Tribuna do Leitor

O milagre da lasanha

Gleisiane Menezes, universitária de Letras
| Tempo de leitura: 2 min

Naqueles tempos de infância lembrava-me da torturante entrada na escola. Para ser mais claro, a espera da entrada. Papai trabalhava duro. Livros calçados, uniformes, sempre bem cuidados, o seu lugar. Organização. Palavra primordial no vocabulário de papai. Disciplina. Essencial no meu dia. Do céu, mamãe a tudo assistia.

Sempre soube do pouco ganho. Via o grande esforço de papai. O material, o carinho lá sempre estava. Já o alimento... Muitas vezes fazia falta. Não me importei da falta, o carinho do meu velho me supria.

Acordo. Visto-me. De boca limpa, vazia sigo, para fora de casa. Pego o lixo, coloco-o pra fora. Espero pelo papai, carregamos as folhagens. Arrumo-as na banca. O olhar de satisfação brota dos olhos de papai. O único trocado, ele tira do bolso, dispõe na minha mão calejadinha. Olhei-o. Sorri. Sai. Corri atrás da satisfação matinal: o pão quentinho, macio, saboroso. Raramente o tinha. Quando podia obtê-lo, tinha apreciação dupla: de ter, de comer. Melhor ainda era dividir, este momento, com os olhos de mel, que eu amava. Fim da feira. Retornei à tenda do meu pai para ajudá-lo. Recarregamos a charrete. Partimos ao encontro do meu ofício diário: estudar. Era o primeiro a chegar. Subia as escadas e lá esperava. Era torturante. Não o fato de esperar, ao contrario: o que trazia. Da escada, entre as janelas, via a sala dos professores. Espiava. Era hora do almoço. Vários entravam e saiam da sala. Somente aquela professora ficava. Tinha olhos atentos, baixa estatura, cabelos escuros até os ombros.

Sofria. O sofrimento tinha início, quando abria a quentinha. Sofria saboreando os aromas dos temperos misturados. Continha massa, molho natural exalando manjericão. Devagar, na primeira garfada, relutante o queijo subia em direção à boca faminta. Sem duvida era o prato, envolvido ao presunto raladinho. Olhava. Suspirava. Saboreava os olhos, atracavam-se as lombrigas, aquela cena apetitosa. Lasanha. Essa fora a comida do domingo. Imagino o banquete, do domingo farto, a travessa cheia. Conhecia assim a professora: pelo seu alimento de aroma graciosamente bom e sofrível. Ela acaba. Bate o sino. A magia se esvai. Volto à realidade. É a hora de entrar.

Deste jeito, tocava a fome. Ganhava lanche no recreio. Fortalecia-me. Estudava. O dia acabava. Ao lar retornava. A semana se passava. Fim de semana chegara! Ansiava pelo almoço rico de amor, partilha, união. Seguramos as mãos. Oramos. Agradeci pela vida. Olhos fechados desejei ter um dia a travessa de cheiro sofrível bom de lasanha. Amém. Toca a campainha. Entreolhamo-nos. Papai pergunta: "Estás a esperar por alguém, filho?". Nego em silencio. Ele sai. Demora. Retorna sorridente, trazendo uma travessa, maravilhando meu olfato, atiçando as lombrigas famintas. Papai é questionado: "Pai, Deus também usa Sedex?!" Ele sorri, acaricia meus cabelos, agradece ao senhor baixinho, com o olhar marejado.

 

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