Tribuna do Leitor

Uvas e vinhos

Cinthya Nunes - cinthyanvs@gmail.com
| Tempo de leitura: 4 min

Gosto muito de viajar e de conhecer lugares novos e suas incríveis histórias e estórias. Nem precisa ser para um lugar distante, até porque eu penso que há muitos locais inexplorados bem próximos de nós. Se eu pudesse, por certo viajaria mais. Contudo, mesmo dentro de certas limitações, procuro aproveitar as oportunidades que surjem. E foi assim que acabei indo conhecer a Rota da Uva em Jundiaí, cidade bem próxima de São Paulo, onde moro.

Com ingressos para o Trem Turístico que só podem ser comprados na bilheteria da Estação da Luz, partimos, com mais um casal de primos, para um passeio no último sábado do mês de março, eis que apenas nesse dia da semana ele acontece. Pela descrição do passeio disponível na internet, haveria a visitação a plantações de uva e adegas existentes na região.

A partida do trem, que sai da restaurada e nostálgica estação da Luz, na região central da cidade, estava marcada para as 8h30. Com medo de perdermos hora, lá estávamos bem antes disso. Examinando o entra e sai das pessoas, bem como a construção da estação, eu não pude evitar uma imaginária viagem no tempo, fantasiando sobre como deveria ter sido tudo aquilo nos seus tempos áureos.

Infelizmente, como tudo no Brasil que se refere à patrimônio publico e histórico, o trem, ainda que conservado, estava longe de ser glamouroso. Ao meu lado, pequenas baratinhas passaram faceiras, correndo pelas cortinas. Os vagões não estavam sujos ou malcheirosos, mas tinham aquela aparência meio encardida, quando se é apenas um vestígio, uma lembrança do que se foi.

Com uma velocidade reduzida, o percurso durou uma hora e meia. Confesso que não fui capaz de apreciar a paisagem. Para minha tristeza, o que mais vi foram morros e encostas ocupadas por favelas que, circundando pequenos rios, despejavam pilhas de lixo em seus leitos. Sem deixar de lado o aspecto do descaso com as vidas humanas que ali se empilhavam, eu me doí demais pela natureza que agoniza de maneira cruel. Da forma como vejo, a humanidade é uma triste praga do planeta, destruindo tudo que encontra pela frente.

Assim que chegamos até Jundiaí nos reunimos com um grupo que seguiu, de ônibus, para a Rota da Uva. Visitamos pequenas propriedades produtoras de uvas e aprendi que a uva Niágara rosada surgiu de uma mutação espontânea ocorrida muitas décadas atrás, originando todas as suas atuais descendentes. Até antes disso só havia a roxa e a verde. Desconfio que isso tenha sido fruto é de um amor proibido, rs.

Aprendi também que uma praga, décadas atrás, acabou com mais de 80% da produção de uva da região, o que fez com que os produtores diversificassem suas culturas, plantando outras frutas como o figo, que hoje também notabiliza a região de Jundiaí. Fiquei imaginando o desespero que tantas famílias de imigrantes italianos e portugueses devem ter sentido ao perderem as plantas que os sustentavam e as suas famílias.

Em meio às visitas íamos provando os vinhos artesanais, bem como sucos e outros produtos derivados da uva. Fraca para bebidas alcoólicas, logo depois de dois míseros cálices eu já estava flutuando, mas tudo era tão gostoso, tão rústico e ao mesmo tempo delicado, que eu tinha vontade de ter estômago para poder degustar um pouco de tudo, prestigiando os esforços das pessoas e das uvas.

Em uma das pequenas adegas que fomos foi possível aprender noções gerais sobre o plantio, poda e mesmo do controle de pragas. Descobri que sempre são plantadas roseiras próximas às videiras e o intuito disso não é o de conferir beleza e cor ao local, mas o de instalar uma espécie de alarme biológico para detecção de pragas, eis que essas primeiro atacam a roseira, permitindo que se tomem providências antes que seja tarde demais.

Quando a fome bateu fomos almoçar em um restaurante no meio do mato, em um lugar repleto de orquídeas e cercado por lagos cheios de peixes, os quais era possível alimentar com ração comprada no local, a mesma que servia para dar também aos patos, gansos e marrecos que andavam soltos e vinham comer na mão dos mais corajosos ou curiosos, como eu.

Pedimos duas meias porções e descobrimos que só meia seria capaz de alimentar quatro pessoas, já que tudo era exagerado, mas ao mesmo tempo barato. Depois de comermos, bebermos e andarmos muito, foi a hora de voltar. Entre o balanço do trem e a chuvinha fina que caia, nem me dei conta de que caí no sono, daqueles que misturam a realidade com a fantasia, quando dormimos daquele jeito que sequer sabemos onde estamos.

Foi um dia diferente, sem dúvidas. Aprendemos sobre uma história que não se transmite formalmente, bem como conhecemos pessoas e lugares especiais. Velejar é preciso, mas quem não tem navio se vira com trem. Recomendo a experiência. Pena sermos um país tão indiferente às pessoas que realmente produzem algo de bom.

 

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