Tribuna do Leitor

História ou história? Só a História dirá!

Maria Raquel Carneiro
| Tempo de leitura: 3 min

Quando lemos um livro de história (ainda que didático) nossas impressões são filtradas pelo distanciamento temporal dos fatos (às vezes geográfico também).

Também existe o filtro das lentes do autor do livro e das fontes pesquisadas por ele para escrever sobre determinado assunto. No decorrer da história da humanidade, a forma de estudar e escrever a História foram se modificando e tomando formas de acordo com as influências das épocas que se sucederam. Por mais que o estudioso/cientista se debruce sobre seu objeto de estudo, sua conclusão final será apenas a sua impressão/interpretação.

Hoje historiadores defendem que a História não é escrita só por grandes personagens (reis, generais, papas) ou acontecimentos icônicos (guerras, revoluções). Mas também é feita pelos acontecimentos da vida cotidiana de pessoas comuns.

Pois bem, nos últimos dias tenho sentido uma estranheza ao tentar interpretar os noticiários. Nunca pensei que veria a história caminhar dessa forma. Ações, comportamentos, acontecimentos que me pareciam exclusivos das páginas de livros (distantes em tempo e espaço) estão acontecendo em tempo real. E o mais emocionante é que cada indivíduo pode ter a sua interpretação.

Estamos vivenciando cada passo, cada fala, cada notícia, imagens em transmissão online. Mas a síntese, resultados e consequências ainda estão distantes, estão no futuro. E quando o futuro se tornar presente só nos restará festejar ou lamentar as consequências, alterar algum fato será impossível.

A História é feita por pessoas. Cada pessoa possui a sua individualidade, a sua história de vida, suas experiências. Mas também vivemos em comunidade, as experiências coletivas também são responsáveis pela formação do indivíduo. Tomamos conclusões com base nas experiências individuais e coletivas.

Não é possível que tiremos conclusões iguais de um mesmo fato, pois somos seres únicos, sínteses de experiências individuais e coletivas. Assim é necessário entender que pode haver interpretações diferentes de um mesmo fato. Nesse caminhar é imprescindível considerar o coletivo e as experiências construídas historicamente por grupos menos favorecidos e marginalizados. Aqui sugiro o exercício da empatia.

Ouvir e argumentar são ações que precisam ser aprendidas e exercitadas. Nesse campo não há espaço para paixões, torcidas inflamadas. A frase "essa é a minha opinião!" encerra qualquer chance de aprendizagem ou exercício de debate. Afinal a história é feita de fatos e interpretações desses fatos pautados em argumentos fundamentados.

Voltando aos fatos recentes, quero dizer que Lula já é História, já é conteúdo de livro didático como uma das figuras mais populares e carismáticas da história recente. Para uns é herói, para outros é bandido, mas a sua história de vida e as experiências que moldaram esse indivíduo é sustentada por milhões de outros indivíduos com milhões de outras experiências.

Estar preso ou solto poderá mudar alguma coisa para o cotidiano do indivíduo Luiz Inácio. Mas temos que considerar o coletivo, ou seja, todas as pessoas que tiveram sua história individual transformada ao se espelhar no nordestino retirante, sobrevivente das mazelas da pobreza.

O Lula da coletividade já não pertence mais a esse presente. Se é herói ou bandido só o distanciamento temporal poderá dizer, e aí será tarde demais.

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