O que mais temos feito é abrir portas e construir muros. Que entrem aqueles que pensam como nós. Também aqueles que conosco se parecem. E todos os que comungam a nossa cartilha política, religiosa e moral. No jornal, buscamos rapidamente a página do colunista que diz exatamente o que queremos ler. Na tevê, o comentarista que, pondo todos os pingos nos is, diz o que essa gente idiota precisa ouvir. Na livraria, os autores confortáveis de sempre. Sejam bem vindos, enfim, todos aqueles que têm a nossa cara. Não existe paz maior do que estar entre iguais. O espelho agradece.
É preciso, contudo, que estejamos atentos e fortes. Há bocas perigosas que nos irritam, desajustam-nos por trafegarem na mais subversiva contramão. Dizem coisas inaceitáveis. Melhor não ouvi-las, não lê-las, melhor emparedá-las. Bendita a hora que aprendemos a construir muros. Protegidos por eles, garantimos nossa zona de conforto. Que fiquem as bocas do mal do lado de fora. Que fiquem roucas, tamponados estarão nossos ouvidos. A essas vozes insuportáveis nenhuma atenção daremos, senão a nossa mais fria indiferença. Assim, abrindo portas e fechando muros, vamos, em relativa paz, sobrevivendo.
Por que muros? Por que essa fuga do outro? Medo de que ele desestabilize as nossas crenças e valores? De que desarrume a cama do nosso sono tranquilo? De que acenda luz mais forte do que aquela que nos tem iluminado? Por que insistimos em pensar em única direção? Em fechar-nos quando poderíamos nos abrir?
Se da vida queremos conhecer mais, precisamos aprender a ouvir quem de nós pensa diferente. Só o conflito pode nos enriquecer. Conflitar sim, confrontar não. O conflito (sem confronto) abre a possibilidade do diálogo que pode nos fazer mais sensíveis, tolerantes, empáticos, mais humanos. Para ouvir o outro, contudo, precisamos, na medida do possível, desapegar-nos das nossas eternas certezas, compreender e sentir as razões alheias. Não sabe dialogar quem insiste em medir a experiência do outro com a viciada régua de sempre. Melhor ser metamorfose ambulante, disse o maluco beleza, "do que ter aquela velha opinião sobre tudo." Certeza demais cega, fanatiza, emburrece.
Quem de si não sai perde a fundamental experiência de perceber o quanto a vida é rica por ser plural. O quanto é humanizadora desde que vivamos em harmonia com as diferenças. Portas sim, muros não.
O autor é professor de redação e membro da Acade mia Bauruense de Letras. curso_romag @uol.com.br