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Plantas 'atípicas' viram alimento

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 10 min

Já imaginou plantas do próprio jardim que podem servir para fazer pão, sopa, refogados ou mesmo condimentos com grande valor proteico. São receitas que os ancestrais conheciam, mas nos tempos modernos, por comodidade, foram desaparecendo das mesas brasileiras. Há uma variedade de plantas não convencionais alimentícias que podem acrescentar na alimentação diária. Até a culinária mais sofisticada se utiliza dessas plantas, muitas delas desconhecidas da população comum. Tudo isso faz parte de uma busca de uma alimentação mais saudável.

Instituto Nooesfera/Divulgação
Evento no Sítio Jatobá aborda os tipos de plantas alimentícias não convencionais em Arealva

Em Arealva, no Instituto Noosfera, instalado no sítio Casa do Jatobá, no Córrego Fundo, o casal Flávia Toquei e o argentino Valter Alfredo Dolz mantém um viveiro de cultivo das Plantas Alimentícias Não Convencionais, da sigla PANCS, e está credenciando o local junto ao Ministério do Meio Ambiente para transformá-lo na Sala Verde.

O espaço será dedicado ao desenvolvimento de atividades de caráter socioambiental e cultural, que visam contribuir e estimular a discussão crítica, a organização e o pacto social, levando à formação de cidadão mais informados e dedicados a um processo de construção de sociedades sustentáveis. O programa do governo federal existe desde 2000, mas precisa de o interessado participar de um chamamento e de aprovação de órgão público federal.

Flávia realizou há poucos dias um evento de dois dias para divulgar essas plantas "atípicas". A sigla PANCS significa plantas que poderíamos consumir, mas não consumimos. Uma pequena parcela delas são conhecidas. O termo alimentícias quer dizer que são plantas usadas na alimentação, como verduras, hortaliças, frutas, castanhas, cereais e até mesmo condimentos e corantes naturais. O termo não convencionais significa que não são produzidas ou comercializadas em grande escala, cujo cultivo e uso pode cair no esquecimento, conforme o Guia das PANCS de autoria de Guilherme Reis Ranieri.

As Secretarias Estaduais de Agricultura e Meio Ambiente de São Paulo implantaram no ano passado um projeto de agroecologia aos pequenos produtores que têm intenções de buscar a transição do sistema tradicional para a produção orgânica, mas encontra dificuldade por falta de assistência técnica.

Atualmente existe programa do Ministério da Agricultura para certificação de produção orgânica, porém a dificuldade é os pequenos atenderem as exigências, entre as quais a certificação.

A gestora do projeto de agroecologia da Secretaria Estadual de Meio Ambienta, Aracy Kamiyama, explica que o Estado de São Paulo é o primeiro no país a ter um protocolo de transição para aderir à agroecologia ao dar respaldo por meio da extensão rural a esses agricultores.

Na região de Bauru há 50 unidades de produção orgânica. No País são 13.345 produtores e o Estado de São Paulo é o terceiro da federação com 1.471 produtores orgânicos, de acordo com dados do Ministério da Agricultura. A produção orgânica é caracterizada pelo não uso de defensivos agrícolas e agrotóxico.  

Sítio cultiva novo conceito agrícola

Instituto Noosfera, de Arealva, mantém viveiro com várias espécies e terá uma Sala Verde credenciada pelo Ministério do Meio Ambiente

Fotos: Aurélio Alonso
Conceito é reutilizar materiais para autogerir a propriedade 

Flavia Toqueti é pós-graduada em segurança alimentar e nutricional sustentável pela Unesp

O Instituto Noosfera está instalado no Sítio Casa do Jatobá, no Córrego Fundo, em Arealva, onde o casal Flávia Toqueti e o argentino Valter Alfredo Dolz desenvolve as atividades para divulgar um sistema de agricultura mais sustentável sem defensivos agrícolas que engloba principalmente a busca da eficiência energética no sistema de vida, inclui bioconstruções, medicina natural e economias sociais.

O plantio de mudas de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCS) faz parte desse projeto de Flávia, nascida em São Paulo, que decidiu voltar para o sítio que foi de seus avós, imigrantes italianos. O Noosfera significa mente planetária, um conceito de unificação da arte, da ciência e da espiritualidade. 

Flávia conheceu Valter na Patagônia argentina, mas ela já residiu no Pantanal e na Nova Zelândia. Com formação de tecnóloga em gestão ambiental e pós-graduada em segurança alimentar e nutricional sustentável pela Unesp, também é representante no Conselho Regional de Segurança Alimentar e Sustentável.

