Dia desses, uma notinha no Estadão relatava que o hospital da universidade de Pequim convocara candidatos para a doação de sêmen, a fim de apoiar a liderança do Partido Comunista. Xi Jinping inspirou-se num teste de lealdade partidária para a reprodução, esforçando-se em misturar ciência com ideologia. O banco de espermas exige que o doador tenha bons pensamentos ideológicos, ame a pátria socialista e apoie a liderança do Partido Comunista. Para proteger a identidade chinesa, cruzou nacionalismo com socialismo, empenhando-se em colocar o PC no centro da vida cotidiana - posições radicais comuns em governos autoritários.
O fato poderia passar despercebido, não estivéssemos atravessando um momento político difícil. Com um ex-presidente preso, afloraram comportamentos abusivos por parte da militância, como se vivêssemos num estado autocrático igual ao chinês. Dizemo-nos uma democracia, mas, como escreveu Roberto P. de Toledo, são diferentes os Brasis que cada um tem na cabeça: no STF, "para Gilmar vive-se uma era de 'neopunitivismo'. Daí porque se deva rever a possibilidade de prisão para os condenados em segunda instância. Para Barroso, vigora no país, amparado pela impunidade, um 'pacto oligárquico de saque'". Seria bom esse Supremo conter-se um pouco mais para não deixar o cidadão desorientado.
Eis que em o Estadão, de 16 de abril, sai excelente publicação de Vargas Llosa, comentando a prisão do ex-presidente. Também deixa entrever as duas linhas de força no Brasil atual: uma apoiando a prisão do líder, outra (à semelhança de Xi Jinping) enviesando o pensamento, a fim de admitir a doutrina lulista como a condutora da ideologia que deve imperar no Brasil. Nem é preciso pedir um teste de lealdade para a militância. Está convencida de que o líder já se transformou numa "ideia" segundo a modesta expressão dele mesmo - e não é mais um corpo físico. Estão convictos de que o presidiário é vítima de injustiça, uma vez ter tirado aparentemente 30 milhões de brasileiros da pobreza. Para os petistas o bom governante só deve preocupar-se com políticas avançadas, sem se empenhar em obedecer as leis e agir com probidade. Segundo Vargas Llosa, o ex-presidente não foi levado à cadeia pelas coisas boas que fez, mas pelas más, entre as quais figura a corrupção espantosa da Petrobrás e de seus empreiteiros, que custou ao castigado povo brasileiro nada menos que três bilhões de dólares. Vargas Llosa mostra um ex-presidente "que corre de um canto para outro levando fofocas", atuando como emissário e cúmplice em várias operações da Odebrecht, mesmo no Peru, corrompendo com milhões de dólares presidentes corruptos e ministros para favorecer suas manobras.
Se puder, leia o artigo de Vargas Llosa. Ele também foi enganado por seu antagonista, quando lutou pelo poder no Peru. Nunca entendeu como seu povo desovou a maioria dos votos num semialfabetizado, corrupto, mentiroso. Em Peixe na água, o autor expõe com clareza a decepção com seus compatrícios, que o desprezaram por um homem sem caráter, como a história demonstrou. O fato de, entre nós, aparecer um Sérgio Moro e outros juízes e promotores da mesma lavra foi o extraordinário dessa caótica situação, porque, mandando para a prisão supostos intocáveis, mostrou que é viável fazê-lo em qualquer país e que a decência e a honestidade são possíveis também no terceiro mundo. O escritor peruano aponta várias figuras admiráveis no Brasil, escritores, políticos, atletas e desportistas cujos nomes deram a volta no mundo. Mas, diz ele, se tivesse que escolher um deles como modelo, não hesitaria em escolher o modesto advogado Sérgio Moro.
Para ser um grande brasileiro, não é necessário seguir obsessivamente uma ideologia. A militância deve entender o recado. Diz a revista Veja: durante o tempo que o ex-presidente refugiou-se no sindicato, pelo menos dez profissionais foram agredidos. Em frente ao Instituto do ex-presidente, Carlos Alberto Bettoni sofreu traumatismo craniano após ser empurrado por um vereador petista e atingido por um caminhão. Enquanto isso, o MST fechava estradas e coordenava atos de vandalismo. Perto de onde o ex-presidente cumpre pena, cerca de 500 militantes iniciaram uma vigília pela libertação dele, perturbando a vida de muitos curitibanos. Recentemente, petistas invadiram o tríplex atribuído ao messias: "Se é dele é nosso também", numa boutade de teor autocrático. Não é preciso fazer o que a esquerda chinesa pede aos correligionários: no teste de lealdade você terá êxito se não for corrupto, mentiroso, se amar o país. Cabe-nos uma "revolução silenciosa": cumprir a lei, saber escolher em quem votar e repudiar a impunidade. Que o anseio de todo cidadão seja o respeito à Constituição e à democracia!
A autora é pedagoga, jornalista, advogada e professora doutora aposentada da Unesp. E-mail: mg-de-rosa@hotmail.com