Regional

Polícia Civil abre inquérito para apurar queda de telhado e perícia será feita nesta quinta-feira

Cinthia Milanez e Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 9 min

Malavolta Jr.
Delegado Jader Biazon aguarda laudos, oitivas e diligências

A Polícia Civil de Agudos instaurou inquérito para apurar as causas do desabamento do telhado da creche berçário Professora Diomira Napoleone Paschoal na quarta-feira (18) e responsabilizar criminalmente eventuais culpados. Nesta quinta-feira (19), uma equipe da Polícia Científica de Bauru irá realizar a perícia no local do acidente.

"Nós vamos apurar responsabilidades e quem deu causa para saber se foi uma causa natural ou se houve culpado por esse desabamento que acabou gerando lesão nas crianças e nos profissionais que atuam lá. Isso vai depender de uma série de diligências, inclusive o laudo pericial", conta o delegado Jader Biazon.

No boletim de ocorrência de lesão corporal culposa que estava sendo registrado no fim da tarde dessa quarta-feira (18), a polícia já havia qualificado 17 vítimas - 11 crianças e seis funcionários, sendo duas professoras e quatro berçaristas. Até o fechamento desta edição, duas professoras e duas crianças permaneciam internadas.

No momento da queda, segundo o delegado, havia 20 crianças entre seis meses e 1 ano e seis meses no local. Para ele, a tragédia só não foi maior porque o teto do banheiro ao lado do refeitório onde estavam as crianças e o próprio forro de PVC da sala "amorteceram" o impacto da queda das madeiras e telhas.

Apesar da informação inicial de engenheiro da prefeitura de que o rompimento de "tesoura de madeira" teria resultado em efeito cascata que levou à queda do telhado, testemunha afirma que parte de uma parede cedeu, carregando consigo toda a estrutura do telhado. De acordo com Biazon, apenas laudos, oitivas e diligências poderão esclarecer o que ocorreu.

PÂNICO

Fotos: Douglas Reis
"Quando olhei para trás, no refeitório, o telhado estava caindo em cima das crianças", Camila Silva Costa, 29 anos, Servente da escola

 
O 12º Grupamento de Bombeiros de Bauru, que atende a região, foi acionado por volta das 8h dessa quarta-feira (18)

“Ouvi um barulho ensurdecedor e vi uma fumaça subindo”. É assim que a servente da Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) Professora Diomira Napoleone Paschoal, Camila Silva Costa, de 29 anos, descreveu o momento do desabamento do telhado do estabelecimento de ensino de Agudos (13 quilômetros de Bauru), no começo da manhã dessa quarta-feira (18). Ela, inclusive, socorreu as vítimas que estavam no refeitório da instituição. Duas professoras tiveram fraturas e ficaram internadas no Hospital Unimed Bauru, para onde foram transferidas, 11 crianças e quatro berçaristas se machucaram de forma leve e foram conduzidas à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e à Unidade Básica de Saúde (UBS) do município. 

Malavolta Jr.
Escombros da escola creche berçário Diomira Napoleone Paschoal de Agudos

Segundo a funcionária da creche berçário, que trabalha no local há duas semanas, ela estava na cozinha no momento em que o teto desabou. “Coloquei a touca para ajudar na confecção da merenda e escutei o estrondo. Quando olhei para trás, no refeitório, o telhado estava caindo em cima das crianças”, relata.

Não deu tempo nem de Camila pensar e, instintivamente, correu para acudir os alunos. “O meu medo era que o resto do teto desabasse e acontecesse algo mais grave com as crianças. Por isso, as levei para a Praça Santo Antônio, que fica em frente à escola”, complementa.

Uma Kombi da Prefeitura de Agudos, que estava estacionada perto do refeitório da escola, também ficou danificada. Já o filho da recepcionista Isabella Garcia, de 21 anos, o pequeno Benjamin Garcia, de 2, escapou por pouco do acidente. “Ele estava a caminho do refeitório, mas não chegou a ser atingido”, narra a mãe, aliviada.

O servente João Faustino Martins, de 47 anos, trabalha em Bauru, mas saiu correndo até a escola, assim que soube do acidente. O seu filho, o pequeno Bernardo Faustino Martins, de 1 ano e 5 meses, foi atingido pelos escombros, já que estava no refeitório, onde tudo ocorreu, no momento do desabamento. “Ele passa bem, mas está bastante assustado”, acrescenta.

