O obituário de Pocha, 57

Por Joaquim Eliseo Mendes - Professor - Membro da ABLetras |
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Desde alguns bons anos antes de chegar em minha idade, fato que considero pertinente às gerações Y e Z dos leitores, tenho por hábito tão logo abra o jornal diário ir direto às colunas de falecimentos ocorridos para verificar se consta registro de algum amigo, conhecido e, quando ocorre, lamento e me entristeço por mais uma perda. Mesmo que, felizmente, não encontre a indesejável ocorrência, irmano-me com os familiares citados imaginando o sofrimento dos mesmos pela ausência da pessoa querida. Depois desta rápida consulta que, entendo, deva despertar um sentimento de ansiedade e reflexão muito grande, levando-nos sempre ao questionamento que todos deveríamos fazer. Quando? Em um segundo passo leio as manchetes de primeira página e a seguir as internas. Recentemente, em uma destas, o JC publicou uma notícia que, embora não se referisse ao assunto abordado acima, local ou mundial causou-me uma profunda nostalgia levando-me a minha infância que não volta mais. Informou sobre a morte da elefanta Pocha, com 57 anos, no SEB (Santuário de Elefantes Brasil), na Chapada dos Guimarães, região metropolitana de Cuiabá, em Mato Grosso.

Ressalte-se que esta Fundação deve ser motivo de orgulho para nós brasileiros. Pocha e sua filha Guilhermina, de 22 anos, vieram de Mendoza, Argentina e, graças a uma logística eficiente e um percurso de 3.228 km, em 12 de maio último chegaram ao destino. Imaginem o envolvimento desse transporte. Sua morte tem causa ainda desconhecida. Creio que para muitos a informação tenha passado despercebida, sem importância, sendo mesmo motivo de curiosidade. Guilhermina ficou órfã após conviver 35 anos com sua mãe e, talvez sem o perceber de que está vivendo em um verdadeiro paraíso animal livre dos sofrimentos pelos quais passou juntamente com a sua mãe.

Pocha, sem o saber, transportou-me à minha saudosa e inesquecível infância. Naqueles tempos idos dos aguardados ansiosamente grandes circos com engraçadíssimos palhaços, trapezistas que arrancavam um "óhhhh" de toda a plateia, do "globo da morte" com 3 ou 4 motos com uma sincronia espantosa na escuridão, do domador dos leões e tigres enormes que, embora rosnando obedeciam ao adestrador. E finalmente, no meio do picadeiro, sem grades protetoras, maravilhávamos com aquele enorme animal pesando toneladas, de pernas muito grossas, tromba, olhos minúsculos e de uma docilidade muito grande obediente ao seu adestrador, ou melhor, educador e amigo.

Nós, de mãos dadas e entrelaçadas, alienávamos do que já tínhamos assistido focando no inesquecível quadro. Só depois de muitos anos tive conhecimento do perigo de extinção que esse animal corre devido à ambição do homem por partes do seu corpo. Pocha, sem o saber, transportou-me à minha infância de inesquecíveis lembranças. Guilhermina, não sei se você sente a falta de sua mãe cujo nome deve ter aprendido, mas agora sozinha ou com outros, você será muito bem tratada e com muito amor. Pocha, seu obituário entristeceu-me. Guilhermina, desejo-lhe uma longa e saudável vida.

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