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É crucial ter consciência do passado

ZARCILLO BARBOSA
| Tempo de leitura: 3 min

No Dia das Mães de 1973, Zuzu Angel foi à casa de Ernesto Geisel. Para a estilista carioca, de fama internacional, o general era o homem certo para ajudá-la na causa da sua vida: a busca pelo corpo de seu filho Stuart, desaparecido aos 25 anos. Geisel, que comandava a Petrobras seria, com toda certeza, o quarto presidente da ditadura militar. Seu irmão, Orlando, era ministro do Exército. "Estou certa de que Vossa Excelência, como pai e como cristão que é, há de compreender a angústia em que vivo há quatro anos". Assim dizia Zuzu Angel na carta entregue pessoalmente. No ano seguinte, Geisel foi empossado presidente da República. De família de imigrantes alemães luteranos, era tido como "homem bom", capaz de afrouxar o regime autoritário com uma "ditabranda", e levar o país a uma "abertura lenta, gradual e segura". Assim prometera.

O documento localizado pelo pesquisador da FGV Matias Spektor desmancha aquela imagem do bom pastor. No memorando secreto destinado ao então secretário de Estado Henry Kissinger, o diretor da CIA William Colby descreve uma reunião em que Geisel autoriza a continuação da matança dos inimigos. O general não apenas sabia das execuções, mas também queria que passassem antes pelo Planalto.

A irritação que demonstrou ao general João Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Inteligência (SNI), era mais nos casos em que se matou sem autorização. Geisel, segundo a CIA, ainda ouve um relato sobre o extermínio de 104 opositores políticos. "Esse troço de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser". Figueiredo, que viria a sucedê-lo no governo, foi encarregado de pôr ordem na casa e de decidir quem deveria morrer nos porões do regime - "Apenas subversivos perigosos".

Esse documento comprova evidências já existentes, como a gravação revelada pelo jornalista Elio Gaspari (A Ditadura Derrotada). Nela, Geisel dá luz verde para a repressão à guerrilha no Araguaia. Depoimento de um general francês conta que Figueiredo o levou para acompanhar uma sessão de tortura. Os arquivos da ditadura foram todos destruídos. É o Exército quem diz. Os pesquisadores se valem, agora, da liberação de arquivos secretos no exterior. Isso é tradição nos países de democracia madura. É o único caminho para que a verdade venha à tona e subsidie o julgamento da História.

O documento da CIA é revelado às vésperas de outro Dia das Mães. O deputado Bolsonaro, que lidera a corrida presidencial, nostálgico da ditadura compara as execuções a "palmadas no bumbum do bebê", que depois levam ao arrependimento. O corpo de Stuart nunca foi localizado. Zuzu morreu num desastre de automóvel em 1976, ainda no governo Geisel.

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos considerou o caso como atentado para silenciá-la. Um ex-agente da polícia política, que trabalhou na Casa da Morte mantida pela ditadura em Petrópolis, testemunhou que o filho de Zuzu foi amarrado junto ao escapamento de uma viatura, até morrer sufocado pelo gás carbônico. O corpo foi enterrado no Recreio dos Bandeirantes. Com medo de descobrirem as ossadas, elas foram exumadas e atiradas ao mar.

Em Petrópolis, a Prefeitura declarou a Casa da Morte como de utilidade pública, para ali estabelecer um centro de memória.

É crucial, para a sociedade, ter consciência daquele passado. Muita gente pede a volta dos militares para acabar com a corrupção dos governos civis. Imaginam o aparecimento de um déspota esclarecido, estrategista, bom e honesto. O poder absoluto corrompe absolutamente. Virou chavão. Mas, é verdade. Nos mais de vinte anos de ditadura militar, foram 20 mil os torturados, 191 morreram nas enxovias do Estado e 243 ainda estão desaparecidos.

O autor é jornalista e articulista do JC.

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