O prédio da escola municipal foi interditado nessa quarta-feira (18) pela Defesa Civil. As aulas foram suspensas da creche berçário que atende 121 alunos. A Secretaria de Educação de Agudos vai fazer estudos para remanejamento dos alunos para outra unidade. Após o desabamento, o prefeito Altair Francisco declarou que tem planos de demolir o prédio.

FORÇA-TAREFA

O 12.º Grupamento de Bombeiros de Bauru, que atende a região, foi acionado por volta das 8h dessa quarta-feira (18). Além da corporação, a Polícia Militar (PM), a Defesa Civil de Agudos, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), alguns funcionários da Prefeitura de Agudos e da Sabesp, além de pais de alunos, estiveram no local.

A Prefeitura de Bauru também ofereceu apoio ao município vizinho, já que disponibilizou um caminhão Munck, para a retirada dos escombros, bem como ambulâncias do Samu, e deixou todas as unidades de saúde em alerta, caso seja necessária a remoção de algum paciente.

De acordo com o comandante da operação, o tenente Gustavo Henrique Rocha Bonifácio, do Corpo de Bombeiros, a corporação dimensionou o acidente assim que chegou ao colégio e, em seguida, montou uma frente de trabalho integrada com a Defesa Civil, a Secretaria de Educação de Agudos, os funcionários da escola, enfim, todas as instituições envolvidas. "Fizemos a vistoria da área, além da localização e do resgate das vítimas", completa. 

Douglas Reis
Kombi da Prefeitura de Agudos ficou danificada no desabamento

O tenente Bonifácio afirma, também, que o local seria submetido à perícia técnica e, provavelmente, interditado.

Comandante da 5.ª Companhia da PM, que atende a cidade, o capitão Juliano Xavier, explica que nove viaturas de Agudos, Bauru, Lençóis Paulista e Borebi estiveram presentes no local. "Coordenamos o trânsito, isolamos o local e mantivemos os ânimos mais arrefecidos, afinal, houve princípios de comoção, algo compreensível", avalia.

Segundo o Hospital Unimed Bauru (HUB), oito pessoas deram entrada no Pronto-Atendimento, sendo quatro adultos e quatro crianças. Desse total, apenas duas adultas permaneceram internadas para tratamento de fraturas. O quado delas é considerada estável. As demais - sendo quatro crianças e duas pessoas adultas - fizeram exames, foram medicadas e liberadas.

Em nota oficial, o engenheiro da Prefeitura de Agudos, Agostinho de Barros Tendolo, explicou que o desabamento ocorreu devido a infiltrações de água da chuva, que comprometeram o madeiramento e provocaram o rompimento de uma "tesoura de madeira". Esta, ao entrar em colapso, rompeu todo o telhado do refeitório.

PROTESTO

Nessa quarta (18) pela manhã, alguém tentou invadir a casa do prefeito de Agudos, Altair Francisco Silva, situada a poucos metros da escola cujo teto caiu. Inclusive, o portão da residência ficou danificado. Segundo o capitão Juliano Xavier, talvez tenha havido algum protesto em relação ao desabamento. Porém, a polícia não localizou ou identificou o suspeito.

TEMER SE MANIFESTA NO TWITTER

Na conta do Twitter, o presidente Michel Temer (PMDB) disse que está acompanhando com apreensão as consequências do desabamento e que "calamidades desta natureza não podem acontecer impunemente". "Estou acompanhando com muita apreensão as consequências do desabamento do teto de uma escola infantil em Agudos, São Paulo. Calamidades desta natureza não podem acontecer impunemente. Mas primeiro vamos dar atenção às crianças e adultos atingidos. E rezar por eles", escreveu o presidente. 

