Na Grã-Bretanha, Oliver Cromwell (1599-1658) conseguiu acabar com a corrupção da classe dirigente e do episcopado anglicano. Aqueles que malversavam o dinheiro público eram enterrados na rua até a altura do peito. Os passantes tinham o direito de fazer xixi na cabeça do corrupto. Inclusive as mulheres. Naquele tempo não usavam roupa de baixo. Era só enquadrar a cabeça do corrupto sob a saia rodada e dar uma agachadinha. Imagine o trabalho de um Cromwell, redivivo, no Brasil. Teria que cavucar toda a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para dar conta da punição de tantos patrimonialistas - aqueles que se apropriam a coisa pública como patrimônio pessoal.
O filósofo e historiador de ideias Michel Foucault começa o seu bem conhecido livro "Vigiar e Punir", descrevendo o suplício de Damiens. Condenado em 1757, por ter matado o pai, foi "atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o parricídio, queimada com fogo e enxofre". Seu corpo, em seguida, seria "puxado e desmembrado por quatro cavalos". Problema é que os cavalos não estavam afeitos à tração e "foi preciso colocar seis". Como se não fosse o bastante, "desmembrou-se as suas coxas, cortou-lhe os nervos e retalhou-lhe as juntas". À faca. Enquanto o infeliz dizia só "Meu Deus, tende piedade de mim", ou "Jesus socorrei-me". Com o cura de Saint Paul, em êxtase, lhe prometendo o paraíso.
Ninguém quer que os condenados a corrupção cumpram tão exóticos e cruéis castigos. Mas, como dizia Foucault, é preciso vigiar, para evitar o mal maior, e punir na medida do necessário para servir de exemplo - "segundo os padrões atuais da civilização". Não é justo que ricos empresários e políticos poderosos sigam por aí, se beneficiando do que foi apropriado de todos nós. Democracia é isso. Até para mostrar para cidadãos indeterminados que o crime não compensa.
A tarefa de limpeza ética de um país não é nada fácil. Bem demonstram as dificuldades enfrentadas nas investigações de esquemas de corrupção, por meio da Lava-Jato e de outras operações. Os embates no Judiciário, para se fazer valer o veredicto de condenação de Lula, mostram como ainda é difícil cumprir a lei do colarinho branco de alta estirpe. Mesmo que tudo, é o caso de Lula, tramite no estrito cumprimento da lei, o mandado de prisão expedido por Sérgio Moro encontra imensa barreira para ser cumprido. No momento em que escrevo, Lula se refugia atrás de carnes e ossos, homiziado no Sindicato dos Metalúrgicos. Enquanto finge "resistência" heroica contra as forças da opressão, negocia com a Polícia Federal a sua capitulação, que inclui avião e helicóptero para a viagem à Curitiba. Lula usa a velha tática dos tempos do sindicalismo de resultados: fingir resistência a todo o custo para a militância, enquanto se negocia com os patrões uma saída honrosa. Ainda há presos comuns, e os especiais. Lembra o tempo das Ordenações, trazidas de Portugal, quando havia pena para pajens, uma para escudeiros e outra para fidalgos.
Lula teve oportunidades e méritos. De menino pobre, imigrante, transformou-se no líder metalúrgico em tempos de autoritarismo. Foi preso, na ditadura militar, em 1980, por 31 dias. Fortaleceu a imagem do sem medo, do lutador por melhores condições para o operariado. Fundou o Partido dos Trabalhadores. Elegeu-se duas vezes presidente da República. A economia se recuperou, devido à terapia neoliberal que aceitou aplicar. O Brasil decolou, Lula se reelegeu. Pela força da sua popularidade colocou no Planalto a desconhecida Dilma Rousseff. Lidera, com folga, as pesquisas de intenção de votos, para a eleição de outubro. O brasileiro é assim: odeia a corrupção, mas ama o corrupto. Pena que tudo termine de uma forma tão melancólica para o "candidato da esperança".
As pessoas se sentem meio atordoadas, como o escritor argentino Sábato Magaldi depois de assistir a uma aula sobre a solução encontrada pelos geômetras gregos à quadratura do círculo. Que a direita fosse corrupta, esperava-se. Mas da esquerda esperava-se o melhor. Do centro, nem fu nem fê. O que todos querem agora é que o Judiciário continue usando régua e compasso, como os gregos, para colocar o quadrado no círculo. Temer não está preso porque o Congresso é corrupto da primeira à última fileira. Essa imunidade haverá de acabar. Quem sabe com a prisão de Paulo Vieira de Souza, operador tucano das propinas do Rodoanel, ele exerça o papel de "homem bomba" que está faltando para que se reúnam provas contra outros poderosos, até agora impunes.
Quem tiver culpa, que pague. Longe de envergonhar o país, como acha o ministro Gilmar Mendes, do STF, a condenação de um ex-presidente demonstra, isto sim, a força das instituições democráticas.