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A novilíngua portuguesa

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Em Portugal, cueca é vestimenta usada pelas mulheres, chamada no Brasil e em Moçambique de calcinha. Cueca, aqui, é coisa de macho. Vem do latim vulgar "cullus" e do grego "eca", que significa domicílio. Entrei numa loja em Lisboa e me ensinaram que, para homens, é boxer. Minha mãe dizia, roupa de baixo. Cueca era uma palavra feia. Saudades da samba-canção, de seda e cetim, parecida com o short de hoje. Feita sob medida na Josilmar.

O assunto rendeu discussões entre os linguistas reunidos para comemorar, ontem, o Dia da Língua Portuguesa e das comunidades lusofônicas. O idioma é falado por 261 milhões de pessoas em dez países. Alguns cientistas temem que as mudanças regionais na língua de Camões possam levar o idioma a uma deterioração e a sua substituição por dialetos crioulos. Como se fosse possível segurar esse processo. Considero um enriquecimento vocabular. Em Portugal, entrar no rabo da bicha para pegar o cacete significa entrar no fim da fila para comprar o pãozinho. Propina é o termo usado pelos portugueses para definir as taxas legais e honestas. Aqui no Brasil, é a taxa obrigatória entre os políticos. Pitada (de sal), não se pode falar em Cabo Verde. Significa vagina. Não saber porra nenhuma é o mesmo que desconhecer a ponta de um corno. Que mané celular! É telemovel. Nós dizemos Brasiu e eles, Purtugal.

Os politicamente corretos, querem extirpar termos considerados "racistas", como nega fulô. A expressão foi popularizada pelo poeta brasileiro Jorge de Lima (1895-1953). Referia-se a uma escrava flor, escrava bonita, geralmente assediada e forçada a ter relações sexuais com o senhor da casa grande, o colonizador. Outro exemplo é a palavra mulata, usada por Gilberto Freyre para expressar o orgulho pela suposta miscigenação harmoniosa no Brasil entre pretos e brancos. No entanto, a origem deste vocábulo remete ainda para a mula, filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua, que representa no mundo animal uma espécie de hierarquia racial.

É importante dizer que as pessoas que usam essas expressões não são necessariamente racistas. A língua não sobrevive isoladamente, mas num contexto histórico e social específico, e seus falantes recebem heranças. Usar etimologia, embora útil, me parece exagerado ou despropositado. A palavra "gênero", que na gramática indica simplesmente se uma palavra é feminina ou masculina, entrou na linguagem política para designar a palavra "sexo". Sexo biológico. A palavra pode remeter à relação sexual, mas é considerada mais neutra. E nela cabem os transgênicos.

Na França, o governo publicou em 2015, um Guia Prático para uma Comunicação Pública sem Estereótipos. Propõe a eliminação da expressão "mademoiselle", que significa jovem senhora, por termos masculinos e femininos idênticos, como seja "senhoras e senhores", "senador e senadora". Sugere a substituição da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, por "Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos Cidadãos e das Cidadãs". Na Inglaterra, outro Guia oficial recomenda a substituição da expressão "mulher grávida" por pessoa grávida, para não ferir susceptibilidades de "homens transgênero". No ano passado o metrô de Londres anunciou a alteração das mensagens de boas- vindas endereçadas às damas e cavalheiros (Ladies and Gentlemen) por "Olá a todos", para serem mais inclusivas. Em fevereiro desse ano, o Parlamento do Canadá alterou a versão do hino nacional, em nome da igualdade de gênero. O verso "em todos os vossos filhos comanda", foi substituído por "em todos nós comanda". Chegará o dia em que teremos que mudar o "verás que um filho teu não foge à luta".

Melhor concordar com tudo. Hoje, se você não for politicamente correto, você é linchado, perde amigos, empregos, contatos, sofre processos (L.F.Pondé). A novilíngua, de George Orwell ("1984"), chegou aos nossos dias. Aos que escrevem e falam será retirada a possibilidade de se exprimirem livremente. A "polícia do pensamento" estará vigilante. A política de Estado volta-se à virtuosa defesa e promoção da igualdade de direitos entre mulheres, homens, gays, lésbicas, bissexuais e, pelo menos, outras três dezenas de gêneros. Preferências vocabulares desaparecerão da nomenclatura oficial. Ocorrerão substituições de caráter compulsivo e até mesmo coercitivo, uma vez que dotadas de força legal. Nasce o portuguis, gênero mais neutro que português.

O autor é jornalista e articulista do JC.

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