Veja algumas fotos e leia mais abaixo

Fotos: Malavolta Jr.
O desabamento ocorreu no local do refeitório das crianças

 
Telhas do teto da escola municipal infantil Diomira Napoleone Paschoal

 
Escola fica na avenida Faustino Ribeiro, 261, em Agudos

CRECHE FOI FECHADA E REFORMADA EM 2017

Na ocasião, forro do ‘arquivo morto’ desabou; interdição também ocorreu por causa do lixo e risco de contaminação por fezes de pombos e urina de rato

Divulgação
Em janeiro de 2017, a prefeitura interditou o imóvel e, entre as razões, alegou 'risco iminente' de desabamento

O prédio onde funciona a creche berçário Professora Diomira Napoleone Paschoal, em Agudos (13 quilômetros de Bauru), já havia sido interditado em janeiro de 2017 pela prefeitura. Na ocasião, além da queda do forro da sala do "arquivo morto", a unidade enfrentava problemas como acúmulo de lixo e risco de contaminação por fezes de pombos e urina de ratos.

Na época, após vistoria feita pela Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária, a Prefeitura de Agudos revelou que o telhado corria "risco iminente" de desabar e que a situação havia se agravado após forte chuva. A reforma do imóvel durou seis meses. No dia 10 de julho, a creche berçário voltou a receber os alunos.

Durante o período de reforma, a Secretaria de Obras executou serviços de reparo no telhado, limpeza das calhas, aumento dos condutores das calhas, retirada do forro velho de PVC e de um segundo forro de madeira, instalação de um forro novo, nova instalação elétrica, adequação da tubulação de gás e pintura do prédio.

O prefeito Altair Francisco Silva (PRB) garante que o prédio estava apto para receber as crianças. "Como é uma coisa muito grave, vamos trabalhar para investigar", afirma. "Já estamos preparando a abertura de um processo administrativo interno para poder apurar o que causou o acidente, em conjunto com outros órgãos até".

Malavolta Jr.
Telhado da creche Diomira Napoleone Paschoal desabou deixando 11 crianças e seis adultos feridos

Ele explica que, paralelamente ao trabalho da Polícia Científica, solicitou o apoio de técnicos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) para tentar entender o que levou ao desabamento do telhado do imóvel. "A prefeitura vai se colocar à disposição da polícia para fornecer todo e qualquer tipo de informação", diz. "A gente precisa dar uma resposta para a sociedade".

Pedido de laudos

No último dia 2 de abril, a Câmara de Agudos aprovou requerimento da vereadora Rosamaria Ribas (SD) onde ela solicita à prefeitura laudos de vistoria técnica atualizados da Defesa Civil, Segurança do Trabalho e engenheiro referentes ao telhado da cheche Diomira Napoleone Paschoal.

Ao JC, o prefeito Altair Francisco Silva informou que iria checar junto aos departamentos se havia algum documento em tramitação relativo à unidade de ensino.

Após acidente, prefeito quer demolir imóvel

Malavolta Jr.
Prefeito Altair Francisco Silva quer demolir prédio da escola

Após o desabamento do telhado da creche berçário Professora Diomira Napoleone Paschoal nesta quarta-feira (18), que deixou 17 feridos, o prefeito de Agudos, Altair Francisco Silva, anunciou que a sua intenção é de demolir o prédio, onde também funciona o almoxarifado central e a Secretaria de Educação e Cultura.

"Hoje, nossa preocupação é com as vidas. Mas minha vontade, diante dos fatos ocorridos, é de demolir tudo aquilo e fazer uma escola nova. É uma intenção, mas creio que vou conseguir parcerias para isso", declara. Além de contato com o governo do Estado, ele informou que também buscaria apoio da União.

A creche berçário onde ocorreu o acidente atende 121 crianças com idades entre seis meses e três anos. "Apesar de tudo o que aconteceu, foi um grande livramento de Deus, um grande milagre de Deus aqui em Agudos saber que muitas crianças ficaram no meio dos escombros e não aconteceu nada grave", afirma.

MP irá acompanhar o caso

O promotor de Justiça de Agudos Guilherme Onofri Azevedo Figueiredo foi até o local do acidente para acompanhar o trabalho de resgate e socorro às vítimas. Ele explica que irá aguardar as investigações da Polícia Civil para saber se houve alguma eventual negligência ou imperícia, o que poderá resultar em um processo penal por lesões corporais culposas. "Paralelamente a isso, nós vamos solicitar que a prefeitura nos encaminhe a comprovação de que essa escola funcionava em situação regular", revela.

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