Desde o anúncio de indicados para a 77ª edição dos prêmios da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, parecia que o Globo de Ouro de 2020 ia fazer história. Os recordistas de indicações foram todos filmes produzidos pela Netflix - "A História de Um Casamento", "O Irlandês", "Dois Papas". A gigante de streaming ia arrasar a concorrência de Hollywood? Não para a imprensa estrangeira, que atribui seus prêmios desde 1944, no início somente para o cinema, depois também para a TV. Martin Scorsese, com "O Irlandês", talvez tenha sido o grande derrotado da festa. Não levou nada.
Com seis indicações, o longa autobiográfico de Noah Baumbach sobre seu complicado processo de divórcio - ele diz que não é - rendeu a Laura Dern a estatueta de melhor atriz coadjuvante. Os melhores foram filmes produzidos pelos grandes estúdios, no sistema tradicional.
Quentin Tarantino venceu o prêmio de roteiro e agregou o melhor filme de comédia ou musical por "Era Uma Vez... em Hollywood". Se não estava surpreso de verdade, Quentin Tarantino disfarçou muito bem. "Uau" Pensei que seria para Steve Zaillian (por "O Irlandês")." Desde Pulp Fiction/Tempo de Violência, de 1995, Tarantino tem sido um recorrente vencedor de prêmios de roteiro - no Globo de Ouro e no Oscar.
A Associação já sinalizara o que viria ao atribuir o prêmio de direção para Sam Mendes, pelo extraordinário plano-sequência que dura todo o seu épico de guerra, "1917".
REVÉS PARA A NETFLIX
"1917" foge ao que era a grande tendência do ano que passou - a revolta dos excluídos -, sinalizada em Cannes, com a vitória de Parasita, de Bong Joon-ho na Palma de Ouro, confirmada em Veneza com o Leão de Ouro para "Coringa", de Todd Phillips. Mas é um imenso filme, pelo desafio estético, pela potência narrativa, pela humanidade dessa história que percorre um ciclo e começa e termina com o repouso do guerreiro sob uma árvore. Eis que "1917" venceu como melhor filme de drama e foi um sério revés para as aspirações da Netflix. A noite de triunfo da operadora de streaming virou fiasco.
"Coringa", outra produção do cinemão - da Warner -, venceu o prêmio de trilha e o melhor ator para Joaquin Phoenix - talvez fosse o prêmio mais esperado de toda a noite.
Joaquin é brilhante como o arqui-inimigo do Batman e o filme, na contramão dos blockbusters por seu intimismo dilacerado, é realmente excepcional.
Joaquin foi generoso - disse aos colegas preteridos nas categoria que nunca houve disputa entre eles. Era só uma forma de incrementar a bilheteria dos filmes. Se a sua vitória era esperada, a de Taron Egerton, como melhor ator de comédias ou musical, por "Rocketman", foi outra apoteose. Na plateia, Elton John não escondia o entusiasmo - ele que também recebeu o prêmio de canção, por I'm Gonna Love Myself Again.
SÉRIES, ETC.
A premiação, apresentada por Ricky Gervais, começou com os indicados (e premiados) de séries. Primeiro vencedor da noite, Ramy Youssef foi premiado como melhor ator de série de comédia ou musical por "Ramy". "Sucession", da HBO, venceu como melhor série de drama - a história da família Roy, que controla um dos maiores conglomerados de comunicação e entretenimento do mundo. Phoebe Waller-Bridge venceu como melhor atriz de série de comédia ou musical, por "Fleabag" - a série queridinha das feministas também foi a melhor da noite do Globo de Ouro.
Ellen De Generes recebeu o "Carol Burnett Award" por sua "outstanding" contribuição à TV e pelo pioneirismo por se expor como gay e lésbica numa época em que ainda havia preconceito na indústria.
"O bom de ganhar um prêmio especial é que a gente sabe que vai ganhar. Não passa pela tensão que vocês estão sofrendo", disse sobre os colegas indicados da noite.
Concorrendo com "Toy Story 4" e "Frozen 2", "Link Perdido", de Chris Butler, venceu como melhor animação. Realizado na técnica chamada de stop motion, o filme é sobre investigador de mitos e monstros que busca o elo perdido - na verdade, o homem primitivo.