É um novo conceito de agricultura. "Decidimos usar dessas técnicas para reformular a propriedade. A gente tem biodigestores, estamos construindo banheiros para visitantes com telhados vivos, trabalhamos com barro e reutilização de materiais para auto gerar a propriedade e executar um sistema integrado de sistemas. Nesse sentido, vamos ter lago com peixes que vai regar a horta e recuperar espécie de plantas, por isso o cultivo das PANCS. Isso está fortemente entrelaçado com a segurança alimentar nos dias de hoje", explica Flávia.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado anualmente. Em um país como o Brasil, que é muito farto na produção, o desperdício de frutas e hortaliças consumidas chega a ser de 20 a 30%, desde a colheita até a mesa do consumidor. "Há uma erosão genética que pode estar relacionada com as espécias e existe uma perda enorme de variedades alimentícias", acrescenta Flávia.

E justamente as PANCS oferecem uma variedade de hortaliças que podem virar suculentos pratos, servir de condimento para ensopados, empanados e até para fazer polvilhos.

Flávia explica que é possível uma variedade com melhor qualidade nutricional do cardápio. De acordo com a tecnóloga ambiental, muitas dessas plantas são de fácil cultivo, algumas até consideradas erva daninha, e podem ser cultivadas em jardins.

No sítio ela planta várias espécies que posteriormente serão repassadas a outros agricultores que pretendem desenvolver projetos de agroecologia. Essas hortaliças não convencionais têm potencial alimentar e nutricional.  Flávia também conseguiu junto ao Ministério do Meio Ambiente o credenciamento de uma Sala Verde, projeto do governo federal para criar esses espaços para divulgar atividades de caráter socioambiental que visam contribuir para criar sociedade sustentáveis. A tecnóloga ambiental explica que é um passo além da agricultura orgânica, que é caracterizada pelo não uso de defensivos agrícolas e agrotóxico, porém depende da certificação do produção por empresa especializada. "A certificação é bastante complexa, aqui é ir além: estar integrado na esfera da vida. O fundamento é se conectar com a ionosfera planetária. Não é só ter uma estufa sem veneno químico, mas todo o sistema sustentável. As ditas pragas fazem parte desse sistema. A questão é como restaura esse ciclo, que está sendo interferida com a mecanização da agricultura", finaliza.

Guia das PANCS

A sigla PANCS significa Plantas Alimentícias Não Convencionais. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento já publicou um livro com várias receitas para orientar a população sobre como usar essas hortaliças na culinária. Há desde torta salgada de casca de abóbora com recheio de talos, tortilha com cascas de batata e folhas até nhoque de ricota com a planta ora-pro-nobis.

Outro material didático interessante é o guia prático de PANCS com texto de Guilherme Reis Ranieri. O autor responde a várias perguntas. "Muitas plantas estão esquecidas e já não são mais vistas como alimento. Voltar a consumi-las é uma forma de evitar que desapareçam do nosso cotidiano, ajudando a valorizar a introdução de culturas alimentares nas quais essas plantas estão presentes. Contribui ainda para aprendermos com os agricultores e todos aqueles que trazem essa sabedoria da roça e de antigamente, como muitos de nossos pais e avós que as utilizavam, embora esse conhecimento esteja se perdendo", comenta Ranieri no livreto. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação das Nações Unidas, um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado anualmente. Em publicação do "Diga não ao deserdício & PANCS", distribuído pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento, cita que o desperdício de frutas e hortaliças consumidas no Brasil chega a ser de 20% a 30%, desde a colheita até a mesa do consumidor.

Desse mesmo guia do governo paulista destaca que 1,7% da população brasileira ainda vive em estado de insegurança alimentar. No entanto, a quantidade exagerada de alimentos desperdiçados seria suficiente para diminuir a fome de parte significativa da população. Nesse cenário, o aproveitamento integral dos alimentos vem de encontro às ações que visam minimizar esse problema de saúde pública. Existem inúmeras receitas culinárias já desenvolvidas, utilizando-se essas plantas como ingrediente principal ou em complemento. As refeições são saborosas, baratas, sustentáveis e nutritivas.

Mudança para orgânico tem auxílio

Governo paulista adota desde o ano passado um protocolo de transição para o agricultor deixar a agricultura tradicional e aderir à agroecologia

Divulgação
Aracy Kamiyama é diretora do Departamento Sustentável da Secretaria Estadual de Meio Ambiente

O governo paulista adotou, por intermédio das secretarias estaduais de Meio Ambiente e Agricultura e Abastecimento, um protocolo de transição para os pequenos agricultores que têm intenção de se transferir para a agricultura orgânica, mas têm dificuldade de conseguir a assistência técnica. Inédito no país, o Estado é o único que adota esse sistema "intermediário".

