Tribuna do Leitor

Sobre quando se está morrendo...

Elida Yonamine
| Tempo de leitura: 2 min

Meu corpo está grande demais para mim, já que estou me transformando em uma centelha de luz! Já não consigo manter minha cabeça sobre meu pescoço, ela não se firma, por mais que tente equilibrá-la... Meus olhos às vezes arregalados olham para lugar algum, procurando não me lembro o quê... Minhas narinas estão ressecadas por essa sonda horrível, que atravessa minha garganta, desce pelo meu esôfago e entra em meu estomago, Minha boca agora já não tem bom hálito, meus dentes não conseguem mastigar mais nada, minha voz já quase não saí, as palavras me fogem, e não consigo mais pronunciá-las.

Um de meus seios foi arrancado, e o que resta dele é uma enorme cicatriz horizontal, cuja função era estancar meu sofrimento, pura ilusão! Antes que me desse conta, o sofrimento já escorria pelas minhas veias, misturadas com meu sangue, adentrando em todas minhas entranhas. Meus braços com manchas roxas, já não sabem onde ir, ora descem, ora se cruzam, ora agarram em alguém para que eu possa levantar meu tronco; minhas pequenas mãos também roxeadas, com minhas unhas compridas demais para meu gosto. Alguém por favor, corte-as, estão sujas, não consigo limpá-las!

Minhas mãos que já não conseguem segurar nada, não conseguem se juntar nem para que eu faça uma oração, não conseguem mais acariciar meu filho. Meu sexo, agora é descoberto sem nenhum embaraço, estou usando fraldas, que são trocadas sem nenhum constrangimento, e a cada troca fico exaurida, meu corpo, que está grande demais para mim, não me obedece mais, não me respeita mais...

Minhas pernas, bonitas, estão escondidas debaixo do lençol, gostaria tanto que fossem depiladas! Do alto de minha cabeça, vejo meus pés frios nestas noites de outono.

Não posso sentir a nova estação com sua leve brisa, não posso acompanhar as folhas caindo, as flores voando ao sabor do vento, não posso mais ver o céu claro, sem nuvem; nem posso sentir o calor do sol em meu rosto, não vejo mais as estrelas no céu, nem a lua que está crescendo para se tornar a grandiosa lua cheia. O tempo agora é contado por pingos de remédios, dietas, banhos no leito, trocas de faldas...

Meu mundo agora é um pequeno quarto, com paredes pintadas de cores, cheiros e pessoas que desconheço, envolta de suportes de soro e medicamentos. Não quero ser injusta, sei que todos estão cansados, só gostaria de conseguir falar que estou partindo, e que não precisam ter medo, meu tempo está acabando....

Por que as pessoas têm tanto medo da partida...?

O tempo vai passar, e meu corpo vai ficar cada vez maior para mim, espero pelo meu último suspiro, serei uma pequena centelha de luz e poderei ir para imensidão, livre desse corpo que já não serve mais para mim!

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