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Educar é, também, um ato de amor

Rita Melissa Lepre
| Tempo de leitura: 3 min

É comum lermos e ouvirmos que educar é um ato amoroso e que nas relações entre educadores e educandos o amor é um afeto que deve estar presente. Alguns relacionam esse afeto a atos carinhosos do tipo afagos, abraços, beijos e carinhos, algo físico, explícito e visível, associado a uma pedagogia do amor romântico. Outros consideram que o amor pode estar representado na relação pedagógica pelo respeito mútuo e pelo desejo de se fazer o melhor possível no cotidiano escolar. Ou, ainda, que o amor está nos atos de resistência e enfrentamento que buscam transformações estruturais e funcionais nos sistemas educacionais, entre tantas outras concepções possíveis.

O fato é que educar, entre outras coisas, é também um ato de amor! Segundo o filósofo Comte-Sponville, é possível pensar o amor a partir de três concepções diferentes: o amor Eros, o amor Philia e o amor Ágape. Eros é o amor possessivo, a paixão, caracterizado pela busca daquilo que falta em nós e queremos encontrar no outro, ou seja, é o desejo de fundir-se, de ser um só, o que pode causar dor e sofrimento uma vez que cada ser é único e a fusão nunca possível. O amor Philia, por sua vez, é aquele voltado à amizade, é a vontade racional de fazer o bem ao outro, de dar e receber, pautado na reciprocidade e nas trocas afetivas. Não é um amor totalmente desinteressado e gratuito, uma vez que só sobrevive pela manutenção dos laços, pelo dar e receber, pelo exercício da empatia. O amor Ágape, por sua vez, não se caracteriza nem pela paixão nem pela amizade, mas pelo amor universal, divino e caridoso, é o amor que é oferecido sem esperar nada em troca, que se mantém em detrimento dos interesses pessoais, elegendo sempre o interesse e o bem-estar dos outros como prioridade. Ágape é o amor desinteressado e, por isso mesmo, tão escasso nos dias atuais, nos quais reinam as relações de poder, coação, desigualdades e egoísmo.

No ato de educar o amor que nos parece cabível é o amor Philia. É necessário que a relação pedagógica seja pautada no respeito mútuo e nas relações de cooperação, nas quais professores e alunos mantenham trocas afetivas, cognitivas e sociais pautadas nos direitos humanos e na solidariedade. É preciso dar e receber respeito, dar e receber atenção, dar e receber conhecimentos, dar e receber amor. Não é possível desenvolver uma ação pedagógica de qualidade que não seja relacional, que não se apresente como uma via de mão dupla, na qual o amor, entre tantos outros sentimentos e fenômenos necessários, precisa sim estar presente. Esse amor, no entanto, não está representado pelas preferências a alguns, por benefícios ofertados a uns em detrimento dos outros, ou pela exibição de afetos externalizados em ações diretas como abraçar e beijar as crianças, mas sim na possibilidade de reconhecer e ser reconhecido como ser de direitos e deveres, como um fim em si mesmo.

Um ser único, mas também universal, que ao interagir socialmente cria laços humanos que possibilitam a troca de pontos de vistas, a descentração, o colocar-se no lugar do outro e o exercício constante da reciprocidade. Amor, na Educação, demanda coragem! Finalizando com Paulo Freire, concordamos que: "A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa".

A autora é psicóloga, mestre, doutora e livre docente em Psicologia da Educação.

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