Há no país desde 1990 uma legislação federal que estabelece as regras para a produção orgânica. A dificuldade é conseguir a certificação. Diante disso, as duas secretarias, junto com Associação de Agricultura Orgânica (AAO) e Instituto Kairós, desenvolvem uma assistência técnica para o produtor que pretende deixar a agricultura convencional para o sistema de agroecologia. 

De acordo com a diretora do Departamento Sustentável da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Aracy Kamiyama, nessa fase o produtor precisa de mais incentivo e vai necessitar de assistência técnica para melhorar o solo da sua propriedade, promover uma adequação ambiental e aumentar a sua produção. Nesse período de transição, o agricultor ainda não é reconhecido e não pode ter esse valor agregado, porque não é considerado de produção orgânica.

"Nessa fase, ele precisa ser incentivado, porque é uma fase difícil essa transição do tradicional para a produção orgânica. Ele aumenta os custos de produção por remodelar toda a propriedade, adota boas práticas e o protocolo reconhece e incentiva esse processo de transição", explica.

O programa da Secretaria oferece a extensão rural do Estado que acompanha o agricultor que adere ao protocolo. "Ele começa a adotar as práticas e a gente reconhece por meio de uma declaração que ele está nesse processo de transição emitida por órgão do Estado. É uma forma de reconhecer que tem um produtor diferenciado", cita a engenheira agrônoma.

Com pouco mais de um ano, o programa tem 75 produtores em transição para agroecologia. Há um grupo de assentamento em João Ramalho com 11 produtores no Pontal do Paranapanema, produtores rurais de São José do Rio Preto que vem sendo fomentados pela Coordenaria de Assistência Técnica Integral (Cati) vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento.

No país há cerca de 13 mil produtores com certificação de orgânicos. O Estado de São Paulo é o terceiro da federação com 1.471 produtores orgânicos, o Paraná é o 1º, de acordo com dados do Ministério da Agricultura, conforme dados de 2016.

O mercado de orgânico é regido pelo mercado e precisa da certificação, mas devido a dificuldade o Estado criou o protocolo para incentivar ao pequeno produtor entrar nesse processo a médio e longo prazo.

"Ele pode ser orgânico se quiser, mas vai ter que buscar certificação. Primeiro o Estado incentiva para esse modelo mais sustentável", explica a engenheira agrônoma.

País tem variedade de plantas alimentícias

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Plantas alimentícias expostas como demonstração

O engenheiro agrônomo Osmar Mosca Diz, extensionista da Coordenação de Assistência Técnica (Cati) de Campinas, esteve em Arealva em evento recente para falar sobre as Plantas Alimentícias Não Convencionais. Ele, por exemplo, mantém um pequeno viveiro dessas plantas com 30 espécies. O Brasil é um dos países com uma quantidade grande dessas plantas em comparação a outros países, são cerca de 600 já catalogadas.

Diz considera um trabalho educativo o resgate dessas plantas para incentivo da culinária. A maior dificuldade ainda é o desconhecimento, mas as comunidades mais antigas conheciam essas hortaliças, que podem ser cultivadas em jardins e quintais.

As hortaliças podem ser consumidas de diferentes maneiras, em preparações de doces e salgados, em forma de saladas, refogados, sopas, cremes, molhos pães, biscoitos, sucos, chá, entre outros.

Segundo o guia das PANCS, de Guilherme Reis Ranieri, muitas das plantas que nascem sozinhas em praças, calçadas, jardins e hortas não são comestíveis, há até medicinais, mas não são adequadas para a alimentação humana. "Não quer dizer que não tenham utilidade - são fonte de abrigo e alimento para diversos insetos e animais, como pássaros, joaninhas e borboletas, e ajudam no equilíbrio do ambiente".

O uso das plantas alimentícias também acaba sendo a agricultura orgânica, ou seja não é permitido o uso de substâncias que coloquem em risco a saúde humana e o meio ambiente. Para ser considerado orgânico, o produto tem que ser produzido em um ambiente de produção orgânica, onde se utiliza como base do processo produtivo os princípios agroecológicos que contemplam o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais.

Fotos: Divulgação
Evento "Conhecendo as PANCS" contou com a presença de técnicos no Sítio Casa Jatobá

Não se trata somente da agricultura orgânica, mas de um sistema de sustentabilidade

 

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