É muito comum vermos comentários de pessoas criticando a ditadura brasileira e, em outros momentos, também se revelarem simpatizantes da ditatura cubana. Certamente aí existe uma grande contradição, difícil de entender. Para quem tem dúvidas a respeito, vamos comparar alguns fatos importantes de domínio público, associados à ditadura de direita ocorrida no Brasil de 1964 a 1985, e a ditadura de esquerda que existe em Cuba desde 1959.
Um quesito que merece destaque nesta comparação se refere à liberdade das pessoas. Na liberdade de "manifestação", houve restrições tanto no Brasil como em Cuba, mas em graus diferentes. A liberdade de manifestação no Brasil foi bem maior, haja vista as músicas de protestos tocadas na época, além de que também existia setores da mídia atuando com alguma independência. O mesmo não aconteceu em Cuba, pois até hoje não há notícias de qualquer tipo de manifestação popular, e a mídia sempre foi totalmente controlada pelo governo cubano. Há quem diga que não houve manifestação popular, pois toda população estaria satisfeita com o governo cubano. Bem, aí caberia a pergunta: por que houve então muitas fugas para os EUA?
Na liberdade de "ir e vir", na ditadura cubana ainda há restrições veladas como, por exemplo, quando o governo autoriza uma viagem de um médico cubano para prestar um serviço no exterior, costuma colocar seus familiares que ficaram na ilha como uma espécie de "reféns", exercendo certa pressão indireta para que o médico não peça asilo e volte. Na ditadura brasileira, nesta questão de "ir e vir" a liberdade foi plena.
Outro quesito importante diz respeito à educação. Em Cuba, ela foi sempre enaltecida como um dos trunfos da revolução cubana: gratuita, de qualidade e um direito de todos, formando grande quantidade de profissionais em várias áreas. Entretanto, pelo que se nota, não é esta maravilha toda. Por exemplo: sabe-se que em medicina a grande maioria é formada com ênfase nos primeiros socorros - estando mais pra técnico do que pra médico -, enquanto a parte especializada de maior profundidade é bem limitada. Outro fato a destacar é que a ditadura cubana instituiu o socialismo, onde aquela dinâmica toda do capitalismo deixou de existir, com Cuba se transformando numa sociedade mais estática e, portanto, mais pobre. Neste caso não se justifica, por exemplo, um monte de engenheiros ou técnicos em construção, num lugar onde não se constrói quase nada. Apesar do governo socialista dizer utilizar um planejamento global, há um excesso de profissionais formados a mais que as necessidades da própria sociedade cubana. E, por falta de melhores opções, temos notícias de que profissionais do porte de um médico ou engenheiro, acabam trabalhando como taxistas ou vendedores de pipoca. Quanto a educação no Brasil, tivemos de tudo: de alta qualidade e profundidade, bem como as mais básicas possíveis. A ditadura brasileira não alterou o sistema que continuou na dinâmica capitalista, o que permitiu mais espaço para os profissionais graduados, onde a regra básica da procura das profissões e empregos é definido pelas tendências do mercado.
Quando comparamos as mortes ocorridas e associadas às ditaduras, isto nos dá uma ideia do que realmente aconteceu em termos de repressão. Para facilitar as comparações, os números que citarei a seguir são estimados e arredondados, mas não fogem muito dos números da época em que os fatos ocorreram. Na ditadura no Brasil, então com população cerca de 120 milhões de habitantes, pode-se associar de algum modo como vítimas do sistema cerca de 400 mortes (fala-se até 424 mortes), enquanto na ditadura em Cuba, com população de 10 milhões de habitantes na fase inicial mais conturbada, teve cerca de 100 mil mortes (fala-se até 136.288 mortes). Resumindo: no Brasil tivemos 400 mortes em 120 milhões de habitantes ou 1 morte/300.000 habitantes, e em Cuba 100 mil mortes em 10 milhões de habitantes ou 1 morte/100 habitantes, o que já permite estimar o grau de brutalidade em cada ditadura, onde se nota que a cubana matou 3.000 vezes mais.
Tudo isto não é uma questão de interpretação e sim de fatos, e espero que os mais apressadinhos não falem que estou fazendo apologia da ditadura brasileira e pedindo sua volta. Pelo contrário! Gosto é da liberdade e não desejo nenhuma ditadura: nem a nossa e muito menos a deles. Mas aproveito para mostrar uma tremenda contradição de alguns da esquerda brasileira que tanto admira a ditadura cubana e que a tem como referência, enquanto condena a barbaridade cometida pela nossa ditadura. Outra contradição se manifesta quando se sabe que boa parte daqueles de esquerda que lutaram contra nossa ditadura, o fizeram não para fortalecer a democracia em nosso país, e sim para instituir sua própria ditadura. Observando a história do mundo, é fácil notar que o caminho para construir uma sociedade saudável não é ditaduras ou populismos, que são opções que têm levado sempre ao desastre. O caminho é liberdade, transparência e democracia, mas, para isto, precisamos ter povo, políticos, justiça e mídia a altura de entender e dar sustentação. E o roteiro já está escrito: é só mirarmos nas grandes repúblicas democráticas já consagradas do mundo.