, como a educação, os serviços de saúde, a segurança e as condições que geram o bem-estar da população.

A simplicidade não é sacrifício. Sacrifício é um estilo de vida consumista e cheio de estresse, ocupação e trabalho em excesso. Sacrifício é investir muitas horas em um trabalho que não lhe é significativo nem satisfatório. Sacrifício é estar longe da família para ganhar a vida; é o estresse de viajar longas distâncias para depois ficar preso no trânsito ou no elevador. É a perda da quietude e dos sons sutis da natureza.

Sacrifício é ver a natureza escondida atrás de centenas de anúncios em outdoors. É o cheiro da cidade mais forte e que prevalece sobre o cheiro da terra. É não ver mais as estrelas por causa da poluição luminosa. Sacrifício é carregar mais de duzentas substâncias tóxicas em nossos corpos, com consequências que se perpetuarão por gerações. É a perda de um clima relativamente calmo para um aumento extremo de secas, ondas de calor e frio e tempestades. Sacrifício é a ausência dos sentimentos de fraternidade. É a oportunidade perdida de se encontrar com os amigos e dividir com eles um café ou um cálice de vinho.

Mesmo se não houvesse o problema do aquecimento global, da escassez de recursos, da poluição e do desperdício, ainda assim, precisaríamos escolher um estilo de vida mais simples, que conduzisse à espiritualidade e fosse congruente com ela. Um estilo de vida assim, despojado do peso de posses desnecessárias, pode oferecer a oportunidade de explorarmos o universo da imaginação e de nele encontrarmos uma alegria sem limites.

O autor é professor titular aposentado do Depto. de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp.

Comentários

Comentários